Qual é a do tempo? E o que filmes como Interestelar e o novo A Chegada nos dizem sobre ele?

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AVISO: O texto contém SPOILLERS centrais de ambos os filmes! Se você liga para spoillers e ainda não assistiu algum deles, faça um favor a você mesmo/a assistindo-os e depois volte até aqui :)

É preciso muita coragem para mexer com o tempo em uma história. Nossa percepção sobre ele é tão rígida e limitada que as manipulações temporais na ficção correm o risco de não serem consistentes segundo alguma lógica, ou de dificultarem o entendimento para seu público.

Mas apesar da nossa fragilidade de compreensão, o tema chama atenção e gera um interesse imenso dos leitores e espectadores. Talvez a atração aconteça por nos encontrarmos presos no presente, ávidos por antever o futuro e modificar o passado (afinal, quem não tem alguma coisinha que gostaria de ter feito diferente, não é mesmo?), e impotentes, eternamente empurrados pelo tempo no seu único sentido que conhecemos. Quando a arte consegue especular sobre o assunto com coerência, mesmo dificultando a compreensão da narrativa, o sucesso é certeiro.

Christopher Nolan foi um dos que tiveram essa coragem. No filme Amnésia (2000), o diretor já demonstrava seu interesse por tramas temporalmente caóticas, mas foi apenas 14 anos mais tarde, com Interestelar, que Nolan nos apresentou toda a magia que é capaz de fazer com o tempo.

Embora conte com paradoxos já previstos pela teoria da relatividade, e com a hipótese de que o tempo não teria um sentido, mas seria apenas mais uma dimensão como as outras, também já conhecida por cientistas e entusiastas, o filme é complexo e suscita dúvidas.

Por trás de um drama familiar enfrentado pelo protagonista, Cooper, vemos fenômenos como buracos de minhoca, retração temporal e, num dos momentos mais importantes, Cooper entra no que é chamado no filme de tesserato. Tesserato é o nome que se dá a um cubo de 4 dimensões (e não 3 como é um dado, por exemplo), que também pode ser chamado de hipercubo. É claro que se trata apenas de uma construção teórica, já que percebemos apenas 3 dimensões espaciais, tornando impossível a sua representação. No filme, o tesserato é um dispositivo utilizado para avançar e retroceder no tempo a nosso bel-prazer. Através dele se pode caminhar do passado ao futuro tão facilmente quanto andar por cima de uma linha reta. Na verdade, o que vemos são todos os momentos “acontecendo” ao mesmo tempo, e é aí que se encontra a maior fonte de incompreensão do filme.

A Chegada, filme de Denis Villeneuve recém lançado no Brasil, consegue apresentar o mesmo conceito de uma forma muito mais elegante e simples. Não há tesseratos, viagens inter-galáticas ou buracos negros, o que há aqui é apenas a linguagem. Seres extra terrestres chegam à Terra e uma linguista, Dra Louise, é chamada para conversar com eles. O que ninguém podia imaginar é o poder que a compreensão de seu idioma, mais precisamente de sua forma escrita, lhe traria.

A chamada hipótese de Sapir-Whorf, citada no filme, basicamente diz que nosso pensamento e a forma como percebemos o mundo têm uma forte conexão com a língua que falamos e todas suas regras. O idioma utilizado pelos heptapodes, nossos visitantes na história, é diferente de tudo que a Dra Louise já viu. Além de todas suas frases serem escritas em forma de círculo e possuírem sempre o mesmo tamanho independente do que dizem, elas não apresentam marcações temporais. Conforme Louise vai se tornando fluente na língua alienígena, pensamentos estranhos passam a invadir sua cabeça, visões que ela não consegue compreender. Mais tarde descobriremos que se tratavam de lembranças, contudo, eram lembranças de fatos ainda por vir, uma vez que a compreensão daquele estranho idioma acabou dando à linguista a capacidade de enxergar o futuro. Sim, esse desfecho propõe que a impossibilidade de ver o futuro está relacionada à forma como pensamos e, assim sendo, aos idiomas pelos quais nos comunicamos. Mas ele diz mais.

O que A Chegada traz em comum com Interestelar é o questionamento do livre arbítrio. Nesses cenários onde a acessibilidade ao tempo é expandida, a possibilidade de modificar a história, tanto passada quanto futura, parece inexistir.

Em Interestelar, embora possamos ter a impressão de que Cooper manipula o passado quando está no tesserato, precisamos nos lembrar de que tudo o que ele fez já havia acontecido, do contrário ele sequer estaria ali.

N’A Chegada, fica a dúvida se Louise poderia evitar qualquer das visões que teve, em especial o drama pelo qual ela passaria. No entanto, não parece ser o caso. Acontece aqui o inverso do que se passou em Interestelar. A protagonista olha para o futuro, não para o passado, e somente assim ela consegue descobrir o que fazer (na verdade, o que ela fará), há uma ligação muito rígida entre o que chamamos de passado, presente e futuro.

Em ambos os contextos, o tempo está em nós, não no Universo. Passado e futuro não existem de fato. A realidade apenas é. A passagem linear do tempo seria nossa forma de testemunhá-la, uma ilusão, não muito diferente do que já sabemos acontecer com nossos sentidos, afinal, o que vemos nada mais é do que uma interpretação de ondas eletromagnéticas, os sons que ouvimos surgem de variações de pressão no ar a nossa volta, e assim por diante. Se toda nossa percepção do mundo físico provém de abstrações construídas por nossas mentes, o que garante que o tempo e a possibilidade de modificar a realidade também não são apenas construções?

Com uma conclusão como essa, é irônico que todo esse interesse pelo tempo pareça surgir da vontade de modificar os acontecimentos, sejam os passados, sejam os que virão (é interessante notar como Édipo Rei, uma tragédia grega do século V a.C., já demonstrava tanto o anseio em prever o futuro para fugir do que não nos agrada, quanto a inevitabilidade das previsões). Entretanto, não poderia ser libertadora a impossibilidade de escolha? Quanto de culpa e ansiedade não pouparíamos se enxergássemos as decisões que supostamente tomamos ou tomaremos como fatos consolidados, independentes de nossa vontade? Não existe responsabilidade sem deliberação. Se o Universo de fato funciona dessa maneira irredutível, só nos restaria, como à Dra Louise, abraçar as maravilhas e as tragédias que nosso destino apontar, sem qualquer preocupação.

Revisado por Stephany Justine

SOBRE O AUTOR

Paulista do interior. Engenheiro apaixonado por humanas. Tenta acabar com suas dúvidas espalhando-as por aí. Adora encontrar contradições e acaba de descobrir que não gosta de falar de si na terceira pessoa.