Você não é 2016: e despedida a Ferreira Gullar

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Dezembro já me pergunta como foi meu ano e o que ele representou. Tem gente que lhe dá, inclusive, nome: o ano das tragédias, o ano das olimpíadas… Tem o privilégio de ganhar retrospectivas e às vezes é como a vida. Pode acontecer de uma pessoa ser lembrada por um tropeço no tapete do Oscar e não pelas grandes atuações que o levaram até ali.

O Literatortura, inclusive, pode algum dia até perder milhares de seguidores – como aconteceu recentemente com outros canais – em vistas de uma postagem verdadeiramente ruim, pelos ex-leitores esquecerem-se de todas as outras, muito boas, que já foram divulgadas. Neste sentido, posso dizer que perdi as contas de quantos amigos foram embora da minha vida por, de repente, divergirem de mim acerca de um argumento político…

A vida quase nunca é justa. O sujeito que sempre faz o certo, caso um dia faça errado, é crucificado; o sujeito que sempre faz o errado, caso um dia faça um pouco certo, é exaltado. É sobre isso que a parábola do filho pródigo verdadeiramente fala? Pode até ser, em partes. O festejo do “retorno” ou da transformação.

Mas indago quem é o injusto de fato: a vida ou quem a julga. Estamos envoltos por julgadores, alguns deles residentes dentro de nós.

Incomodou-me, por exemplo, a morte de Ferreira Gullar. Pensei “que lástima!”; outros acusaram: “golpista!”; e outros bradaram: “comunista!”. É complexo. Pode ter sido tudo isso, mas não é apenas isso que ele significou.

Quanto reducionismo! A redução, esse julgamento, simboliza nossa incapacidade cognitiva. Visualização de apenas um quadro por vez, pinçando um retrato, apenas, do filme veloz da História que passa constantemente à nossa frente. O julgamento representa nossa impossibilidade em visualizar o todo da Existência.

Não, meus leitores: vocês não são o último erro cometido; vocês não acabaram em dezembro de 2016. Afinal, aquele erro é considerado erro a partir de qual ponto de vista? E de quem? E qual julgador o condenou assim?

Ferreira Gullar não morreu neoconcretista, ou golpista, nem nada; a morte que, tirando-o de nós, golpeou-nos em cheio. Curiosamente, reduzido por alguns, ele praticava a forma de reducionismo que, entre todas, é a que a ‘palavra’ mais universaliza: a poesia.

A vida pode até ser um ‘poema sujo’, mas dizer tal coisa também seria julgar. Sinto às vezes que nascemos para isto, ou, noutro ponto de vista, para superarmos as debilidades de nós mesmos. Despeço-me de vocês, neste meu primeiro ano de Literatortura, pedindo escusas por não ter sido melhor.

Eu poderia finalizar com “E lá se vai o Imortal da 37ª cadeira”. Mas, não. Gullar morreu, simplesmente, Gullar – ou, no máximo, José Ribamar Ferreira.


Revisado por Fernanda Miki



Ainda nesse ano lançarei meu próximo livro, intitulado “O Fim do Tempo”, em versão prosa e em versão poema. Um misto de romance futurista com diálogos socráticos, de teor histórico, filosófico e político acessível inclusive ao público infanto-juvenil. A obra terá o selo da Editora Kazuá. Fiquem atentos e tenham um fim de ano bastante literário.

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.