As mãos que conservam palavras

livraria e sebo comunicação

Na região da Savassi (Belo Horizonte), mais precisamente na rua Alagoas, fica o Sebo Comunicação.  À primeira vista, há certa dificuldade em percebê-lo, pequeno e discreto, sobre a Livraria Ouvidor. Algumas escadas e estou dentro do local: relativamente grande, vazio e abarrotado de livros dos mais variados tipos. Sobre uma estante, um quadro de Virginia Woolf chama atenção e rende uma conversa inicial com o dono à minha espera. ‘’Ah, mas a minha musa mesmo é aquela ali, a Clarice’’, Marco Antônio, já de pé, solta, apontando para outro quadro, dessa vez um de Clarice Lispector. ‘’Você já leu A Maçã No Escuro?’’, o senhor pergunta, como que esperando o que virá a seguir. Por fim, acaba se surpreendendo com minha resposta, que dá gancho para uma série de perguntas e afirmações empolgadas sobre o quanto as obras da autora são peças fundamentais da literatura brasileira. Quando percebo, já estamos sentados, envolvidos em uma conversa que se interrompe a cada vez que um cliente novo chega.

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Ao ser perguntado acerca dos motivos que o levaram a trabalhar com literatura, os olhos de seu Marco se tornam vagos, como se o homem procurasse pela resposta em alguma parte do passado. ‘’Olha, deve ter alguma coisa no meu DNA, algo de família mesmo. Porque meu avô, que foi imigrante da Alemanha, gostava muito de livro. Meu outro, que veio de Portugal, também era bibliotecário, assim como uma irmã minha que trabalhou na biblioteca da UFMG por vinte e cinco anos. A outra é escritora, tem alguns livros publicados. Desde pequeno, eu sempre fui fascinado pelos livros do meu irmão’’, ele termina, ainda que a contragosto, no momento em que o primeiro cliente da manhã surge à porta. Este procura as obras completas de Santa Teresa. E, assim, lá se vai Marco Antônio à procura do pedido no meio das estantes, aparentemente tão conhecidas como os cômodos de sua casa.

O encanto pelo mundo das letras acompanhou seu Marco até nos momentos mais difíceis de sua vida. Na ditadura, período no qual ficou preso em uma região carioca próxima ao bairro Vila Militar, o senhor chegou até mesmo a contrabandear exemplares dentro do presídio. Posteriormente, durante os dez anos de moradia na Suécia, frequentou compulsivamente as bibliotecas do país de forma que, ao voltar para as terras brasileiras em meados de 1992, se viu determinado a disseminar o hábito da leitura pelos belo-horizontinos: Entre feiras em instituições de ensino e projetos literários nas ruas, o homem deu prosseguimento aos trabalhos empresariais do irmão, na época dono da Editora Comunicação. Com as dificuldades do mercado, aos poucos, o que era uma editora veio a se tornar o que hoje é o Sebo Comunicação. ‘’Aqui no Brasil é mais complicado, né. Essa falta de contato com a literatura é algo cultural do nosso país’’, afirma o senhor, ao ser rememorado sobre a transformação que seu trabalho teve com o tempo.

Atualmente, é possível encontrar livros novos e usados em seu estabelecimento, assim como um menu bastante variado: ali, os grandes clássicos dividem prateleiras com best-sellers e as obras técnicas são facilmente encontradas entre nichos de trabalhos literários. Toda a mistura acaba por dar o tom que o lugar merece, diferenciando-o das demais livrarias do tipo da região. Diante de tanto material, Marco Antônio parece adivinhar meus pensamentos ao explicar que os mais procurados pelos clientes são os da área médica, principalmente de Psicologia, esoterismo e auto ajuda. ‘’Esse rapaz aí que acabou de sair’’, apontando para a porta, ele prossegue ‘’veio procurar as obras completas da Santa Tereza e Os Cristãos na Literatura. Religião é outra coisa que vende demais’’. Aproveito para perguntar sobre os infanto-juvenis, encarados por muitos como a salvação do mercado editorial brasileiro e aparentemente esquecidos por ele. ‘’Ah, estes também vendem. Todo dia tem uma garotada mais jovem aqui’’.

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Em relação ao recebimento e a venda dos exemplares, seu Marco ressalta que troca, aluga, faz venda, doa livros para escolas da Savassi e os dispõe em certas ruas do bairro. ‘’Aqui perto tem uma estátua de uma escritora, a Henriqueta Lisboa. Todo dia eu coloco um livro em sua mão para que alguém o pegue e leia’’, ele enfatiza o aspecto humanitário do ofício. ‘’Já aconteceu de gente pegar o livro que eu coloquei lá e vir aqui vender para mim. Eles não entendem que eu preciso sobreviver. Trabalhar com livro é difícil, minha aposentaria é baixa e a Internet está aí. Vários amigos já até migraram do físico para o ambiente virtual, porque não tem certos custos’’. Com a mão na testa, o moço finaliza como o esperado: ‘’ Eu sinto o impacto da Internet na minha profissão.’’

Ao final de nossa conversa, seus últimos dizeres soam como uma tentativa de buscar definição para toda a vida dedicada às letras, pontos e parágrafos. ‘’Eu acho que quem trabalha em um sebo é o artista que conserva palavras. A gente recebe o livro e tem que limpar ele, consertar as páginas estragadas, mexer na lombada, raspar as áreas de corte. Como a rentabilidade do trabalho caiu muito, eu mesmo o faço, mas é muito prazeroso. Eu me identifico com isso, porque é uma maneira de transformar o ser humano. E é justamente por isso que eu me sinto tão bem trabalhando com os livros’’.


PS: Conversar com Seu Marco há uns meses me lembrou do quanto somos influenciados pelas vidas que se esbarram nas nossas diariamente. Ouvir a história do livreiro de sebo me tocou de tal forma que rendeu, além de uma matéria jornalística, esta crônica. Não poderia deixar de trazê-la para cá e difundir tanto amor por literatura.

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