Sobre as nossas cabeças, a conspiração.

Brazilian President Michel Temer (C) attends the funeral of Supreme Court Justice Teori Zavascki at the Federal Regional Court of the 4th Region, where the wake is being held in Porto Alegre, southern Brazil, on January 21, 2017.
Relatives and allies of Zavascki, who was involved in probing a corruption scandal potentially implicating Brazil's president, demanded on January 20, 2017 a full investigation into the magistrate's death in an air crash that killed all five people on board the light plane. / AFP PHOTO / JEFFERSON BERNARDES

Deus foi criado, enquanto ideia, na ignorância de não conhecer as razões primeiras das coisas, do universo, ou no medo e na iminência da morte. É o que algumas pessoas defendem. Verdade ou não, mesmo que sendo mera especulação, não há dúvidas de que em ocasiões críticas cogita-se (nem que por um segundo) a existência e o se insurgir de um salvador não apenas de ótimas intenções como também de poderes bastantes para lidar contra todo mal.

O ponto crítico desta geração é, de repente, mediante uma série de acontecimentos absolutamente fora do nosso controle, abandonar as teorias políticas, jurídicas, sociológicas, as esperanças educacionais, as utopias humanas, as capacidades das forças de segurança e comentar, baixinho, conosco mesmos, olhando para o nada: só Deus, ou o Chapolin Colorado, para dar conta desse país endiabrado. E não é piada. Em dado estado de nossa sociedade as análises mais sérias e técnicas podem não valer de nada já que passíveis de controle ideológico ou partidário.

Seja a esperança na existência de um vigilante noturno, como o Batman; de um extraterrestre com grandes poderes, como o Super-Homem; de alguém que colha provas rapidamente, como o Flash; de alguém que amedronte os bandidos, como o Demolidor; de alguém que, vendo os assassinatos em série dos candidatos a prefeito, resolva candidatar-se para interromper a onda de mortes, como o Arqueiro; de alguém que tenha todo poder, esteja em todos os lugares e possa salvar a todos, como o próprio Deus; ou de um magistrado popular que consiga colocar todos os criminosos em nossas penitenciárias ultrapassadas, hiper-lotadas, descontroladas e desestruturadas…

…Refletimos. Tal reflexão voou pela minha cabeça com a queda do avião em que Teori Zavascki viajava. Chega a ser cruel dizer que até seu nome nos impulsiona a refletir sobre conspirações.

A situação que foge à simples relação política, cidadã, de poderes democráticos e que visam ao bem comum, toma outro aspecto a partir do momento em que, sob termos bem contemporâneos, torna-se um seriado de atos inescrupulosos. A sociedade perde a graça e não há mais pelo quê jogar. Leva-nos a pensar se o Estado existe para cuidar do problema carcerário ou se o problema carcerário é culpa dele; a pensar na razão das bases dos heróis serem escondidas, inclusive, dos governos e da polícia; de reforçar a hipótese de que nosso parlamento em verdade seja controlado por influências econômicas que não querem ver um Brasil emancipado, justo e educado. Resquícios de um tempo em que a campanha eleitoral terminava com a posse do eleito, e só.

Uma vez, perguntei a um professor de Direito Constitucional sobre os jogos de influência que existem no Congresso Nacional. Disse-me que, sobre a teoria política, poderia me explicar detalhadamente; no entanto, sobre tal vertente da magia negra, não.

Não é uma simples questão de teorizar se o avião de um ministro do Supremo Tribunal Federal foi ou não foi sabotado, ou se ele foi ou não foi assassinado (como pode ter acontecido também com Castello Branco, Ulysses Guimarães, Eduardo Campos, João Goulart, Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek…). Falamos é de uma desconfiança para com todo o nosso planejamento social. A sociedade, o Estado, era para ser um plano de maturação das virtudes e não uma incubadora na qual potencializamos os vícios da humanidade. Se chegamos a teorizar tais coisas é porque muito de ruim já está ou foi concretizado.

Não quero dar spoilers dos nossos heróis dos quadrinhos; mas, por óbvio, se as suas histórias ainda não chegaram ao fim é porque os vilões continuam por aí. Por mais difícil que seja para este escritor que vos fala – relativamente nerd e nascido no fim dos anos 80 – assumir, não são os heróis que mudam a sociedade. E, transformando a afirmação de um amigo, José Luiz Borges Horta, em indagação: somos um país de jagunços? Ou isso também é mera reflexão conspiratória?

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.