Mãos (literalmente) à obra: uma entrevista com Daniel Gruber

Crédito: Gabriela Reinheimer/Divulgação

Há alguns anos, talvez, o destino seria a gaveta. Mas depois de bater na trave do Prêmio Sesc e da temporada de originais da Grua; depois de enviar sua coletânea de contos para algumas editoras e, como é de praxe, não ter recebido resposta da maioria delas, o gaúcho Daniel Gruber recusou o expediente de grande parte dos escritores em início de carreira. Com formação em edição de livros, pôs literalmente as mãos na obra: editou os próprios originais e inscreveu o projeto no Catarse (conheça e colabore neste link). “O Jardim das Hespérides” será o primeiro título do selo O Grifo, voltado especialmente para projetos de financiamento coletivo como o dele. A duas semanas do fim da campanha de crowdfunding, Gruber falou ao Literatortura sobre a experiência de se lançar sozinho no mercado, sobre a escrita do livro e sua trajetória como doutorando em Escrita Criativa na Pucrs.

1. Até aqui, transcorrida mais da metade da campanha de financiamento do livro no Catarse, como tem sido a experiência de utilizar esse recurso para viabilizar o projeto? Por que, aliás, viabilizá-lo desta forma e não pelos meios convencionais?

Tem sido ótimo, cada apoio que entra é uma comemoração. Fico entrando de meia em meia hora na página para ver se mais alguém apoiou. Uma coisa legal do crowdfunding (especialmente do Catarse, que é o que eu conheço melhor) é que além de uma plataforma muito prática para viabilizar projetos, ela também forma uma espécie de comunidade. Apoiar um projeto é como fazer uma tatuagem: depois da primeira você já começa a pensar na próxima. Tenho divulgado o livro bastante nos meios literários, mas quem realmente está respondendo positivamente é o pessoal que faz parte dessa comunidade de crowdfunding, ou seja, pessoas que já apoiaram outros projetos antes.

2. “O Jardim…” foi finalista do Prêmio Sesc ano passado. Você chegou a submetê-lo a outros editais ou ao crivo de alguma editora?

Sim. O livro também foi pré-selecionado na temporada de originais da editora Grua. Depois mandei para umas quatro ou cinco editoras de médio ou grande porte, e só uma me respondeu. Por último, tentei as pequenas, mas a maioria delas trabalha com coparticipação, isto é, você precisa investir dinheiro para ver seu livro publicado. Cheguei a fazer uma planilha no Excel com editoras que poderiam se interessar. Sou meio tímido com isso de ficar abordando os editores e pedindo para eles lerem meu original, então tentei pelo método mais burocrático. Por fim, achei que publicar por conta própria seria menos trabalhoso do que sair conversando com as pessoas, o que é uma bobagem, claro, porque agora estou tendo que fazer isso o tempo todo. Mas ainda não me arrependi.

3. O teu projeto vai além do livro: fomenta também a criação do selo O Grifo. Quais são tuas expectativas futuras em relação ao selo? O que leva alguém a querer fundar uma editora num momento em que é consenso que o contexto de mercado não é dos mais salubres, livrarias e cadernos de cultura fecham e a literatura não parece estar muito na pauta social?

Na verdade, eu estou apostando na autopublicação, que é um negócio que está crescendo muito no Brasil, só que em nichos específicos, como na literatura de gênero – fantasia, FC, terror, chick-lit etc. – e nos quadrinhos. Em plataformas como o Kindle Direct Publishing, da Amazon, tem gente que já largou o emprego e hoje vive só publicando seus livros, sem nenhum intermediário. Quase não ficamos sabendo sobre isso, mas ficamos repetindo velhos clichês de que literatura não dá dinheiro. A ideia em O Grifo não é de funcionar como uma editora convencional (portanto não entraria na disputa com as demais), mas como um selo para uma boa literatura publicada de forma independente. Seria voltado apenas para projetos de crowdfunding, sem distribuição em livrarias. O selo forneceria o serviço editorial – preparação, revisão, projeto gráfico, diagramação, divulgação –, mas o próprio autor o colocaria no ar e faria acontecer. Ainda estou resolvendo algumas questões práticas para que o selo possa existir, mas quero muito que dê certo.

4. O livro aborda o contemporâneo a partir do viés da mitologia. Tecnicamente, como isso se delineia nas narrativas? Trata-se de uma questão de temática ou isso está de alguma maneira expresso também na estrutura dos contos?

Isso de “contemporâneo” é meio que um lugar-comum, que uso por falta de saber definir. O autor é a pior pessoa do mundo para descrever seu próprio livro.

Já o tema da mitologia foi algo que apareceu durante o processo de escrita. A princípio, era apenas uma reunião de contos que eu tinha escrito na época, três ou quatro anos atrás. Então tinha esse conto que dá nome ao livro, “O Jardim das Hespérides”, em que uma das personagens tinha um nome tirado da mitologia, porque os pais dela “eram historiadores e se conheceram tomando ácido, escutando Hendrix e tudo mais” (como ela mesma define).  Até então os contos não tinham nenhum tema ou unidade. Aí surgiu a ideia de que todos os personagens do livro tivessem nomes gregos, que ao mesmo tempo soassem comuns, mas que referissem a algum personagem da mitologia, como Helena, Ariadne, Diógenes, Cibele, Alcides, etc. À medida que ia pesquisando sobre esses nomes e mitos, fui incorporando referências às histórias. Então essa passou a ser a unidade do livro na minha cabeça, e a partir daí a própria estrutura do livro mudou. Cortei fora alguns contos que não se adequavam nessa proposta e escrevi outros pensando especialmente nisso. Virou um projeto concreto. Só então achei que tinha um livro consistente para ser publicado. Se vai funcionar para o leitor da forma como funcionou para mim eu não sei, mas estou ansioso para descobrir.

5. Você é doutorando em Escrita Criativa na Pucrs e um entusiasta das oficinas literárias. Como enxerga a área no contexto acadêmico e fora dele, inserida num sistema literário que ainda está amadurecendo como o brasileiro, em que se diz às vezes que há muitos escritores para poucos leitores, quase todos eles, por sinal, escritores?

Primeiro é preciso separar: oficinas literárias são uma realidade e escrita no meio acadêmico é outra. No caso da primeira, não tenho dúvidas de que funciona. Funcionou para mim e para um monte de bons escritores que estão aí rompendo paradigmas. Quem critica as oficinas literárias é sempre alguém que não as fez. Não conheço alguém que tenha cursado oficina dizer que piorou sua escrita. As oficinas não ensinam a escrever, como ressaltam os professores, mas é um espaço de convívio com outros escritores, de trocar ideias e colocar seus textos à prova com o pior tipo de leitor, o crítico. Além do mais, para você inovar em qualquer área, você precisa conhecer o básico. Para desconstruir, é preciso antes saber construir. As oficinas servem para atalhar o conhecimento dos escritores, para eles conhecerem a base sobre a escrita, justamente para que possam subverter essa lógica com consciência.

A escrita na academia deveria ser uma extensão disso, mas envolve toda a lógica acadêmica e, por ser uma área nova, que além de tudo é formada por artistas, ainda desperta muita desconfiança nos colegas mais hard science. Nós mesmos da Escrita Criativa, tanto alunos como professores, estamos tateando no escuro, tentando descobrir tudo o que é possível fazer nesse horizonte que se abriu. É louvável a coragem e a iniciativa da Pucrs de tentar dar esse passo. Estamos todos querendo saber onde isso vai dar.

Por fim, concordo contigo que o sistema literário no Brasil é incipiente, não tanto pelo número de leitores, que é realmente baixo, mas mais pela falta de uma organização amadurecida. Também concordo que há quase mais escritores do que leitores, mas tento ser otimista quanto a essa situação. As grandes livrarias e editoras têm se tornado espaço exclusivo dos best-sellers. Tirando eles, o resto da literatura se dividiu em pequenos grupos. Por exemplo: está crescendo o espaço da literatura dita “marginal”, mas ela não concorre no mesmo espaço que grandes autores. No entanto, cada nicho tem seu próprio público. No caso de novos escritores, seu público é de colegas escritores. Temos que aprender a trabalhar com essa realidade. Se cada um de nós ler os seus pares, movimentamos a roda dos pequenos. Temos um sistema que se retroalimenta e que, aos poucos, pode acabar se expandindo.

 

SOBRE O AUTOR

É mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Jornalista de formação, trabalhou em revistas, sites e cadernos culturais antes de se dedicar à literatura. Escreve crônicas, contos e romances. Na crônica, foi vencedor do Prêmio Sesc Rubem Braga, em 2016, e do Troféu Correio das Artes de autor revelação, em 2005, pelos textos reunidos na coletânea "Demônios Domésticos", a ser publicada ainda neste primeiro semestre pela editora Le Chien. No conto, foi finalista do Prêmio Off-Flip, em 2014, e publicou na antologia "Onisciente Contemporâneo" (Bestiário, 2016), organizada por Luiz Antonio de Assis Brasil. No romance, é autor de dois livros, o primeiro previsto para ser publicado em 2018, pela editora Moinhos, e o segundo ainda inédito, fruto de seu mestrado. Atualmente, escreve o terceiro livro no gênero. Nascido em Picuí (PB), em 1982, mora hoje em Porto Alegre, com sua noiva e um cão antissocial. É corredor de rua e se prepar para sua primeira maratona, em julho.