O meu nome é Silvia

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Todo dia, às oito e cinquenta da manhã, ela sai de casa sempre com a mesma roupa – uniforme, eu acho. Não que eu seja aquele tipo de pessoa que não respeita a privacidade dos outros ou que seja machista, mas é que todo dia, às oito e cinquenta da manhã, eu saio para levar o Lixo na rua. No caso, Lixo é o nome do meu cachorro. Ela é tão linda que não acredito como só eu presto atenção quando ela passa às oito e cinquenta da manhã, sempre com a blusa azul meio amassada, como quem acabou de vestir porque está atrasada, e os cabelos cacheados com uma mecha azul desbotada. Linda.

Eu não fazia ideia de como chegar nela. Às vezes, achava que a minha vida era apenas isso, sair com o Lixo e observar aquela moça que saia correndo com uma feição meio assustada, sabe? Eu não sei se ela nasceu assustada ou só fica com essa expressão porque tá andando na rua enquanto é observada por um Zé ninguém, no caso, eu.

Outro dia ela passou por mim e nem eram oito e cinquenta. Já era meio dia e, por coincidência, ela estava indo direto para o Seu Afonso, o melhor restaurante-bar do bairro e o mais barato também. Por sorte, eu nem precisei inventar que estava indo almoçar lá. Todo dia, por volta de meio dia e três, eu saio do meu trabalho e chego meio dia e sete no Seu Afonso. Ele até já me conhece e faz uns descontos por eu ir almoçar lá de segunda a sábado, por três anos. Não importa o que eu escolho, sempre sai por treze e noventa.

Por sorte também, o único lugar que eu podia sentar era perto do balcão, ao lado da moça. Pedi licença e notei que, conforme ela me olhou, sorriu e mexeu no cabelo. A manga da blusa dela subiu um pouco e deu para ver o raio do Bowie tatuado em seu pulso. Meu Deus. Ela gostava de Bowie. Além de ser linda, ter um sorriso maravilhoso, ela gostava do David Bowie. Qual seria a sua música favorita?

– Qual sua música predileta dele? – perguntei.

– Oi? – ela respondeu.

– Do Bowie. Qual sua música favorita? – apontei meio envergonhado para o pulso dela.

– Ah, com certeza é Young Americans – ela me respondeu meio envergonhada e meio feliz por eu ter reparado. Acho que tinha acertado.

Young Americans é ótimo, por sinal, e também é um ótimo disco do Bowie, que foi lançado em 1975, em uma das primeiras mudanças do Camelão, uma tentativa de misturar seu gingado pop com sua obsessão pela Soul Music. Bowie é tão genial que eu acho que perdi uns dez minutos ao lado da moça só pensando na música.

– Acho que é um dos discos que eu mais gosto dele.

– Qual?

Young Americans, o nono disco do Bowie – respondi meio envergonhado quando me dei conta que eu estava sendo especifico demais.

Ela deu uma risadinha, mexeu no cabelo de novo e coçou a orelha. Achei lindo.

– Eu lembro que eu conheci vendo um filme e depois ouvi tudo do Bowie, mas como eu o conheci por essa música, sempre tive um carinho maior, como uma comida preferida, sabe? – voltou a sorrir, mais uma vez mexendona orelha.

– Strogonoff de chuchu.

– Oi? – ela ficou com uma cara assustada.

– Strogonoff de chuchu – ri, meio envergonhado.

– Você é vegetariano?

– Não. É que eu fui à casa de um amigo uma vez e os pais dele são veganos. Aquele dia foi tão bom que eu acho que também peguei carinho pelo prato.

Ela deu uma risada como quem estava pensando: que carinha estranho. Mas mesmo assim, como um impulso idiota, continuei a conversa.

– Acho que é isso, né? As nossas coisas favoritas nem são por elas mesmas, são pelos momentos e as experiências que giram em volta delas. O universo e as coisas que ele escolhe acontecer são mais os culpados do que as coisas em si.

– Verdade, mas prefiro acreditar que o Bowie que me deixou conhecê-lo e assim me fazer ter Young Americans como música favorita. Ele era tão místico, não tinha como ele não ter algum charme secreto que não fizesse o mundo todo se encantar pela sua música. Quase como um santo ou um anjo, igual em um dos seus últimos clipes.

– O Bowie foi o tipo de cara que eu queria conhecer, então quem sabe ele pudesse me dar umas dicas de charme – dei uma risada rápida para tentar fugir, eu era um verdadeiro imbecil. Devia enfiar na minha boca aquela panqueca que eu tinha escolhido e ir embora. Mas, por algum motivo, eu não conseguia me mexer. O sorriso dela e a mexidinha na orelha eram coisas encantadoras. Eu queria me ajoelhar e falar que ela era a coisa mais linda, mas eu provavelmente iria afastá-la e teria que me contentar em vê-la todo dia às oito e cinquenta da manhã, até ela mudar de emprego ou de casa.

– Você mora por aqui? – perguntei com medo de ser muito invasivo.

– Não, eu moro ali perto do Shopping. Eu almoço aqui porque eu adoro o Seu Afonso e porque é bem perto do meu trabalho. Além da comida ser maravilhosa, eu adoro ver aquela velha máquina de Jukebox enquanto eu almoço. Eu morro de vergonha de ligar, mas almoçar olhando para ela me faz sentir em algum daqueles filmes antigos que a mocinha fica balançando a perna enquanto toma seu milkshake rosa.

– Ah sim, você mora bem perto de mim. Você não deveria se ligar nisso, o seu Afonso é tão bonzinho que era capaz dele ir dançar perto do Jukebox.

– Quem sabe um dia eu tento, né? Você trabalha por aqui também? – enquanto ela falava isso, chegou uns dois dedos mais perto enquanto empurrava o prato vazio.

– Trabalho ali do lado, em uma locadora vintage. – ou velha

– Nossa, uma locadora? Que legal! As pessoas vão muito lá?

– Na verdade, não. Nós temos uma meia dúzia de clientes fiéis que fazem a locadora existir ainda. Com tanta coisa na internet, não consigo entender como alguém ainda aluga filmes por três reais.

Ela balançou a cabeça e eu senti que o assunto morria ali. Não queria mais ir embora, por mais que não estivéssemos desenvolvendo nenhuma teoria filosófica ou qualquer outro tipo de assunto que demoraria horas, eu só queria ficar ao lado daquela moça, aproveitando o silêncio que nos envolvia. O quanto pode ser estranho me apaixonar tanto por alguém em menos de uma hora? As pessoas podiam me achar estranho, mas pensa bem, os meus pais são casados há anos e nunca se apaixonaram um pelo outro. Era mais a qualidade do que a quantidade que deveria valer.

– Vem cá, vou realizar o seu desejo – levantei e puxei sua mão, gelada como pedra, mas sedosa como uma blusa que você encosta de leve e faz com que a sua mão sinta bem pouco, mas dá vontade de apertar. Puxei-a em direção à máquina.

– Não, eu tenho vergonha, todo mundo vai ver – Ela disse que não, mas já estava em pé indo comigo.

– Qual é, olha em volta, estão todos preocupados com suas contas no Facebook, vendo se seus amigos já se revoltaram com algo ou já publicaram textões. Ninguém vai notar que estamos dançando e, mesmo se notarem, perigoso é não viver – nem eu conseguia entender de onde vinha tanta coragem, mas já estava feito, agora era aproveitar.

– Ai meu deus. – mais uma vez a doce orelha.

Fiz um sinal para o seu Afonso e ele me piscou como se quisesse dizer que estava orgulhoso. Dei uma risada de canto meio desanimadora, como quem quisesse dizer: não custa tentar, né? Não tinha a música favorita dela, mas tinha duas do Bowie. Eram essas mesmo.

– Pode ser Modern Love? – questionei meio desanimado.

– Manda ver, é um dos melhores álbuns dele – ela já estava mais solta, e isso foi reconfortante.

Começamos a dançar, meio duros, morrendo de vergonha. Enquanto Bowie cantava “modern love walks be side me” eu sentia o seu cheiro maravilhoso, que me fazia lembrar do cheiro de um livro novo, sabe? E o seu sorriso enquanto dançava, era mais apaixonante que qualquer disco velho do Bowie. Me desculpe, David. Acho que você entenderia se estivesse vendo esse sorriso.

Logo depois começou a outra música que tinha dele, a clichê, mas maravilhosa, Heroes. Era engraçado como essa música era esperançosa. Não era tão animada quanto a outra, mas me encheu tanto de esperança que parecia que algo podia ir mais além com aquela moça, parecia que eu finalmente tinha acertado em algo, como se fosse ganhar na mega sena. Ela não tirava a mão da orelha, devia estar muito envergonhada.

Falamos de música enquanto Bowie terminava de cantar. Ela pegou o meu número, mas sabia que era melhor esperar até amanhã aqui no restaurante e, por algum motivo, eu sabia que ela retornaria. Heroes me lembrava do filme que o mocinho abria os braços e dizia que se sentia infinito. Pela situação, pela alegria de estar com os amigos, mas depois de agora, eu tinha certeza que estava me sentindo infinito também e não era porque eu estava de braços abertos em cima de um carro, afinal, eu não estava. Era por causa do Bowie, um vasto conhecedor de todos os universos, rei da música pop, conquistador de fãs e transformador número um de momentos infinitos.

– Obrigada pela experiência, senhor estranho – Ela, já mais solta, se abaixou fazendo uma reverência de forma meio irônica, como um membro da corte.

– Erick, meu nome é Erick. Obrigado você, e desculpa ser invasivo.

Ela fez um gesto com a cabeça como quem queria dizer que não foi nada. Deu mais uma risada e foi embora.

– Ei moça, só mais uma coisa, qual é o seu nome?

 

Revisado por Fernanda Miki

 

SOBRE O AUTOR

Mais de humanas que queria ser, perdido em um milhão de palavras não ditas.