“Eu, Daniel Blake”, Kafka e o Estado capitalista

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“Alguém devia ter caluniado Josef K., pois, sem que tivesse feito mal algum, ele foi detido certa manhã.”

O trecho d’O Processo, de Franz Kafka, abre o maravilhoso livro do autor tcheco, que tem como enredo a odisseia de K. em meio à burocracia estatal. Sempre a partir da ótica do absurdo, vemos K. entrar em um labirinto judicial que o levará a nenhum lugar senão à morte.

Eu, Daniel Blake, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, faz parecido. A partir da ideia semelhante, mas com a sociedade europeia capitalista dos dias atuais como pano de fundo, vemos um carpinteiro que sofreu um ataque cardíaco e impossibilitado de receber um auxílio-saúde e sem poder trabalhar, sofre nas mãos de um Estado negligente e omisso às necessidades dos cidadãos e das cidadãs.

Sempre com um olhar sincero e discreto, Loach nos conduz ao interior da burocratização digital do Estado. A cada passo que Dan, o protagonista interpretado muito bem pelo ator Dave Johns, avança, mais o Estado cria subterfúgios para negar a ele seus direitos. Kafka, há mais ou menos um século, já apontava para a sociedade que esmaga os de baixo através de suas politicagens e hierarquização em demasia.

Loach praticamente abre mão de uma trilha sonora (como seria típico em filmes mais comerciais) para se ater totalmente à história que conta. Como li em um texto sobre o filme, o diretor parte de uma premissa naturalista, dando assim uma veracidade incrível às cenas que assistimos. Sem brincadeiras com enquadramentos, fotografia ou mixagem de som, o que está ali é o mais perfeito retrato de uma sociedade degradada pela burocracia capitalista.

O filme, em certos momentos, parece andar em círculos, com cenas que se repetem e com frases praticamente idênticas sendo repetidas. É um recurso interessante que Ken Loach utiliza, parecido com o que Villeneuve faz em O homem duplicado, ao comparar a repetição das cenas à demora ao atendimento que Dan tanto procura.

Interessante perceber que o casal protagonista – chamemos assim – se conhece e passa a conviver junto a partir da negação de um direito social pelo Estado. Kattie e seus filhos se atrasam para o atendimento por diversas razões (totalmente verossímeis e aceitáveis) e a empresa, inflexível, nega a ela sua vez. Dan, que já havia ido ao local outras vezes, também estava lá para tentar, novamente, o auxílio de saúde, pois está impossibilitado de trabalhar. A partir daí, fazem o que deveriam mesmo fazer: unir-se. Só a união e solidariedade dos de baixo derruba os de cima.

Já ao final do filme, Dan, percebendo a apatia do serviço público, parte para a desobediência civil, a “radicalização” de uma luta que até então pacífica se mostrou ineficaz. Em uma cena muito bonita e inesperada, vemos a razão de o belo título da película ser o que é. Ele demorou, mas percebeu que quando radicalizamos uma ação, equiparamos a correlação de forças com o governo e assim temos chances – e poder – para conquistar nossos direitos que jamais nos são concedidos (como deveriam ser).

Assim fecha-se o recorte da vida de um entre muitos que sofrem na mão do Estado. Existem muitos Dans na vida real que são assassinados pelos governos dia após dia. É louvável o trabalho de Loach, que faz resistir o cinema político em meio a tanta bobagem cinematográfica. Contudo, como conversamos eu e minha namorada ao sairmos do cinema, não adianta nada se compadecer com o filme e com o personagem principal e continuar votando em governos que historicamente cultivam alianças e princípios neoliberais, de privatização e cortes nos direitos do povo.

Revisado por Fernanda Miki

SOBRE O AUTOR

Apaixonado pela arte em geral. Pela horizontalidade e força popular. Gosto de uma pá de gente no cinema, na música e na literatura.