Praga de vizinha má e arruaceira

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Carmela Dutra era o nome da rua onde a velha morava há trinta anos ininterruptos. Trezentos e sessenta e cinco dias cada, salvo os bissextos, e nunca pensara em se mudar desde que pusera os pés naquela vizinhança pacata, com feições de final de tarde de domingo.

Trinta anos espiados por frestas de janelas.

Trinta anos, mais aqueles da juventude em que o mundo girara em torno de um marido cujo rosto agora recordava com dificuldade, e sua vivência terrena estava resumida.

Satisfeita estaria com seu quinhão, não fossem as vizinhas. Numa leva interminável de desaforo, iam e vinham balançando suas vergonhas como se nada de moralidade existisse, nada de pecado, nada de proibido.

Carnes tenras e jovens em intermináveis desfiles de minissaias jeans até o mercadinho logo antes da primeira curva. Pequenos sóis teimosos e atarracados em um mundo que já nascera nublado e dava sinais de trovoada.

Cumprimentavam-na, suas inquilinas, na ocasião do aluguel, que era entregue sempre em mãos. Não atrasavam um dia sequer: quatrocentos e cinquenta reais por um pardieiro pintado de azul, um azul desagradavelmente azul, indesculpavelmente sem-vergonha.

Às escuras, praguejavam, sussurrando-lhe infâmias e obscenidades. Acusavam-na de coisas indizíveis, de atos sanguinários. Tudo por causa de um bichano qualquer, um saco de pulgas que vivia tilintando pelo terreiro. Todo preto, todo sobrenatural.

O miserável era fruto de pacto com o demo. Tanto era que sobrevivera ao veneno e continuava miando madrugada adentro. De vez em quando, outros demônios se juntavam a ele e a serenata seguia até o primeiro raio de luz despertar lá no morro.

A velha, uma vez acordada, ficava à deriva, olhos vermelhos e esbugalhados, dissipando suas horas numa vigília amargurada e exausta, sobretudo exausta.

E não havia remédio que estancasse a dor de injúrias passadas, revividas como se fossem frescas. Não havia alívio. Queria chorar, mas a secura das pálpebras não deixava verter líquido suficiente para trazer uma migalha de conforto.

Lá fora, as vizinhas tripudiavam de sua desgraça e se refestelavam em orgias noturnas. Gritavam ofensas vis, varridas pelo vento tão logo proferidas.

Ela ouvia. Ouvia tudo com orelhas pontudas que se esgueiravam para fora do cabelo amarelo e ensebado, bonito, casto, elogiado por um galante forasteiro a cavalo nos tempos de sua meninice.

A depravação que fazia limite com seu quintal estava com os dias contados. Não tardava.

Certo dia na igreja, sentiu a desgraça iminente como jamais sentira outra coisa na vida. Contava sonolenta as bolotas relativas aos terços ainda por rezar, quando a revelação lhe arrebatou os sentidos com a força de uma bofetada. A vergonha seria exposta tal qual esgoto a céu aberto para todo o bairro, e as Madalenas seriam expulsas dali.

Não tardou.

O episódio aconteceu num dia de chuva espessa e grande comoção. O mercadinho, alvo das suspeitas e recorrentes visitas, foi soterrado por um violento deslizamento, engolindo todos em seu interior.

Que coisa mais triste, sussurravam alguns.

A maioria só observava, enquanto o aguaceiro ia se transformando em garoa.

A velha se juntou ao bando de curiosos paciente como uma ovelha. Não conseguindo conter o triunfo que vinha a galope, entretanto, passou a repetir a plenos pulmões o fluxo de ofensas que já aturara das desaforadas.

À medida que gritava, uma sensação nova ia tomando conta de seu corpo febril e delirante. No começo, suave como brisa de verão, depois, pungente e libertadora. Era gozo.

Arrancou a própria roupa sob os olhares de uma plateia cada vez mais numerosa, que ia se acotovelando para assistir ao espetáculo. Ninguém sabia o que fazer.

Os bombeiros pausaram suas atividades de resgate e tentaram acalma-la, mas nada funcionava, nada reprimia. Era esclerose, diziam.

E ela, como que possuída, tamborilava os peitos murchos já salpicados de chuva e lodo.  E ria como nunca antes rira, ria alheia a todas as ofensas, a todas as súplicas, ao cárcere da lucidez.

Arruaceira de marca maior, ela, a perversa vizinha, vociferou barbaridades até que o fôlego lhe escapou, de súbito, pelo nariz.

Fora atingida pela caixa registradora içada, minutos antes, por um guindaste que até então não tinha se envolvido na história.

Revisado por Jay de Araújo

SOBRE O AUTOR

A palavra escrita me inspira, me forma, me ensina, carrega minha imaginação para horizontes longínquos e torna minha existência possível. Vivo dela e com ela. Além do Literatortura, mantenho a plataforma anahenrique.com, e contribuo mensalmente com o Portal Raízes.