Estação Zeitpunkt

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Estação ferroviária Zeitpunkt*.
Num instante, durante a tarde de um dia frio, o vento gelado toca o que pode. Uma neblina estática fica suspensa no ar. Pessoas semelhantes e diferentes preparam-se para embarcar na serpente que percorre trilhos. Seus ombros altos quase tocam as orelhas, os queixos afundam-se no peito e mãos procuram um abrigo seguro nos bolsos.

Desfeito o instante, a viagem se arrasta na contingência. Orelhas comportam fones em silênciofóbicos, os livros ocupam a vista dos solitários e outros poucos admiram horizontes vazios. O vento, que entra pelas janelas dos primeiros assentos, sai fugido pelas janelas dos assentos seguintes, sem levar qualquer lembrança dali. O vazio paira no ar.

De súbito surge um dizer ininterrupto, como um furto na calada da noite que atravessa as existências! Os passageiros são tomados pela fala, que impera sobre eles como uma loucura. Como um surto devaneante, uma praga, um milagre. Todos são possuídos pela linguagem. Todos são convocados, convidados, obrigados a contemplar o seu falar, sua casa, sua morada, sua essência. São seus convidados de honra.

Não há escapatória! O trem já deixou a estação e avança rapidamente. Não há mais como pular, a não ser num cessar da vida. O delírio falante se apropria dos passageiros, ele os tem. Tudo se diz nesta viagem. Toda a possibilidade do dizer se faz presente em cada ser que embarcou no trem. Deuses e heróis são trazidos para compartilhar o mesmo ambiente. Amaldiçoados, azarados, desatentos em sua decadência.

A linguagem já grita, berra incontrolavelmente! A potência de sua voz é estrondeante, infinita, soa para além das fronteiras, para além do homem. Cinco a dez pessoas ficaram surdas, e deitam repousantes no sangue de seus tímpanos rompidos. As pessoas estão surdas. Surdas do silêncio. Foram apropriadas para loucura, para a linguagem falante.

Um corpo trêmulo dança no descompasso da insanidade. Um corpo trêmulo dança olhando os astros orbitantes dançantes. Ele tenta vãmente pedir socorro, faz o que pode, mas todos já estão surdos. Parece que todos no trem são puxados para a morte, ao seu encontro. Alguns olhos já se foram, mortos se foram. Foi-se.

Talvez não dê tempo de parar. Porém, tudo carrega uma simplicidade. Algo de estranho, a quietude. O mar é calmo, sem ondas. As águas cristalinas transparecem o próprio homem. Nenhum ruído se ouve, tudo habita a normalidade. Nada difere do comum. Não-senso comum. O que pode ter acontecido? Nenhuma palavra foi emitida em som. Ninguém foi surpreendido, aparentemente. Cotidiano. O olhar levantou-se. As cabeças curvaram-se.
O fim da viagem.

– Estação Zeitpunkt, todos desembarcam.

 

*NOTA: 7 de outubro de 1950, um poeta vestido de filósofo pratica o instante com palavras. Bühlerhöhe nunca presenciou tamanha ousadia. Não entendeu nada. Precisou de outro instante: 14 de fevereiro do ano seguinte. Neste, o mundo ficou atônito!

– O instante é de Deus, gritavam.
O poeta não queria ser Deus. Não fora. A verdade é que o poeta não poderia ser mais humano. O poeta trapaceava, mas era verdade, no instante. “Os poetas mentem demais”, assim falava Zaratustra. O poeta estava pronto para sucumbir. O mundo não estava pronto para o poeta. Tampouco pronto para o instante. O instante é o homem.
Zeitpunkt é o instante da linguagem.

 

Rafael Solera
Revisado por Stephany Justine

SOBRE O AUTOR

Nascido em novembro de 94. Natural da cidade de São Paulo/SP. Poeta. Autor da antologia poética "Versos de Flores". Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, escritor e percursor da filosofia pela [e na] Linguagem. Amante do inútil e do em si mesmo. Louco pela liberdade e eterno viajante da Verdade. Mas, antes de qualquer coisa, poeta.