“Homens Elegantes” à luz da teoria da relatividade

Foto: Fred Cabral/Divulgação

Toda escrita é um produto direto de seu tempo, documento fiel de sua época. Poucos são os escritores, porém, que conseguem fazer de sua literatura um registro perene de seu momento histórico. Porque não se trata apenas de escrever sobre o presente. Trata-se antes de injetar, no âmago da escrita, toda a angústia do instante criador. De cavar bem fundo em sua terra e cultivá-la no adubo de uma cultura em rotação. De ará-la, regá-la, vê-la brotar ao sabor das intempéries. Nesse chão, nem toda planta que floresce dá em árvore. Nem toda árvore que cresce dá em sombra onde leitores do futuro poderão cansar suas quietudes.

Se deixar um testemunho durável de sua época é algo raro entre os escritores que escrevem sobre o seu tempo, que dirá entre os escritores que escrevem sobre um tempo remoto, aquém ou além do seu. Como, por exemplo, dizer alguma coisa de pertinente sobre os dias atuais deslocando-se três séculos no calendário cristão e indo parar no distante ano da graça de 1760? Difícil? Aumentemos então o nível do desafio: como dizer algo de pertinente sobre um país chamado Brasil, um Estado democrático em que discursos de violência e de ódio são alçados à categoria de plataformas políticas, mudando também de geografia, escrevendo sobre a Inglaterra nos auspícios da era industrial?

Em “Homens Elegantes” (Rocco, 2016), Samir Machado de Machado manipula tais variantes de tempo e espaço numa equação tão bem orquestrada que é impossível dizer que seu romance, essa magistral narrativa de aventura, tenha sido concebido em pleno século 21 (como, da mesma forma, seria impossível dizer que se poderia concebê-lo em outro século que não esse). A escrita de Samir opera como se as teorias de Albert Einstein encontrassem as de André Gide – escritor francês que dizia não se interessar nem pelo amanhã nem pelo ontem, mas por qualquer tempo que, em qualquer época, poderia se chamar de hoje.

A menção a Einstein é oportuna: talvez só ele coloque em bases científicas esse fenômeno, tão improvável, de se ler as quase seiscentas páginas do calhamaço que o escritor pariu como se estivéssemos lendo uma novela de poucas páginas. Se a relatividade não for suficiente para justificar ao leitor o prazer de se carregar esse livro por um par de semanas, para cima e para baixo, sem se dar conta de que ele tem o peso de um tijolo, a própria leitura lhe dá algumas pistas: valendo-se de uma prosa veloz, que não se furta de uma contextualização e uma ambientação que ocultam uma pesquisa esmerada, o autor captura o leitor num enredo cativante e quase sem excessos. homens-elegantes3

Inútil se esforçar para não incorrer no clichê de que a prosa de Samir – sobretudo nos sucessivos clímaces do romance, nos momentos em que os longos blocos de parágrafos se dividem em dois, emulando planos de câmera que miram cenas distintas, mas de ocorrência simultânea – é uma prosa bastante influenciada pela linguagem do cinema (vá longe e pense no autor como um cineasta que coleciona habilidades de um bom roteirista e de um diretor de arte excepcional, daqueles que arrebanham estatuetas; rebobine um pouco e tome conhecimento, pela leitura da orelha, de que os direitos desta obra, bem como do romance anterior, “Quatro Soldados”, foram adquiridos por uma produtora de cinema brasileira).

Voltando ao território literário, “Homens Elegantes” é uma empreitada que lembra, não apenas por sua envergadura histórica, mas também pelo seu vigor, “Os Luminares” (Biblioteca Azul, 2014), projeto que notabilizou a neozelandeza Eleanor Catton,  escritora mais jovem a ganhar um Man Booker Prize, aos 28 anos. A sua leitura revela igual espanto diante de um universo reinventado em palavras com a minúcia de um restaurador diante da parede de uma igreja que teve sua fachada ancestral modificada por várias demãos de tinta: quantos séculos de história e de literatura não separam esses escritores das situações que, em seus livros, eles simulam como se os modelos para elas estivessem logo ali, diante deles?

Para quem acha que falta imaginação, poder de convencimento e disposição para se contar uma boa história na literatura contemporânea, vamos encontrar tais atributos em livros que começam a desconcertar seus vizinhos de prateleiras mergulhando numa nebulosa zona de desconforto da qual eles abdicaram, retratando nosso desalento perante os apáticos anos 2000 em histórias tão convencionais quanto o rolar da timeline numa manhã de segunda-feira. É notório que um autor como Samir, com um protagonista homossexual que chega a fazer seu arqui-inimigo (um conde providencialmente batizado de Bolsonaro) engolir seus manifestos homofóbicos numa das mais deliciosas passagens do livro, tenha viajado no espaço e no tempo para tornar sua crítica ainda mais contundente.

Como o Brasil de hoje, a prosa de Samir retrocede no tempo. Diferente do país, contudo, ela sabe perfeitamente onde quer chegar.

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Ficha técnica

Título: Homens Elegantes

Autor: Samir Machado de Machado

Editora: Rocco

576 páginas

Preço: R$ 59,50 (livro) e R$ 29,50 (e-book)

Avaliação: Ótimo (5/5)

SOBRE O AUTOR

É mestre e doutorando em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Jornalista de formação, trabalhou em revistas, sites e cadernos culturais antes de se dedicar à literatura. Escreve crônicas, contos e romances. Na crônica, foi vencedor do Prêmio Sesc Rubem Braga, em 2016, e do Troféu Correio das Artes de autor revelação, em 2005, pelos textos reunidos na coletânea "Demônios Domésticos", a ser publicada ainda neste primeiro semestre pela editora Le Chien. No conto, foi finalista do Prêmio Off-Flip, em 2014, e publicou na antologia "Onisciente Contemporâneo" (Bestiário, 2016), organizada por Luiz Antonio de Assis Brasil. No romance, é autor de dois livros, o primeiro previsto para ser publicado em 2018, pela editora Moinhos, e o segundo ainda inédito, fruto de seu mestrado. Atualmente, escreve o terceiro livro no gênero. Nascido em Picuí (PB), em 1982, mora hoje em Porto Alegre, com sua noiva e um cão antissocial. É corredor de rua e se prepar para sua primeira maratona, em julho.