Guinada aos Mares Rosas: 49 anos sem João

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Venho das veredas do sertão dos mares de morros roseados das Minas de lá.

Desde sempre, eu era um pecador a utilizar da gramática pra me confessar ou pra pescar nos riachos da minha gente que, de ondas, não tem mar. A gramática não me fiava, não me dava a fé que tanto precisava. Buscava uma forma de subverter a ortografia para vê-la a pulular das águas na bica da cozinha; para senti-la ao gosto, que me vem à língua, quando converso à mesa do café-da-manhã e ao papear questões de família com meus pais; para semear letrinhas nos canteiros do nosso horto de roseirais.

Uma professora, certa vez, revelou-me que “pra” não existe; o que existe é “para”, e só. Mas, esse “para”, algumas vezes, parece feio que dói! Soa pior que arranhado naquela lousa da escola! Pensei “sinto muito, senhora”; da gramática cê pode até saber, mas tô falando é de musicalidade. Uso “pra” quando acho que devo usar. Pouco me importando se é prosa ou se é conto, conto poetizando; não me comprometo quêsse mundo ou caquêle. Se quero, os inverto. Da ortografia e da gramática, se me negam flerte, faço-as é de tapete.

Sentia que muitos procuravam me coagir, meio que cerqueado por Joca Ramiro e Zé Bebelo numa conversa de bois, tal qual noutros tempos a Coroa Real coagia os mineiros a um tributo cabal, por não entender que língua e comida ajudam a forjar uma nação querida e a salvo de todo bicho mau… Além das primeiras estórias, outra era de prosa e de rosa haveria de vir! E veio a mim, numa composição diadorada, matinal e tropeira, tal qual reluzente ao amor de Riobaldo e Diadorim.

Se meio a tal sagarana me perguntam se gosto de rosas, digo que não gosto. Mas, se me indagarem se por ela tenho “gôsto”, tenho é demais da conta. Se gósto de rosas, quero vê-las ao buraco dum vaso; se tenho “gôsto”, comer-las-ia acaso não gostasse tanto de vê-las no jardim. Se gósto, sai um agudo em arranhando a garganta; se tenho “gôsto”, desliza em veludo pelo céu da boca. Se gósto de Guimarães? Digo que tenho “gôsto”, com este acento incorreto e de se truncar, pecador e temperado com magma que ele próprio me ensinou a adocicar.

Qual burrinho pedrês que, depois de Guimarães, não quis guinar aos mares com o seu chapéu de palha? Qual burrinho pedrês que, depois de comer as rosas de Cordisburgo, invejou-se novamente ante o potrancão? Antes ir com o vaqueiro Mariano à Sarapalha!

O potrancão, sacudido e malhado, tem inveja do burrinho sossegado… E não que a pureza da língua seja coisa ruim, e sim porque precisei morar na cidade grande pra ter saudade do sotaque interiorano, repentista e capaz; é necessária a dieta de palavras integrais pra sofrer de abstinência da rapa do tacho no fogão à lenha. É preciso fazer doce pra melodiar – mais de melado que de melodia – conjunções rígidas e corretas demais.

Em estas estórias, confesso, por Guimarães tenho “gôsto” causdiquê sua palavra é a copa de casa na conversa descompromissada; as andanças nas ruelas do bairro e as abancadas na varanda; tenho “gôsto” porque, mesmo na linguagem mais purista, degusto e dou outra provinha da infância inocente e da emoção de retornar ao meu sertão. Mesmo na pior das maracutaias, cafungo o cheiro de poeira chuvosa e de terra molhada às urucuias, brejos e fundões.  Lá descobri, na sílaba tonicamente imperfeita que me permite cantarolar procê, que na simplicidade guino aos mares rosas à contemplação de uma história de amor e de rincão.

Tenho “gôsto” por Guimarães e cozinho e faço doce para dizer que ele nos quebrou as correntes verbais da cultura das “línguas-gerais”; revelou-nos a arte que habita o riacho tortuoso e sinuoso que ao mesmo duelo corre uma carreira e também tem cadente mansidão. Tenho “gôsto” porque posso chamá-lo de Rosarães Guima; e suas rosas me ensinaram, mesmo meio à seca, a utilizar da língua para sentir o sabor e os oratórios arredios das mangas e pitangas do meu quintal. Do meu campo geral e dos mares de morros tímidos, envergonhados, enluarados, campados e destampados, escondidos ao véu noivado de neblinas madrugadeiras, fez-me encontrar a mim mesmo no falar tranquilo e cortado que é, de todos os ditares, o mais certão.

Os religiosos têm seus salvadores, e as nações têm mártires e construtores. A língua terreira, singela e de flor, pecadora e solfejante da minha terra, tem no inconfidente da gramática um dos mais sábios palavreadores e o seu maior contraventor! Revelou-me a leitura; ensinou-me a ler tudo que é livro; desbravou em mim essa paixão de tamanho que nem sei propor.

Pela herança dos caipiras cachimônias a tocar, manso, melado e troteado eu vou falando, feito pé-de-moleque puro ao tropeçar; dedo-de-moça grosseiro a prosear cantarolando; goiabada que cola o sotaque na boca; queijo furado a engolir uma sílaba oca; coisas e trens que se dançam e só se acham em corpo de baile. Ao passo que às brasas duma fogueira em céu estrelado se conta sobre a hora e a vez de Augusto Matraga, esvazia-se a compota de figo em calda e os restos da pasta de “abóbra”, e o galo prepara seu teatro às últimas tutameias do galão de cachaça. “Viver é etcétera”… Ave, palavra!

Antes das primeiras estórias, acaso tenha alguma coisa a falar cocê, em nome de São Marcos e de Sô Guima é que guinando aos mares rosas eu deixo a rapa da panela procê; e, acaso importado preferir o bacalhau gramaticalmente purista ao doce de leite roceirim daquela serra das minhas Gerais, nas noites do sertão eu é que rio docê na descompromissada e alegre companhia de Miguilim.

PS: 2016, além dos 49 anos da partida de João, recebe o 60º aniversário de publicação do “Grande Sertão: Veredas”. Um ano auspicioso e que já está quase de partida também.

Revisado por Victor M. P. de Queiroz

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.