Carta ao velho safado: Misto quente é agora

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São Paulo, 08/12/2016.

Caro Bukowski, como vai a morte?

Poderia contentar-me em apenas ter lido os seus livros ou em ver suas entrevistas enquanto você bebia seus velhos drinks, mas não consigo me contentar nem com a vida, como conseguiria conversar sozinho? Melhor escrever uma carta para um morto do que desabafar assuntos comigo mesmo. Não faz diferença me apresentar, apenas quero dizer que te escrevo para exigir respostas!

Pela terceira ou quarta vez acabei de ler o seu livro que mais tenho carinho, Misto Quente. Talvez, na minha singela e inútil opinião, não seja o meu preferido, mas cada vez que eu leio me espanto, vicio e só largo depois de chegar na página 316 da minha versão de bolso. É, Misto Quente tem algo que não sei explicar, mas é poderoso. Ele me assusta, me suja, me perturba de diversas formas. Consigo sentir nojo e raiva de você. Nojo das suas palavras mais perturbadoras descritas pelo olhar de Henry Chinaski, aquele pobre menino que além de ter de viver no meio da recessão de 1929, tem de conviver com um pai frustrado, agressivo e com uma mãe que nada faz. A raiva me vem quando vejo que o livro foi publicado em 1982, falando de 1929, mas se parece tanto com 2016.

Eu preciso saber como você conseguiu! Preciso saber como você descreveu tão bem uma sociedade que por sentir medo, usa a raiva e o preconceito para acomodar-se em uma bolha racista, homofóbica e machista que apesar parecer que vai estourar a qualquer momento, cresce cada vez mais e vai derrubando as minorias, como pinos de boliche. Não é possível que desde 1982 não evoluímos nada! Não é possível que você esteja certo e no final das contas somos um bando de idiotas que agimos como bois a caminho do abate.

Donald Trump, Bolsonaro e alguns extremistas vivem levantando, indiretamente ou não, grupos que copiam o mesmo discurso que os seus personagens fazem na página 266, tão iguais como se tivessem seu livro na cabeceira e não compreendessem a grave ironia que é a sua obra, veja bem:

(…) “Enfrentamos, aqui na América, duas ameaças à nossa liberdade. Enfrentamos a praga comunista e a ambição de poder dos negros. Na maior parte das vezes, essas duas forças trabalham de mãos dadas. Nós, verdadeiros americanos, nos reunimos aqui para tentar conter essa praga, essa ameaça. A coisa chegou a um ponto que nenhuma garota branca e decente pode caminhar nas ruas sem ser molestada por um homem negro” (…)

(…) “ Os comunistas querem dar nosso dinheiro para cada negro homossexual, vagabundo, assassino e molestador de criancinhas que andam em nossas ruas” (…)

Esse tipo de discurso, para ser mais atual só necessitaria de duas coisas: alguém declamando essas duas partes para uma câmera de um celular enquanto dirige algum carro caro de marca famosa (algum tipo de fetiche da geração extremista) ou publicado em alguma rede social com vários idiotas comentando embaixo. Te escrevo essa carta em uma madrugada qualquer, não consigo dormir pois tudo isso me traz uma grande decepção do mundo em que vivemos, porque percebo que nada mudou, ainda agimos como crianças assustadas quando amedrontados. Preferimos ser agressivos, do que entender o medo.

Perceber que nada muda é o que me faz sempre ler seu livro, você o escreveu com tanto amor que é viciante como você descreve a velha “nova” sociedade frustrante, quase como se eu pudesse sentir seus pensamentos dentro de mim e já nem lembro mais quantas vezes parei a leitura para te xingar: “seu velho desgraçado, acertou de novo”.

Me desculpe por essa carta destinada a um velho morto. Antes de tudo, sou só mais um frustrado que ama seus velhos textos atuais e precisa de alguma forma abafar as ideias que não vão a lugar nenhum. Inclusive, você me lembra um velho tio avô meu, daqueles tios bem podres que desistiram da vida por a terem enxergado de perto e que, quando eu tinha apenas oito anos, me ofereceu um velho copo de uísque para aprender como a vida realmente era. Mal sabia ele que, para isso, era só me dar Misto Quente de presente.

Assinado, um frustrado qualquer.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Mais de humanas que queria ser, perdido em um milhão de palavras não ditas.