CRÔNICA: Marisa, não precisa olhar nos meus olhos

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Nasceu dois anos depois de mim, a bonitinha, e nossa relação deveria ter sido livremente destituída de qualquer hierarquia até um de nós – no caso, eu – atravessarmos o portão de uma escola. “Irmão” é aquela palavra, não é mesmo? Aperta músculo central, enrijece os ombros, acelera o piscar dos olhos… “Irmã mais nova”, então, é a fórmula certa para uma vida de choros contidos. Minha irmã e eu, eu e minha irmã, a gente, os irmãos Silva, enfim, nós significamos um grande – salgado, purgativo, profundo, forte – mar de lágrimas. E todas são minhas, porque Marisa não chora quase nunca, e nisso residem os meus próprios motivos.

Nasceu dois anos depois de mim, a bonitinha. Passeando pelos álbuns de fotos, aquele bebê enorme e vermelho nunca aparecia com os olhos contraídos com uma boca aberta em desespero, parecia ter chegado ao planeta com resiliência de outros mundos, não deixava os sofrimentos terrestres a afetarem. Eu estava sempre lá: ao lado do berço, ajudando a dar banho, segurando os seus braços, sentado no chão, deitado na cama assistindo televisão. Eram muitas as fotos, da mesma forma que eram muitos os anos, e muita a felicidade.

Marisa era uma menina confortável em seu corpo, bem ajustada em sua vida – chorava apenas à noite, quando os sonhos lhe davam a impressão de sumir do que conhecia. E, diferente de qualquer bebê, não se inflava com todas as possibilidades do mundo: não queria tocar o céu, o brinquedo, o vento e a roupa engraçada ao mesmo tempo; era pessoa de algo só. Sua atenção era direcionada unicamente e intensamente a apenas uma coisa. Ela passava duas, três horas balançando seu móbile e observando seus ímpares movimentos circulares. Mais duas de ponta-cabeça no sofá me vendo desenhar na mesa ao lado. O resto do dia, no jardim, ouvindo o barulho que as plantas faziam se soprasse nelas. Marisa fazia de cada elemento que via a mais peculiar criatura do universo, mesmo os que não fossem exatamente criaturas.

Meus pais começaram a se preocupar com o vocabulário pequeno de minha irmã quando ela fez cinco anos. Além de ainda não conversar com os colegas do maternal, pronunciava “r” com som de “l” e não discernia o gênero das palavras. Dizia: “Mãe, me dá a pão”, “Pai, me leva no valanda”, “Caulos, dá o manteiga”. Pronunciava perfeitamente apenas as frases que ouvia na televisão, como se fossem, de certa forma, mais condizentes a sua realidade. Além disso, continuava mirando sua atenção a somente uma coisa de cada vez e não queria parar de ver filmes, desenhar e ouvir os CDs que meus pais colocavam para tocar. Nisso, era seu principal companheiro. Íamos à locadora para alugar os mesmos filmes de sempre, desenhávamos os personagens que víamos nos desenhos ou criávamos nossos próprios. Para nada tanto da sua energia era canalizada quanto era para tudo que não era palpável. Seu sorriso se abria mais para os desenhos da Disney, para as ilustrações que criava – mas também tornava fantástico tudo o que tocava, alargando seu universo particular. A “escolinha” (e, mais tarde, a Escola) não sabia disso. Minha irmã era simplesmente a aluna inadequada na sala de aula, uma preocupação extra para os professores e os demais agentes da escola.

À medida que Marisa foi crescendo, a mesma mansidão que lhe era familiar foi-se esvaindo. As pessoas relevantes em sua vida deixaram de ser apenas eu, minha mãe e meu pai; os docentes e a equipe educacional deveriam prover o conhecimento necessário para a vida independente que ela almejava. Dizia que trabalharia na equipe de produção da Pixar para transformar todas as histórias de sua cabeça em realidade; quando percebeu que sua condição era aquém dentro dos muros do colégio – mesmo que nós, pais e irmão, disséssemos com todas as forças: era além! –, que sua incapacidade de acompanhar as aulas da mesma forma que os outros alunos era prejudicial, que a sociedade exigirá dela o mesmo padrão cognitivo que a colega que lê dois livros por mês, sem dificuldade, possui – caso contrário não conseguiria acumular os saberes necessários e, bom, passar nos processos seletivos da Pixar. Assim, as angústias foram crescendo. A Marisa de ombros moles que fazia piruetas depois de ver um filme, nutrida de impulsos sensoriais, transformou-se em Marisa não é a Menina que tem TOC, Hiperatividade, Déficit de Atenção, Esquizofrenia, Autismo, Sei Lá, Algo Assim. Continuava piruetando, isso nunca deixaria de fazer, mas, quando se deu conta

de que seus movimentos inéditos a deslocavam cada vez mais da coreografia ensaiada e clássica do mundo, começou a piruetar com vidro nas meias. E a não sair de casa, com medo de não entender o que as pessoas perguntam. E a parar de desenhar por não conseguir arranjar tempo de se dedicar ao desenho e a escola. E a pedir uma amiga de presente, toda vez que apagava as velas do bolo. A assistir o jornal da noite para se enturmar e descobrir que nenhum adolescente acompanha as notícias. A ter ânsia ao tentar ler, cansaço ao tentar ser igual e falta de ar ao tentar olhar as pessoas nos olhos.

Marisa não é a Menina que tem TOC, Hiperatividade, Déficit de Atenção, Esquizofrenia, Autismo, Sei Lá, Algo Assim.

A escola começou a interessar-se por um diagnóstico depois de ela começar a abrir-se com os colegas e todos perceberam seus assuntos peculiares, foras de contexto. Mais ainda depois das queixas de algumas mães, que viam-na como um atraso em uma sala de aula tão evoluída.

Nesses momentos, minha mãe olha para minha irmã, esse grande universo a ser descoberto. Que não consegue olhar a maioria das pessoas nos olhos, que diz quando o bolo não está bom, que não formula as mesmas frases que nós formulamos – mas, apesar disso, uma historiadora de seus instantes, cientista de sua vivência; a pessoa que sabe o ano de lançamento de todos os filmes que assistiu, que lembra todas as gírias que adotei ao longo da adolescência, que criou sete longas-metragens de ação e conhece todos os seus pequenos detalhes sem nunca ter registrado. Que não sabe colocar o fone de ouvido com sua música predileta e ficar parada. Que não se deixa levar pelas ínfimas preocupações que criamos, que não entende desse teatro cotidiano.

Marisa me faz perceber que nem todos usamos os mesmos óculos embaçados, que rasurar nossas pequenas-grandes características em prol da aceitação alheia é esperar um mesmo futuro que esperavam há 100 anos. Por isso, abrigamos suas grandezinhas – olhe como também corro sem rumo depois de terminar Simplesmente Amor, fingindo ouvir God Only Knows e estar sendo filmado. Olhe como meu pai deixou de se repreender por não gostar de ler – não conseguir manter a atenção não é nenhuma patologia! –, olhe como minha mãe adora pesquisar sobre animais marinhos, assunto do qual Marisa nunca para de falar.

Ela não costuma chorar. Os motivos? Não sabemos. Uma sensibilidade que pegou o caminho menos percorrido, talvez, que pode não se despertar com o água-com-açúcar da sessão da tarde, mas grita com todo episódio de As Meninas Superpoderosas.

Marisa não é a Menina que tem TOC, Hiperatividade, Déficit de Atenção, Esquizofrenia, Autismo, Sei Lá, Algo Assim.

Marisa é um trevo de quatro folhas que passa despercebido por entre os demais trevos triviais e, uma vez reconhecida, não traz somente a sorte que os mitos prescrevem – traz, principalmente, a lembrança dos segredos da natureza, das singularidades que distinguimos em humanos colossais, traz o conforto de saber que muitos caminhos ainda não foram percorridos.

Por isso, quando tirei minha carteira de habilitação, sugeri que passeássemos nas praias da costa sul que ainda não conhecíamos. Esperei o sol chegar, o céu ser pintado de azul e a brisa se tornar algodão para fazer a proposta. Quando apresentei-a, Marisa disse, sutilmente, enquanto dava replay pela terceira vez em uma cena de Divertida Mente: “A gente pode só ir na praia daqui e andar depois das pedras”. E tirei, mais uma vez, meus óculos embaçados.

Nota:

Não repeti “Marisa não é a Menina que tem TOC, Hiperatividade, Déficit de Atenção, Esquizofrenia, Autismo, Sei Lá, Algo Assim” tantas vezes para não acabar retirando do texto sua coerência ao citar as seguintes palavras: Síndrome de Asperger. Desde o início, a intenção foi apresentar a Marisa além do diagnóstico, privilégio que muitos Aspies não possuem, o que fomenta o constante estigma das neurodivergências. Se você a conhece, fico feliz que tenha chegado até aqui. Se você não a conhece, saiba que, provavelmente, não há nenhum Aspie igual Marisa, porque não há nenhum Aspie igual ao outro. Lancei mão de muitas características reais, sim, e, principalmente, de muita experiência com elas, mas não se deixe levar pela verossimilhança para construir sua percepção do que é ser Aspie. No lugar, procure saber pessoalmente, e terá os melhores professores de sua vida.

Revisado por Jay de Araújo

SOBRE O AUTOR

INFJ caricata, moradora do Litoral Norte de São Paulo e entusiasta da arte que faz chorar de alegria. Quer escrever, dar aula, ter uma escola e viajar pelo mundo. No momento, tenta apenas imaginar se vai dar tempo.