Mário Rodrigues: um contista que foge a receitas

Foto: Helder Herik/Divulgação

Se pensarmos em “Receita para se Fazer um Monstro” (Record, 2016) sob a perspectiva que Mário Rodrigues gosta de pensar o conto – a de um tijolo, um pedaço de barro retirado das entranhas da terra que o contista tem por obrigação pisar, formatar, levar ao fogo -, é quase certo que esse tijolo não vá parar em uma casa confortável ou em um paredão – esse lugar intransponível e de risco onde ele parece situar a sua obra -, mas na testa do leitor, esse bloco muito menos sólido que sofre e que sangra. Cru, violento, o seu livro vencedor do Prêmio Sesc é um híbrido de conto, crônica e romance, tão versátil quanto o autor, que já tem duas narrativas longas publicadas e é também professor, produz crítica literária em seu blog pessoal e editou, junto com os colegas Nivaldo Tenório e Helder Herik, o selo u-Carboreto. Na entrevista que concedeu ao Literatortura, o pernambucano falou sobre suas ideias acerca da literatura e sobre sua carreira, além de seu trânsito entre os gêneros que resultará, em breve, num livro sobre vingança que ele considera a “biografia não autorizada de um jogador de futebol”.

Começo fazendo a mesma pergunta que fiz para o Franklin, em virtude do diálogo – possivelmente involuntário – que o livro de vocês dois estabelece (ambos tratam de infância e violência naquela atmosfera do interior nordestino). Como você avalia esses pontos de contato entre as duas obras vencedoras do Sesc? O que isso tem a dizer (se isso tem a dizer algo) sobre a literatura que é feita, hoje, fora das grandes metrópoles, sobretudo na nossa região?
O diálogo entre os livros – e de fato há diálogo ali – é, em minha opinião, uma mera coincidência.

Todavia, é bom ressaltar que, a partir de um alicerce comum, os textos se destinam para caminhos outros e construções bem díspares até. O livro e o personagem do Franklin (“Céus e Terra”, Galego) caminham para o etéreo, o sublime. A linguagem e a narrativa ficam suspensas… Enquanto meu personagem e minha linguagem, por outro lado, singram para o outro extremo: navegam pelo físico e por seus extremos. As fímbrias da experiência humana mais comezinha é que estão em discussão, isso explica a dureza e os solavancos da linguagem, que se coadunam com aquela visão de mundo contida nas pequenas narrativas do “Receita…”.

Os livros, portanto, se completam.

Quanto à segunda parte de sua pergunta, há uma imensa pluralidade temática e de estrutura entre os escritores brasileiros contemporâneos tanto nas metrópoles como no Brasil profundo: há pessoas escrevendo mashup no interior do Nordeste como há pessoas fazendo cordel em apartamentos do Higienópolis…

Mas – aí entra uma discussão interessante – muitos livros que são publicados e que ganham alguma visibilidade (ou seja, um pedaço mínimo da produção de fato) são livros muito autocentrados, autorreferenciais, chatos. Nesse sentido, o meu livro e o do Franklin (mas não apenas estes) fogem do paradigma, saem da curva, trazem uma dicção nova e uma reflexão diversa – isso pode ter sido decisivo para angariar o Prêmio Sesc.

Você tem outros dois romances (um deles menção honrosa no prêmio), publicados pela u-Carbureto, selo teu, do Herik e do Tenório. Do que eles tratam e como foi a experiência de se lançar numa empreitada editorial? Como se dá o teu trânsito entre os gêneros e o que te levou a persistir no Sesc, em outra categoria?

Publiquei dois romance pela u-Carbureto. “A curva secreta da linha reta” e “Brazil, 2014”.

No primeiro – um road novel – acompanhamos um personagem, o Artista Plástico, cruzando por terra todo o Nordeste, de Recife a São Luís, buscando o assassino de sua mulher. Pela dicção, pelo cenário, pela forma, é um livro que dialoga com o “Receita…”

No “Brazil, 2014”, quis falar sobre o racismo. Pensei muito nesse tema durante algum tempo, quis trabalhá-lo literariamente. Acompanhamos a vida de três personagens negros durante vinte anos (1994-2014) – Rosa, uma doméstica; Minhoca, um jogador de futebol; e Chibamba, um traficante-político. E como suas vidas se tocam e se mesclam. E como se espatifam (ou não) ao se chocarem com o zeitgeist que os envolve a todos.

A publicação desses livros foi a última cadeia de uma sequência muito pragmática. Começamos u-Carbureto na universidade como fanzine; depois, virou um jornal literário; quando julgamos que nossas obras estavam amadurecendo (e sem paciência para cavar espaço em grande editoras e cientes dos gargalos do mercado), começamos a publicar como forma de nos livrar desses livros e abrir espaço para amadurecer a obra de cada um. Como na frase do Emerson: ‘A folha seca dando espaço ao novo broto.’

O objetivo de u-Carbureto, sempre brincávamos, tal qual o composto químico, era iluminar e amadurecer nossa literatura. Cumpriu esse papel, foi uma experiência válida.

Paralelo a isso, o Prêmio Sesc sempre estivera no radar. Sobretudo em virtude da publicação por uma grande casa editorial, no caso a Record. Como a concorrência via romance era inviável, por já ter publicado em tal gênero, escolhi um livro de contos e o enviei. Para mim, o personagem e o enredo pedem o gênero a ser trabalhado. Então o trânsito entre um gênero e outro sempre foi tranquilo, sem sobressaltos. Mas sempre houve também a intenção estética de borrar suas fronteiras conscientemente.

Falando ainda em gêneros, a impressão que eu tenho é que há um hibridismo do “Receita…”, e que este hibridismo relaciona muito menos o conto e o romance (como convencionalmente ocorre) que o conto, a crônica e o romance (algo que dificilmente se vê). A obra nasceu realmente como um livro de contos?

O “Receita…” é um livro híbrido, não há dúvida. É uma obra caleidoscópica; a depender do ângulo de leitura, você tem um gênero diferente. Nas palavras do Raimundo Carrero, é exemplo completo de romance desmontável. Nas palavras do João Carrascoza, não são contos-ilha, mas um continente ficcional.

Há, claro, várias teorias sobre o conto. A teoria do “iceberg” (Hemingway), a teoria da “história secreta” (Piglia), a teoria do “nocaute” (Cortázar). Vou teorizar também: o conto pode ser entendido como o barro de uma olaria. Retira-se uma porção, arranca-se das entranhas da terra. Mas é preciso pisá-lo, formatá-lo, passá-lo pelo fogo, até que fique sólido e coeso, um tijolo, com um tônus narrativo regular.

O conto requer essa precisão. E vou além: tal qual um tijolo, seu conjunto pode ser uma casa (confortável), mas pode ser um paredão (lugar de risco, de onde não se volta). De modo que gosto de contos que mostrem força individual, mas que – no conjunto do livro – seu mosaico seja ainda mais forte.

Dessa pretensão, nasceu o “Receita…”

Você é também professor de literatura e escreve crítica literária no seu blog pessoal. Que tipo de aporte essas duas funções trouxeram para a tua literatura?
Sim. Sou professor, e isso muito me orgulha. Há nessa atividade um auxílio prático: trabalhar com a linguagem e com a literatura cotidianamente fornece uma intimidade com as palavras que serve à minha produção, aguça a criticidade. Como diz um personagem do Rubem Fonseca: ‘Os melhores escritores são os professores, pois mesmo quando escrevem uma porcaria têm consciência disso…’

Como se não bastasse, é um ofício onde a indiferença não é uma possibilidade. As vivências múltiplas do alunado em uma sala de aula nos coloca em contato, sobretudo, com a dor do mundo, a dor do crescimento e do existir – ‘a vida apenas, sem mistificação’ –, que pode ser subjacente em inúmeras outras esferas profissionais, porém não na existência daqueles jovens. Ali, ela fica cauterizada. Isso é matéria-prima para literatura.

E ainda há outro elemento: aqueles meninos e meninas (infelizmente não são todos, mas felizmente são bem mais do que se imagina) lendo e se apaixonando pela leitura e descobrindo mundos através da escrita renovam, em mim, o prazer pela arte e a crença de que a literatura pode promover mudanças intrínsecas e extrínsecas. Essa experiência, que esgarça o tecido da rotina, é algo muito enriquecedor para todos.

Daí, escrever minhas impressões de leitura é forma de prolongar o prazer oferecido por um livro. Apenas isso.

O que tem preparado ou está preparando para depois do “Receita…”?

Estou trabalhando em um livro sobre a vingança, especificamente a validade da vingança. É a “biografia não autorizada de um jogador de futebol.” Será novamente uma obra de difícil classificação, quanto à questão de gênero literário.

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Ficha Técnica

Título: Receita para se Fazer um Monstro

Autor: Mário Rodrigues

Editora: Record

Páginas: 224

Preço: R$ 32,90

SOBRE O AUTOR

É mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Jornalista de formação, trabalhou em revistas, sites e cadernos culturais antes de se dedicar à literatura. Escreve crônicas, contos e romances. Na crônica, foi vencedor do Prêmio Sesc Rubem Braga, em 2016, e do Troféu Correio das Artes de autor revelação, em 2005, pelos textos reunidos na coletânea "Demônios Domésticos", a ser publicada ainda neste primeiro semestre pela editora Le Chien. No conto, foi finalista do Prêmio Off-Flip, em 2014, e publicou na antologia "Onisciente Contemporâneo" (Bestiário, 2016), organizada por Luiz Antonio de Assis Brasil. No romance, é autor de dois livros, o primeiro previsto para ser publicado em 2018, pela editora Moinhos, e o segundo ainda inédito, fruto de seu mestrado. Atualmente, escreve o terceiro livro no gênero. Nascido em Picuí (PB), em 1982, mora hoje em Porto Alegre, com sua noiva e um cão antissocial. É corredor de rua e se prepar para sua primeira maratona, em julho.