O Deus de Chapecó: dois tempos, um hino só

charge_conda_voo_chapecoense_bso8qab

.

1º Tempo

Deus não existe e nunca existiu. Ou é omisso ou é vil.
No primeiro instante me vi a ser tomado por ira, desgosto e questionamentos para com tudo e com todos e que, pode bem ser, por ocasião da nossa incompreensão. Não sabemos muito desse mundo material e muito menos do mundo espiritual. Sempre a nos descobrir e a nos surpreender. A sensação de injustiça, de falta de razão ou de mérito evidente para morrer ou mesmo da nossa fragilidade perante a vida. O grito repetitivo, mesmo que não-percebido, silencioso, murmurante, de “Por que, meu Deus? Por quê?”.
Minha condição de questionador me leva, ainda que não tendo provas evidentes da Sua Existência enquanto entidade consciente, a cogitá-Lo para compreender as coisas, as pessoas, o universo. Ante a tragédia que abala hoje o mundo, em especial Chapecó, é impossível resistir, nem que por um segundo, a duvidar a respeito D’ele.
Os acidentes, como o da Chapecoense, ensinam-nos que Deus não existe, ou, noutro modo de pensar, que estamos de fato a anos-luz de conhecer a verdadeira concepção de justiça. O que é o injusto? E, se afirmassem que a queda do avião se deu simplesmente por mero erro humano, não cabendo culpar a Deus pelas nossas decisões, não haveríamos também que saudá-Lo pelas coisas boas que nos acontecem, pois, aqui, também não caberia a sua intervenção. Nossa felicidade seria uma possibilidade inerente à nossa realidade assim como é a infelicidade. Não haveria razão para culpá-Lo quando nos queimássemos no fogo, mas também não haveria por que louvá-Lo se uma chuva amenizasse a queimadura.
Logo, ou Deus é um ser ativo e tem culpa nas suas omissões, ou então é absolutamente passivo em todos os acontecimentos da sua criação, e, por isto mesmo, justo por nos proporcionar uma vida inteira embebida no livre arbítrio e nos riscos da dádiva que é viver, permitindo as desgraças bem como saboreando conosco as benfazejas da humanidade e da liberdade. Povo feito, de acordo com as religiões, à sua imagem e semelhança.
Pode ser que nada tenha um roteiro, e, de fato, intervenção divina. Ou pode ser que mais uma vez olhamos pelo lado errado.
Algumas pessoas, extremamente comovidas, refletem sobre ter, a partir de agora, “uma vida melhor”. A iminência do fim, as experiências de quase morte ou estarmos em uma situação, hoje, um pouco pior da qual nos encontrávamos ontem, faz-nos desejar ou agradecer pela situação anterior – não tão boa, mas não tão pior. As tragédias, as guerras, os acidentes, as epidemias, deram-nos frutos: organizações que reúnem países, institutos de direitos humanos, novos projetos tecnológicos, operações de paz… Que visam evitar que acontecimentos parecidos se repitam. Mas isto não é o que mais me comove.
Recuso-me a considerar que tais coisas acontecem para nos fazer melhorar; podemos melhorar com elas, mas torço para que não seja planejado. Por favor, não! Se não, eis a maquinação vil. Antes de causa, ou razão, tomara que seja só ocasião. Torcendo para que esses meus dribles filosóficos sejam bem compreendidos, confesso que em todo o acontecido não foi o acidente aquilo que mais me emocionou. O acidente, em si, foi o questionamento, o abalo, a raiva, o estarrecimento.

.

2º Tempo

Pessoas alheias ao fato, desconhecidas, choraram; empresas desceram suas portas; esportistas e clubes prestaram homenagens; líderes religiosos cruzaram suas orações; quase todos refletiram e se solidarizaram, ou, no mínimo, enviaram pensamentos bons.
Em Medellín, o estádio do Nacional foi tomado por torcedores que rezaram – como se cantassem um hino –, que choraram – como se comemorassem um título –, que se abraçaram – como quando gritam “gol”. Manifestação tal que coloca, nem que por um instante, de lado a própria imanência ou inatismo do egoísmo humano; ofusca ideologias, desconsidera rixas, apaga fronteiras, funde idiomas, põe todas as vibrações em um só canal. Unifica.
Intriga-me como que, diante dessas catástrofes infernais, é quando mais consigo enxergar os portões do céu. Vejam… bati na trave! Nas prorrogações é que já hei de me redimir: na solidariedade, na caridade, no amor e na compaixão do homem é que mais visualizo Deus. Não sei da sua responsabilidade anterior; não estou certo da sua culpa, da sua previsibilidade ou da sua omissão. Afinal, por que nos fez falhos assim? Estou convicto é dessa quase que mundialmente onipresença, onisciência, onipotência e “onivibratividade”, que dá força às almas e aos familiares das almas que partiram naquele voo da Chapecoense.
Diante dessa energia coletiva, inclusive o sentimento de ter uma “vida melhor” – e que é sem dúvidas algo muito positivo – se torna visualmente egoísta ou menor. Sublima a criatura. Alça voo para outro lugar. Existindo ou não, minha certeza é uma só-mente: o Divino está hoje em Chapecó.

 

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.