Sublime, Bauman! Continuamos líquidos por aqui.

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Zygmunt Bauman se foi e eu, como tem se tornado tradição no Literatortura, encargo-me de nos despedir dos nossos heróis. Este texto já estava pronto; fomos pegos de surpresa. Mas o curioso é que seu pensamento, de tão atual e universal, abarca naturalmente quase toda reflexão contemporânea! Reforçando-o em Theodor Adorno, “o indivíduo contém em si o coletivo”. Facilitam-me a vida mesmo com sua partida.

Diria a eles que uma das sensações a me tomar no início de todo novo ano é a da liberdade. Uma brisa, uma esperança, um não sei o quê de frescor bem leve; o que me levou a refletir que, se há um anseio por mais liberdade é porque existe, em contrapartida, uma perda de alguma outra coisa que lhe seja inversamente proporcional. Vejo as crianças retornando ao seu ano letivo e, meio a uma nostalgia, percebo que eu não soube até agora lidar muito bem com a liberdade. Desde que cresci não faço os deveres de casa, não organizo meu tempo e meus arquivos como deveria, não obedeço ao espaço do caderno de linhas que herdei do ensino fundamental. Pego meus talentos e rolo os dados. Tentei me recordar dos exercícios de aprendizagem. Eram rígidos, eram construtores, iam até o fim.

Quando brincava, enfileirava os carrinhos; guardava-os imediatamente após terminar de brincar. Uma vez, decidi desenhar, em folhas próprias, cada um dos países que existem no planeta, com suas capitais e peculiaridades. Não desisti até chegar à letra Z, de Zygmunt. Hoje, com tanta informação, com tanto objetivo, com tanta mobilidade, com tanta relatividade, com tanto valor para ser sopesado, vejo que me perdi no caminho. Se me recordo bem de O Senhor dos Anéis, Frodo diz a Sam, no caminho até Mordor, que o trunfo do herói é não ter desistido no último degrau da escalada. Algo assim. Sim, acho que Sam foi o verdadeiro herói.

Mas, bem antes de ler meu primeiro grande livro, lembro-me que foi um pesadelo ter que escrever à caneta e não mais a lápis; que foi uma grande expectativa para toda a classe começar a usar referido caderno de linhas; como foi uma decepção ver recusado, pela professora Cidinha, o meu pedido de não escrever no verso de cada folha. Não sei o que passava pela minha cabeça; o verso já estava marcado pela escrita do anverso; era sombrio; uma alma já gasta; e a espiral de ferro me atrapalhava também. Mal cogitava a maravilha que seria a branquidão de uma folha do Word, e, hoje, é engraçado como não troco aquela página do verso do caderno por nada nem por ninguém. Cicatrizes de batalha.

Também foi um acontecimento de outro mundo quando, na quinta série, começamos a enfrentar um professor para cada matéria. Isto já era uma situação de liberdade: a chance de optar por um entre seis ou sete professores. Desamarrar-se da única opção que tínhamos e que, até então, imaginávamos que fosse realmente a única opção. Descobrimos que existiam outras possibilidades. A maçã do Éden! Ou o Anel que a todos poderia governar? Talvez, as redes sociais e a elaboração de um cidadão ou de um “eu-mesmo” virtual. Haveria, depois, a chance de querer gostar mais de um professor do que do outro, ou de desobedecer algum para recorrer a outro também… Meus pais que dizem: “Muita fartura faz miséria”. Bauman dizia, com o perdão da licença poética: “Se não concorda comigo, amigo, dá dislike ou me deleta”.

Dentre tudo, era uma ânsia para chegar até o final da linha! Preenchê-la completamente… Havia uma decisão dificílima de se a próxima palavra caberia exatamente ali! Sem certeza, nem a escreveria. O traço era imenso! A professora ensinava que deveria ser apenas um tracinho. Até isso subverti. Libertei-me da regra, fazia traços enormes, só para preencher! Mas, refletindo por outro lado, estava aprisionado na ideia do preenchimento. As pessoas querem ser completas, preenchidas. Os livros de auto-ajuda dizem isto. Isto também é uma espécie de aprisionamento. As ideias, todas as ideias, deveriam servir para refletir; jamais para aconselhar.

No final das contas, o filósofo Hegel pode ter razão ao dizer que a liberdade é o motor da história. Acelera, faz conhecer novos lugares, faz esquecer velhos hábitos; mas quando trava, também, faz-nos estagnar. Quando cheguei à última página da obra de Tolkien, quando quase chegando “lá”, não conseguia terminar. Não por preguiça, cansaço ou desinteresse, mas por não querer terminá-la. Queria continuar. Perdi as contas de quantas vezes li e reli aquele último parágrafo. Acabar é sempre difícil. Contrariamente vivemos, hoje, um medo tão grande, mas tão imenso, de não terminar nada com temor dos resultados que virão, que… Não sei se lutamos pela ou contra a libertação. Ah, Bauman! Vá em paz e sublime sua compreensão nem que um cadinho mais! Continuamos líquidos por aqui.

 

 

Revisado por Fernanda Miki

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.