O papel(ão?) da literatura

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É comum entre nós amantes dos livros tratar a literatura como algo indispensável, provedor único de benefícios essenciais para humanizar o homem e elevar sua vida. Eu mesmo já postei vários artigos nesse sentido por aqui, advogando principalmente pelo potencial da ficção em gerar empatia entre os leitores.

Ler me transformou de diversas maneiras, muitas das quais eu sequer tenho consciência, mas tenho a certeza de que, sob algum abstrato critério qualitativo, todas me tornaram alguém melhor e alguém que vive melhor. Ora, pensando por aí parece até justificável atribuir à leitura algum poder tão raro de se encontrar em outro lugar.

Isso é um erro.

A literatura não tem um papel, ela não deve ser uma obrigação. Sim, trata-se de uma arte capaz de comunicar, divertir, compadecer e expandir universos, e comumente faz tudo isso ao mesmo tempo. No entanto, está faltando nos questionarmos a respeito da exclusividade que atribuímos à literatura em nos proporcionar estes efeitos.

Tomarei por evidente que é possível nos comunicarmos e divertirmos sem a ajuda de um livro. Com a compaixão, ou a empatia como eu prefiro dizer, não é diferente. Uma conversa, por exemplo, pode ser o suficiente. A literatura planta a semente da empatia ao nos colocar em perspectivas estranhas às nossas, nos fazendo ver e sentir a partir dos olhos e da pele do outro. Mas essa semente também é plantada quando identificamos algo de comum nos indivíduos a nossa volta. Na medida em que isso acontece, passamos a nos enxergar no outro, a vê-lo como alguém tal qual cada um de nós e, assim, a nos relacionar mais intimamente com a sua dor e sua alegria.

Quanto à expansão de mundo, ou de mente, eu fico pensando se seria isto realmente essencial para o bem viver. De todo modo, também não vejo aí um produto exclusivo da literatura. Eu vejo que viajar é uma outra forma de conseguir o mesmo efeito. Conhecer novos lugares, povos e culturas e, novamente, conversar com pessoas diferentes, são todas atividades que nos abrem horizontes de maneiras por vezes até mais intensas do que a literatura.

Não estou querendo negar, de modo algum, todos os benefícios trazidos pela leitura, afinal, os livros não estariam aí em nossas vidas há tanto tempo se não oferecessem algo de bom e útil. Contudo, vejo alguns preconceitos com relação à leitura e à falta dela, inclusive em mim mesmo, e estes acabam levando a imposições impróprias e discriminantes. Quantas manifestações culturais não subjugamos ao elevar a literatura ao suprassumo da arte e cultura? Como mostrado acima, há outras maneiras de lidar com o mundo sem precisarmos ler uma quantidade de livros por ano. Há também outras linguagens com as quais podemos nos comunicar e integrar, a dança, a música, o grafite, a pichação, e mais um sem fim de interações sociais possíveis em todos os setores da sociedade, e todos eles são tão válidos e pertinentes quanto a literatura.

Tal cultura (ou seria culto?) do livro se torna, deste modo, numa repressão e imposição cultural. Usa-se um referencial único, absoluto, para uma multitude de possibilidades humanas. Há uma diversidade enorme de “tribos” inclusive dentro de um mesmo país, ou até de uma mesma cidade, e a linguagem literária não conversa com todas elas. Um erro comum é achar que isto se dá por se tratar de uma arte apurada, “complicada” demais para o entendimento de qualquer um, e também isso é utilizado para elevá-la sobre as demais expressões. Ora, mesmo que fosse este o caso, essa complicação seria então um defeito da linguagem, não uma qualidade, não é mesmo? Mas não é isso que acontece, a literatura é difícil para umas pessoas e fácil para outras assim como o português é fácil para os brasileiros e difícil para os franceses. Não parece uma falta de respeito tentar empurrar o seu idioma a alguém dizendo que este é superior ao dela?

É irônico que esta falta de consideração à vivência de indivíduos diferentes surja justamente de leitores. A vida tem dessas contradições mesmo. Entretanto isso mostra que os livros não são uma espécie de objeto mágico pronto a humanizar todos os dispostos a mergulhar em suas aventuras. Não, leitores são gente como qualquer gente, existem os bons, existem os não tão bons assim, os caridosos, os extremamente egocêntricos, existe de tudo como em qualquer conjunto humano. Assim, sinto lhes dizer, mas não somos especiais, muito menos superiores, nós apenas gostamos de ler, e está tudo bem não gostar também.

Revisado por Stephany Justine

SOBRE O AUTOR

Paulista do interior. Engenheiro apaixonado por humanas. Tenta acabar com suas dúvidas espalhando-as por aí. Adora encontrar contradições e acaba de descobrir que não gosta de falar de si na terceira pessoa.