A resposta das ruas

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No aniversário do AI-5, vemos a PEC 55, antiga 241, ser aprovada. A proposta de emenda à constituição número 55 congela os investimentos do governo federal em saúde e educação (principalmente), além de outros serviços públicos, pelos próximos vinte anos. É mais um ataque do Estado aos de baixo, mais uma retirada de direitos da população que já carece deles. Junto a isso, não esqueçamos o Escola sem Partido, falácia de liberdade de pensamento para o aluno, quando na verdade prevê ensiná-lo como um robô, sem pensar criticamente e a fazê-lo aceitar qualquer coisa que assiste por aí – naturalmente, o papel da mídia aqui se faz ainda mais necessário para os interesses dos de cima, como por exemplo, nos fazer acreditar que a PEC 55 não nos afetará e de que, pelo contrário, nos ajudará. Por fim, a medida provisória do Ensino Médio agrega-se ao Escola sem Partido por uma educação sem pensar. A Medida exclui a obrigatoriedade de ensino de filosofia, sociologia e história, por exemplo.

Citei acima somente alguns ataques que não param de acontecer. A nível estadual, o pacote que Sartori, governador do RS, lançou há algumas semanas – e que pretende aprovar ainda nesse ano, contempla a PEC em menor escala, prevendo o fim de fundações e secretarias, além de privatizações. É preciso lembrar também que nosso governador vem parcelando os salários dos servidores públicos e que parcelará o décimo terceiro também. Ou seja, a situação está tensa em qualquer nível do Estado.

Tendo em vista essas retiradas de direitos, mais um acúmulo de lutas que acontecem ano a ano, anteontem, dia 13 de dezembro, tivemos o 4º Grande Ato Contra a PEC e ao Pacotaço do Sartori aqui em Porto Alegre. Desde o dia 24 de outubro, mobilizações de rua vêm acontecendo, sejam elas trancamentos de vias ou marchas. Panfletagens acontecem não só no centro, mas em bairros, para conscientizar a população sobre a PEC. É difícil chamar toda população à adesão das caminhadas de rua, muitas e muitos já estão acostumadas (os) ao cenário fatídico em que vivem e não há forças ou crença de que ações mudarão o modo como vivem há anos.

Durante a caminhada do dia 13, tinha-se por objetivo chegar ao Palácio Piratini, centro simbólico de poder do governador. A marcha vinha pacífica quando, na Borges, dobrou à direita para ingressar na Riachuelo, e então chegar à Matriz (praça em frente ao Palácio). Neste ponto criou-se o fato político. A polícia militar, braço armado do Estado para uso de violência e repressão institucional, fez o que é treinada a fazer: reprimiu duramente a manifestação com bombas de gás, cavalaria e possivelmente com balas de borracha. A linha de frente do ato estava disposta a mostrar certa resistência à policia: estavam com escudos para as balas de borracha e máscaras para evitar o gás. É importante que se diga que a polícia é inimiga: não há diálogo. Muitas pessoas entoam algumas músicas nas caminhadas insinuando uma possível conversa com eles, como querendo dizer para se juntarem à luta. Não, a polícia é historicamente inimiga do povo, seguindo ordens dos governantes, que por sua vez, naturalmente, também são inimigos.

Um dos últimos panfletos que foram distribuídos contava com um gráfico interessantíssimo sobre a PEC 55. Sabe-se que saúde e educação não chegam a 10% do orçamento anual da União. A pergunta que fica é a seguinte: por que cortar de algo que consome tão pouco? Quase 50% dos gastos públicos são chamados irônica e tristemente de “bolsa rico”: quase 900 milhões de reais são pagos anualmente a banqueiros em função de juros e amortização da dívida nacional. Outra pergunta, também óbvia de resposta, é: por que cortar da saúde e da educação (principalmente), sendo que são serviços essenciais a quase todos 200 milhões de habitantes do país, e não cortar de milionários banqueiros que pouco se importam com a sociedade e nossos reais problemas? A resposta é simples: banqueiros ajudam os governantes a permanecerem no poder às custas das mazelas dos de baixo.

O clima é febril em todo o Brasil, seja em âmbito regional ou nacional. Os ataques dos de cima sempre aconteceram e vão acontecer, é inevitável vivendo em uma sociedade capitalista como a nossa. A consciência de classe existe e a partir dela precisamos agir. Só a luta e a organização dos de baixo derruba os de cima; organização nos locais de estudo, de trabalho, de moradia, construindo o poder popular, pois nossas urgências não cabem nas urnas.

Créditos da foto: Thales Renato Ferreira

SOBRE O AUTOR

Apaixonado pela arte em geral. Pela horizontalidade e força popular. Gosto de uma pá de gente no cinema, na música e na literatura.