O que os Blockbusters têm a nos dizer sobre nossos heróis?

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Se abrirmos o dicionário, leitor, e procurarmos pela definição de herói, provavelmente encontraríamos algo semelhante a: alguém dotado de virtudes e que é capaz de se manter atrelado a elas apesar das adversidades. Já, se partirmos para Joseph Campbell, perceberíamos que, a partir de seus estudos – grosso modo –, toda sociedade tem em sua “mentalidade coletiva” uma estrutura acerca do mito heroico, e que essa estrutura é comum a todos esses mitos.

Mas qual seria a função do herói em uma sociedade? Bem, a essa conclusão chegamos rapidamente: servir de modelo em relação a suas virtudes e comportamento, para que todos possam ter alguém a quem se espelhar e modo de agir e, assim, tornar o seu meio social um lugar melhor; um exemplo que poderíamos usar é o das obras literárias gregas, que traziam modelos a serem seguidos, seja nas tragédias, reagindo com honra e aceitação ao seu destino, seja nas epopeias que retratavam os grandes feitos.

Por outro lado, hoje em dia, tem aparecido uma outra conceituação do que é ser herói, com o surgimento do herói moderno, falho, que nem sempre consegue alcançar seus objetivos e não é lá um dos melhores modelos a serem seguidos – já que ele se aproxima muito mais do homem comum, falho. Mas ainda podemos nos enxergar senão as qualidades, a luta para se viver e trespassar por esse mundo desequilibrado.

E no cinema não tem sido diferente. Se pararmos para olhar para os blockbusters recentes, a produção para massa, podemos fazer um breve diagnóstico: as maiores bilheterias têm sido de filmes de super-heróis e que, em sua maioria, apresentam um maniqueísmo bem marcado, ou seja, é bem clara a posição do bem versus mal – mesmo que o “lado bom” seja o dos bandidos – e a figura do herói paira entre as duas definições. Porém, ao nos aprofundarmos nesse diagnóstico, poderemos ver, leitor, seja pela saturação de histórias bem versus mal, seja pela saturação de histórias em que o herói é imperfeito e tem suas qualidades postas à prova, os que os filmes – e até a cultura pop em geral – não estão mais se contendo com esses conflitos: a moda agora é a do Herói versus Herói.

E basta ver os trailers mais recentes para que se comprove isso: Optimus Prime atacando Bumblebee no último trailer do novo filme do Transformers; Toreto ignorando sua família e finalmente tendo a paz depois de longos sete filmes de saga Velozes e Furiosos; ou então nos lembrarmos dos filmes desse ano, nos quais Capitão América enfrentou o Homem de Ferro e sua equipe, ou o que falar do Batman que enfrentou o Superman. Ou seja, todos que eram ou têm se tornado personagens-ícones da Cultura Pop vêm sofrendo não só com as adversidades, ou consigo mesmos, mas com outros heróis que também são – ou deveriam ser – exemplos virtuosos para nós.

Muito mais que histórias contadas com o objetivo de sair da estrutura comum de enredo já manjado do herói perfeito ou imperfeito, o conflito Herói versus Herói diz muito sobre o nosso momento atual, seja levantando respostas, seja levantando novas questões que deveriam nos alertar. Não, não venho aqui, leitor, defender que todas as histórias sejam higienizadas num maniqueísmo em que o herói sempre é bonzinho e o vilão maléfico com uma motivação torpe – inclusive, por exemplo, uma das minhas HQs preferidas é a do Velho Logan; leia-a e verá o que é um herói decaído, destruído –, tampouco que todos os filmes devam ser acinzentados e realistas, estilo The Dark Knight, mas essa nova onda que tem vindo e nos atingido com cada vez mais força provoca-me a reflexão:

– Por que estamos consumindo tanto isso e, se considerarmos que todos temos em mente algum ideal de pessoa – mesmo que seja impossível esse ideal – o que as telonas transmitem com tantos filmes assim não só refletem sobre nós, mas também passam às crianças que os assistem?

É fato que os anti-heróis têm cada vez mais ganhado o carisma da população, Deadpool, Wolverine, o próprio Iron Man que vem se tornado o ícone da Marvel – com sua fanfarronice dos quadrinhos sendo aos poucos deixada de lado, mas não nos alonguemos aqui pois não queremos entrar em outras veredas – e isso é compreensível e aceitável: já que cada vez mais o anti-herói se parece com a conceituação de herói-moderno e todo seu mistério e complexidade vêm acompanhados dum desejo de compreensão, tal como muitas vezes desejamos para nós mesmos. Os heróis – ou anti-heróis – no caso, são um espelho para o qual olhamos e desejamos ser o que vemos – friso, mesmo com as imperfeições, pelo menos a força de lutar e enfrentar o dia-a-dia.

O Herói que luta contra o Herói por conta de vingança, por conta da sua própria perdição ou por questões políticas nos trouxeram ótimos debates sobre enredo, sobre a verdade, sobre quem estava certo e como resolver conflitos que pareciam e eram quase impossíveis de serem adaptados para o cinema. Diferentemente de quando Alien lutou com o Predador, víamos uma luta de monstros temíveis, e toda a excitação se dava pela crueldade de dois “vilões” de filme. Não havia um certo ou errado, os dois eram temíveis, sanguinários e pronto. Isso bastava. Porém, ao se tratar de heróis, toda uma questão de base de imaginário e bases que remontam a verdade, o certo e o errado para cada um de nós foi posto em jogo, e, ainda mais, quem seria o herói certo? Quem seria o herói errado? Quem é o vilão da história? Por que temos que ver não só ícones caindo no sentimento de raiva e impotência que tornam homens bons em cruéis, mas homens virtuosos contra homens virtuosos?

Quem são os nossos heróis?

Em quem vamos nos espelhar?

Bem, sei que são questões muito fortes para “meros blockbusters”, mas, havemos de convir que os maiores números de audiência e arrecadação têm sido deles, e que, quando a sociedade tem um consumo de tal maneira de um “produto” tão específico quanto esse, é importante que se pare, afaste-se um pouco e faça uma análise do que está acontecendo, nem que isso provoque apenas questionamentos.

Digo e repito, não é uma questão de “Ah, os filmes só tinham que representar o bonzinho sendo bonzinho e o malvado sendo mal”, NÃO! Mas sim de percebemos que, leitor, quem sabe, podemos estar passando por uma desilusão acerca do nosso heroísmo humano e precisamos ver heróis se enfrentando para nos reconhecermos? Podemos estar passando por um momento em que o bem está tão perdido e deturpado que isso precisa se reproduzir nas artes? Ou então o que as belas artes estão nos mostrando? Que não adianta, até mesmo os bons entram em conflito? Não importa o quão bons e pacientes tentemos ser? Bem, talvez…

Sinto que essas perguntas exigem respostas muito grandes, e, enquanto isso, já vou organizar meu calendário e separar o dinheiro para comprar os ingressos desse ano.

 

Revisado por: Fernanda Miki

SOBRE O AUTOR

Grande escritor (1,85m de altura), tem o sonho de salvar o mundo enquanto tenta salvar a si mesmo. Tem noção de que o fantástico é tão ou mais real que o realismo e pode ensinar tanto quanto a viver no mundo. Afinal, o que a gente sabe sobre o mundo real mesmo? Escreve contos e outras coisas estranhas em: http://contosjamaislidos.blogspot.com/