Já sabe o que quer fazer?

No dia anterior ao ENEM, começo mais uma crise existencial. Dezenove anos e não estou na faculdade. Todas as conversas com pessoas de 16 anos em diante envolvem variações da mesma pergunta: o que você quer fazer? E com isso, elas se referem invariavelmente à faculdade. Ninguém quer saber o que vou fazer com meu dia, com minhas finanças, com meu conhecimento. Querem saber o que eu vou fazer com a minha vida. E, ousadia inexplicável, eu (pasmem!) não sei. E me recuso a acreditar que carreira seja o mesmo que vida, como muitos não cansam de insistir. Há tantas mais coisas em um ser humano do que sua profissão ou seu currículo! Nem bem saímos do ensino médio, e já esperam que tenhamos certeza de que área ou atividade pretendemos exercer nos muitos anos de vida útil profissional que nos aguardam… Eu acho que é pedir demais.
Principalmente se considerarmos que nossa geração conviveu com incertezas desde o berço. Herdeiros de um mundo convalescente de duas guerras e uma disputa ideológica entre duas potências, a paz mundial jamais foi certa em nem mesmo um ano de nossas curtas existências. Assistimos o início do terrorismo contemporâneo, do cyberbulling, dos sites de tradução instantânea. Filhos da globalização, desde cedo assistimos notícias, jogamos jogos e escutamos músicas vindas de outras partes do mundo. Nosso entendimento de mundo é conectado, diferente de nossos antepassados não tão distantes (coisa de duas ou três gerações atrás) que se comunicavam por cartas e cujas viagens de navio levavam meses. Treinados para o imediatismo do tecnológico e digital, crescemos impacientes com o ritmo natural das coisas, inconscientes por vezes dos ritmos de nós mesmos. Puberdade, menarca, sexo, tudo chegou antes para nós do que para os que vieram antes. Paradoxalmente, somos a geração que demora a sair de casa, que demora a arranjar emprego, que demora a pagar as próprias contas, que demora a casar. Que demora a ter filhos, se os tem. Que troca de faculdade, de emprego, de namoro, que diz não ter medo da mudança. Enrolamos em algumas coisas, corremos para outras. Seria a nossa recusa tardia a crescer tão rápido?
Num ano como 2016 onde certezas nacionais se constroem e destroem como castelos de cartas, a reflexão coletiva se torna individual. Qual é meu papel no sistema político? Tenho um lugar nesse país? Quem me representa? O futuro é meu, ou dos que o constroem sem me consultar?
Presos entre as expectativas sociais de certeza e a incerteza global e local, é compreensível que muitos de nós se percam no limbo do fazer sem saber se é isso mesmo. Amanhã, sentada numa sala com aproximadamente trinta outros estudantes, vou pegar a caneta e responder perguntas que visam testar meu conhecimento – em outras palavras, saber quão apta sou para entrar numa universidade. E o conhecimento de vida, a bondade humana, a empatia, quem mede? E a minha saúde mental e maturidade emocional, tem alguém medindo? Será que sou apta a conviver em sociedade? Nessa gana de nos mostrar como chegar lá, de nos preparar para o vestibular, o provão, o seriado, o ENEM, será que não esqueceram que existe vida após a faculdade? Suspeito que na exigência de certeza algumas incertezas necessárias foram esquecidas pelo caminho.
“Já sabe o que quer fazer?” “Eu quero ser uma pessoa, tia.”

 

SOBRE O AUTOR

Temporariamente na Armênia e permanente amante do mundo, viaja prestando atenção em coisas pequenas e se apaixonando pelo menos uma vez por mês. Não gosta de binários - como o de gênero - e ama gente.