Uma bala de iogurte mágica

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Você precisa conhecer minha família.

Desde que eu cheguei nesse mundo eles foram a primeira coisa que eu conheci e o quadro que pintei na minha memória deve ser igualzinho a um que já vi várias vezes lá na sala de estar. Com eles eu vivi as fases todas que a gente circula e rodeia até cair de novo em alguma delas: eu já vesti cada um deles de herói, já fiz as malas um milhão de vezes pra ir embora pra sempre e ir morar, veja bem… Lá na vovó. Voltei em menos de 5 minutos em cada uma das vezes. Jurei que era só porque não queria ficar sem meu cachorro.

Não imaginem que o meu mundo não acordou ao contrário muitas vezes: eu não sei como é possível que meu pai acredite no que ele acredita. Eu juro. E quantas vezes eu vou precisar te dizer, mamãe, que algumas pessoas simplesmente não amam a vida como você e para elas o sorriso não vem assim fácil? Do meu irmão eu nem me arrisco a duvidar, é tão teimoso que eu nem poderia dizer que ele detesta perder: para ele, seria mentira das deslavadas.

Só que eu vim parar justamente aqui, nesse perímetro quadrado de uma cidade num mundo com outras trinta-e-oito-mil-cidades. Pode ser coincidência, sim. Mas hoje mesmo alguém me disse que eu uso a mágica pra escapar da realidade… Então é isso. Hoje eu tenho certeza que um passe de mágica do acaso, do destino, da vida e dos choques de inúmeras estrelas no céu me trouxeram exatamente para eles: a família que a vida me deu.

Você precisa conhecer todos eles. Precisa por que eles vão te oferecer um café antes mesmo de perguntar seu nome, vão te dar presente em datas que nem são comemorativas, vão te tirar pra dançar uma música que você não conhece e nem quer conhecer  e vão ainda escolher um apelido estranho pra você. Tudo isso nos primeiros cinco minutos que passar com eles. Por que eles tem um jeitinho todo redondo e que é só deles, mas eu sei que eu posso correr pro café mesmo que seja de madrugada: minha mãe vai estar fervendo a água.

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Por que a gente sabe que nada nesse mundo vai ser bonito sempre. Mas eu tenho certeza que todas as vezes que eu entrar num ônibus pra ir visitar minha família eu vou aquecer meu coração que esse mundo me pede pra congelar sempre. Eu sei também que em dez, vinte ou quarenta anos o mundo vai parecer muito diferente pra mim. Vou ser uma nova pessoa em cada uma dessas vezes. E eles também vão. Mas seremos tudo isso juntos. Provavelmente não poderei fazer as malas e fugir pra vovó, ela vai estar junto com as estrelas que se chocam no céu escrevendo histórias… Mas eu ainda terei certeza que minha mãe vai me acolher de volta por ali, mesmo sem o cachorro também.

Era assim: todo domingo tinha pizza e um saco de bala de iogurte bem grande na mão do meu avô: uma pra cada um, com calma. Eu achava que era a única espertinha que corria pra pegar mais balas quando uma nunca foi o suficiente pra uma criança. Hoje eu tenho certeza que vovô sabia que uma bala não era suficiente: queria mesmo era que a malandrice de criança fosse bem vivida por nós. O vento levou todos os papéis de bala lá pra longe.

Eu, por sorte, me dei conta esses dias que o retrato lá da sala é muito maior que um quadro de nós todos: ele contém absolutamente todos os ingredientes necessários para fazer uma família feliz: bala de iogurte, café quentinho, um cachorro que nos espera na porta e uma vó com uma gaveta vazia em caso de fuga eterna dos cinco minutos.

É, eu acho que minha mãe sempre teve razão: fica fácil amar a vida com todos os ingredientes enchendo as gavetas do coração.

 

SOBRE O AUTOR

Por ter certeza que a vida é tao intragável que parece um delírio, vive se apegando aos seres de carne e osso que nesse mundo habitam. Tem certeza absoluta que todos os problemas do mundo são resolvíveis com uma boa xícara de café. Escreve com a mão direita e o coração