Assim nos céus como na terra: Franklin Carvalho

franklin

O Romance de 30 colocou a pecha do regionalismo sobre a literatura nordestina, e tirá-la não tem sido tarefa fácil. Frente a ela têm trabalhado sobretudo algumas escritoras que, se elevando contra uma tradição patriarcal secular, têm feito suas narrativas migrarem do sertão para a metrópole – cenário das narrativas recentes de ficcionistas como Maria Valéria Rezende, Marília Arnaud e Débora Ferraz. Na contra-corrente desta nova diáspora, há também quem retorne ao sertão, evocando aquela velho axioma tolstoiano de cantar o que há de universal na tua terra. É o caso de Franklin Carvalho. O escritor baiano, autor do romance “Céus e Terra” (Record, 2016), venceu o Prêmio Sesc de Literatura ano passado junto com outro nordestino: o pernambucano Mário Rodrigues (nosso entrevistado da próxima semana). Após contemplar duas mulheres do sudeste em sua penúltima edição (a paulista Sheyla Smanioto e a carioca Marta Barcellos), a coincidência regional volta a se repetir. Na entrevista concedida ao Literatortura, Franklin Carvalho fala um pouco sobre sua identidade com a literatura feita fora das grandes metrópoles e sobre o restante de sua obra (ele tem ainda um livro de contos, uma novela, e outro romance inédito).

 Teu livro estabelece um diálogo involuntário com o do Mário Rodrigues: não só por ambos serem ambientados no Nordeste (o dele num espaço não nomeado, pelo que me lembro – porém com toda a atmosfera das cidades do interior da região), mas também por utilizarem uma linguagem que não hesita em empregar termos locais e, principalmente, por terem narradores com experiências infantis bastante violentas. Como foi se deparar com essa feliz coincidência? O que isso tem a dizer (se é que tem algo a dizer) sobre a literatura que se faz hoje fora das grandes metrópoles.

Percebi a erupção de violências, a morte e a crueldade nos dois livros, com variações de enfoque a cada momento, em um ou no outro. São temas que só com muita vontade pode-se enfrentá-los e produzir uma abordagem original. Corre-se o risco de ficar nos estereótipos, seja por desconhecimento, timidez, ou por excessos de todo tipo, inclusive uma ênfase exagerada em qualquer aspecto. No final, acho que exploramos os assuntos conscientes do desafio e com boas ferramentas, linguagem adequada, persistência e bom plano da obra. Obtivemos a premiação e vamos descobrindo também alguns elementos em comum que perpassam as narrativas, como o circo, por exemplo, a relação dos protagonistas com a mãe etc. Acredito que os grupos instituídos pelo Sesc para examinar os trabalhos devem ter percebido a nossa preocupação em aprofundar questões universais, mas usando o microcosmo de cidades do interior. Dentro ou fora das metrópoles, há muita gente boa, e grupos, respondendo a dilemas bastante parecidos.

Você tem dois livros de contos anteriores ao romance. Do que eles tratam? Já havia tentado inscrevê-los no Prêmio Sesc? Como se deu o teu trânsito entre estes gêneros?

Lancei o “Câmara e Cadeia” em 2004, com contos urbanos, principalmente policiais, que têm Salvador como cenário. Depois comecei um romance rural, “Sangue Doce”, que se passa no Penedo, Alagoas, em 1965. Foi ali que eu percebi a força de uma imagem recorrente: um homem sozinho, indefeso, no meio do mato, desprotegido diante da natureza e sua força mística, necessitando se associar a outros para obter alguma segurança. O livro ficou pronto mas continua inédito, quero retomá-lo e editá-lo. Foi desse texto que surgiu o “Encourado”, a história de um vampiro do sertão, uma novela, que se inspira em “O Castelo dos Destinos Cruzados”, de Ítalo Calvino, na forma, pois a narrativa está articulada com imagens. Já na linguagem, se liga à literatura oral, aos contos da tradição. Publiquei-o em 2009. O mesmo “Sangue Doce” me sugeriu outra pessoa no mato, vulnerável, o menino Galego, que não se salva, morre, e somente aí pode procurar outros homens. A primeira versão de “Câmara e Cadeia” foi submetida ao Prêmio Sesc, sempre tive esta seleção como referência.

O romance tem origem na tua pesquisa sobre a morte para um mestrado em antropologia. Em que momento você percebeu que a tua investigação acadêmica poderia render um material ficcional?

Tenho interesse pelo tema da morte desde criança, pelo convívio no sertão, pelo mistério que desperta. Com os primos, lia e investigava coisas ocultas, fascinado. Tinha algum medo e pesadelos, mas desejava fazer arte com o tema, inspirado em Dante, Raul Seixas, os simbolistas, Buñuel etc. Já adulto, percebi que quanto mais investigava, mais o medo era ressignificado, embora nunca tenha ficado insensível. Escolhi antropologia para um mestrado (sou jornalista) e estudei muito para a seleção, fui a congressos, entrevistei várias pessoas, observei um grupo católico de orações. Depois, fazendo uma matéria sobre Antropologia da Morte, na UFBA, de forma independente, acabei mudando de ideia. Resolvi escrever o “Céus e Terra”, precisava fazer o livro para aproveitar as vozes que tinha reunido. Depois continuei lendo e escrevendo sobre a morte, fui a Nápoles ver o culto às almas do purgatório, ao México ver o Dia de Muertos e ainda gosto de antropologia, aprecio etnografias. Também sobre inspirações para “Céus e Terra”, foi interessante o livro “Texaco”, do martinicano Patrick Chamoiseau, que pesquisou o surgimento de uma favela, num terreno da empresa Texaco, para um doutorado em Economia. Ele acabou aproveitando a inspiração e fez um belo romance.

 Chama atenção em “Céus e Terra” não apenas a voz do narrador, Galego, mas também a estrutura, com capítulos relativos aos meses em que a história é narrada. Por que escolher narrar a partir deste morto, e não dos outros, e por que circunscrever a história ao longo desses doze meses?

O Galego é mais do que um ser à margem da sociedade, ele é quase tragado pela natureza. E no momento de sua morte, quando essa assimilação está para se completar, ele desperta para a necessidade de interação, ele se pergunta: que coisas são essas, os homens? Quase sem experiência social, tabula rasa, ele tem um ponto de vista privilegiado para visualizar as pessoas, conhecer suas verdades íntimas. Mas ele também ganha potências, como viajar no tempo, acessar uma linguagem que lhe permita traduzir-se etc. Estruturar a história em meses, circunscritos ao ano de 1974 é uma forma de domar uma de suas potências, fixar o personagem no tempo, que também é um condicionante cultural, social.

Quais são tuas expectativas com relação ao futuro da tua carreira literária, dada a visibilidade que o prêmio proporciona ao teu trabalho?

O grande desafio para os próximos dias, próximas horas, é equilibrar o tempo de divulgação do “Céus e Terra”, uma coisa que me absorve, mas que também é prazeroso, pelo contato com o público, com a retomada de alguns projetos. Estou muito feliz com essa entonação que incorporei, pelo menos nessa fase, de uma certa ruralidade, de seus valores e precariedade, em confronto com a sociedade mais urbana, em várias épocas. Quero concluir um livro de contos que já está bem adiantado nesse tom, e quero reler o romance “Sangue Doce”, acredito muito nele, tem uma pegada cômica e muito poética, é um livro sobre amor, sobre cartas de amor e a paixão na sua versão masculina. Haveria algo mais patético?

1540-1

Ficha técnica

Título: “Céus e Terra”

Autor: Franklin Carvalho

Editora: Record

208 páginas

Preço: R$ 32,90 (livro)

SOBRE O AUTOR

É mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Jornalista de formação, trabalhou em revistas, sites e cadernos culturais antes de se dedicar à literatura. Escreve crônicas, contos e romances. Na crônica, foi vencedor do Prêmio Sesc Rubem Braga, em 2016, e do Troféu Correio das Artes de autor revelação, em 2005, pelos textos reunidos na coletânea "Demônios Domésticos", a ser publicada ainda neste primeiro semestre pela editora Le Chien. No conto, foi finalista do Prêmio Off-Flip, em 2014, e publicou na antologia "Onisciente Contemporâneo" (Bestiário, 2016), organizada por Luiz Antonio de Assis Brasil. No romance, é autor de dois livros, o primeiro previsto para ser publicado em 2018, pela editora Moinhos, e o segundo ainda inédito, fruto de seu mestrado. Atualmente, escreve o terceiro livro no gênero. Nascido em Picuí (PB), em 1982, mora hoje em Porto Alegre, com sua noiva e um cão antissocial. É corredor de rua e se prepar para sua primeira maratona, em julho.