Ignorância sadia

IGNORÂNCIA SADIA - LITERA - OK

Uma amiga disse que prefere não perguntar demais sobre determinadas coisas. O conhecimento, em determinadas ocasiões, acaba ensejando numa preocupação demasiada. O impacto gerado pelo novo algumas vezes acaba não sendo tão sadio, vez que pode afetar a paz de espírito daquele que desbravou a descoberta.

A questão, nessas situações, é saber diferenciar quando a nova informação será de fato útil para a pessoa. O conhecimento é sempre salutar, mas quando ele faz mal à pessoa, pode se dizer de igual modo? Há quem prefere seguir a vida sob a máxima de “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Nesse caso, a ignorância nem sempre é a melhor opção, já que se corre o risco de fazer papel de trouxa, mas se a venda nos olhos é posta deliberadamente, trata-se de uma escolha prévia: sabe-se dos riscos de não se tomar conhecimento de coisas que lhe digam respeito, mas a fim de se manter uma paz de espírito própria, o não saber acaba acarretando em mais benefícios para algumas pessoas.

O processo de fabricação de vinas (sou de Curitiba, e por aqui falamos “vina” aquilo que em outros lugares se entende por “salsicha”), ou ainda dos famosos nuggets, por exemplo, é desconhecido por muitos, mesmo cientes minimamente de como são feitos. Eis uma prova para atestar se se prefere manter uma ignorância sadia ou enfrentar os riscos que o conhecimento trará. Para alguns, mesmo após ver as imagens desse processo todo, prejuízo algum acarretará no gosto por esses alimentos. Para outros, isso tudo pode passar a ser intragável. Daí que se tem a opção de evitar esse tipo de conhecimento para não perder alguns itens do cardápio. Eis uma forma de ignorância sadia.

Somos obrigados a querer saber tudo? Uma pretensão de tal tamanho (“saber tudo”) é impossível de se concretizar. Mas o desejo de desbravar o desconhecido é um dos impulsos que nos move. O difícil é saber quando o estado de ignorância deliberado é de fato sadio. Mas que ignorância sadia existe, existe.

 

 

   Revisado por Fernanda Miki

 

SOBRE O AUTOR

"Paulo Silas Filho é advogado paranaense. Possui especialização em Ciência Penais, em Direito Processual Penal e em Filosofia. Ama a leitura. A busca constante pelo saber gera em si o conhecido paradoxo de que "quanto mais se estuda, mais se percebe que muito pouco se sabe", o que apenas o motiva a ir além, e o caminho trilhado para tanto é o da apaixonante literatura!"