O segredo de “O Casamento”, de Nelson Rodrigues

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Polêmico. Sórdido. Sujo. Explícito. Visceral. Faltam adjetivos para descrever “O Casamento”, um romance tórrido e pesado (para quem?) de Nelson Rodrigues. Seja como for, a leitura surpreende (das mais diversas formas). Vale!

Aos desavisados: uma preparação mental prévia aos de estômago fraco pode auxiliar na digestão da leitura. O choque para alguns ocorrerá de qualquer forma, mas o sobreaviso evita surpresas.

O livro conta a história da vida familiar de Sabino e diversos desdobramentos que envolvem os familiares deste. O mote da obra é do casamento de Glorinha, filha de Sabino. Pouco antes da cerimônia, Sabino descobre pelo Dr. Camarinha (médico da família) que seu genro foi flagrado beijando outro rapaz. Eis o imbróglio que segue na trama, atormentando o espírito de Sabino. O que deve o pai fazer? Confronta o genro sobre o episódio? Sua filha, Glorinha, merece saber do ocorrido? O casamento deve continuar? Desesperado, Sabino passa a fazer diversos questionamentos enquanto aguarda pelo dia do casamento de sua filha mais querida.

Se fosse com você, o que faria? Podemos tentar nos situar no lugar de cada um dos principais envolvidos na celeuma. Esqueçamos do contexto social em que a história do livro se passa. Não que tenhamos avançado muito, mas assim ao menos imaginemos. Trata-se de um simples exercício mental hipotético para saber até quando é válido ou não guardar algo para si mesmo. Coloque-se no lugar de Sabino. Você vê o noivo se sua filha a traindo, aos beijos, com outra pessoa. Optaria pela franqueza, por mais dura que fosse, e relataria o ocorrido para a pessoa que você ama, ou esse amor faria com que optasse por manter o segredo para si, visando assim não causar dor e aflição para sua filha? Valeria mais arriscar o desconforto da verdade dita ou assegurar a estabilidade do relacionamento – por mais que o princípio da lealdade estivesse sendo respeitado apenas por um dos envolvidos -, zelando pelo sentimento de felicidade da pessoa que ama?

E se você fosse a Glorinha, a sua resposta anterior seria mantida? Note que ao mudar a perspectiva (quem passa a informação x quem a recebe), a resposta pode tanto ser mantida, como pode ser alterada. Preferiria que a ignorância aos fatos fosse mantida, pois “o que os olhos não veem (no caso, o que os ouvidos não ouvem), o coração não sente”, ou seria melhor enfrentar a dureza da realidade?

“O Casamento” segue com o desfecho de tal problema de forma única. Vale conferir a obra. Mas como cada caso é sempre um caso, uma situação em específica ganha contornos próprios a depender dos envolvidos. Para você, o que seria melhor?

 

   Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

"Paulo Silas Filho é advogado paranaense. Possui especialização em Ciência Penais, em Direito Processual Penal e em Filosofia. Ama a leitura. A busca constante pelo saber gera em si o conhecido paradoxo de que "quanto mais se estuda, mais se percebe que muito pouco se sabe", o que apenas o motiva a ir além, e o caminho trilhado para tanto é o da apaixonante literatura!"