Insônia e The Smiths

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Rodava sem parar o disco mais velho da minha estante. “Strangeways, here we come” dos Smiths tocou mais vezes do que eu tive insônia nos últimos meses, eu não sabia mais se era vício ou simplesmente porque era cômodo, ele já estava ali mesmo. Perdia mais tempo tentando entender a cabeça do pequeno Morrissey do que a minha, procurando sentido em uma música chamada “Girlfriend in a coma” ou o porquê de Glen não poder ir para casa naquela noite se tinha alguém lá que o amava de verdade.

Em um momento da noite chegava o ponto em que o lado A do disco terminava e na escuridão do meu quarto só restava o ruído que a agulha fazia quando chegava ao final daquela velha bolacha preta. Aquele era o momento certo para que meus olhos perdessem a longa batalha da insônia e se fechassem pelas próximas quatro horas que ali sobravam antes do despertador tocar. Mas quando se tem crises de ansiedade, dormir não é uma escolha, é uma dádiva.

A medida que eu encosto a cabeça no travesseiro parece que as ideias, as dores, as minhas piores tensões diárias sobem em minha mente como lava em um vulcão em erupção. Penso se vou morrer, se vou perder alguém, se vou achar um sentindo em continuar acordado todo dia no mesmo horário para sustentar uma vida que mais me dá insônia do que satisfação. Até o devido momento que eu me pego mais uma vez rolando o Facebook esperando algo útil aparecer.

Pior que não conseguir dormir, é esperar achar alguma coisa positiva entre textões das pessoas que entendem de tudo e que precisam expor para os outros essa sabedoria, para que você sinta que não entende nada. “Ei, olha que bacana essa pessoa super desconstruída que precisa mais uma vez escrever um super texto para se auto afirmar e não para tentar mudar pessoas presas em problemáticas sociais”.

Graças a esse tipo de texto e a minha incansável mente, que não sossega nunca, comecei a notar que era melhor não saber nada mesmo. Esse era o maior tipo de liberdade. Comecei também a prestar atenção em alguns amigos que pareciam personagens de filmes, sempre largados, sem se preocupar muito com a realidade do mundo e sempre focados em sua própria vida. Mesmo que todo o resto fosse guerra, eles seriam paz. Acho notável esse modo de vida e ao mesmo tempo desesperador, afinal, como poderia viver em um mundo de mentiras de forma tão pacífica?

Conforme os dedos iam descendo pelos perfis mais aleatórios que criavam textões sobre política, problemas do mundo moderno, ódio pelas redes sociais (escritos diretamente nas redes sociais) e outros textos onde se falava o óbvio para pessoas que nem isso conseguiam compreender, tentava imaginar como as pessoas fora da realidade repercutiam diante dos problemas que a internet expunha.

Eram quatro da manhã e o ruído do disco ainda se espalhava pelo quarto, já baixinho, mas assim como as minhas maiores crises existenciais, ele ainda estava lá. Surtei de diversas formas até notar um dos maiores tapas na cara da minha vida: eu vivia tentando entender o porquê de eu não ser o tipo de pessoa desligada ou o tipo de adora escrever textões, mas nunca parei para descobrir o que eu pensava.  Em pleno 2016, temos muito mais poder para tentar nos entendermos do que na época dos meus pais (eu acho), mas quando vamos tentar pensar em algum assunto qualquer, sempre procuramos outras pessoas, seja no Google, no Youtube ou até nos textões, mas dificilmente paramos para analisar os corvos mais bizarros que vivem sobrevoando a nossa mente.

Sempre julguei a insônia como um desses corvos, mas nunca notei que essas horas poderiam muito bem ser usadas a meu favor. Um tempo só meu, entre o fim de um disco e o começo de outro, um tempo que eu pudesse compor os meus próprios textões mentais, sem nenhum influenciador me julgando.

O quanto era insano a ideia de usar meu pior pesadelo a meu favor? Não sei e não importa muito, agora eu só preciso levantar para trocar para o lado B do disco. Aquele ruído não fazia mais sentido e “Last night I dreamt  that somebody loved me” me esperava pela décima quinta vez na semana.

SOBRE O AUTOR

Mais de humanas que queria ser, perdido em um milhão de palavras não ditas.