Elena Ferrante, a autora que nunca mostra o rosto

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Quem?

As recentes publicações do terceiro livro da tetralogia best-seller A Amiga Genial pela editora Globo e A Filha Perdida pela Intrínseca reacenderam e trouxeram para território nacional as discussões e mitos que rondam o nome de um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos tempos. Alvo de pesquisas e investigações em meio a um sucesso absurdo, o pseudônimo Elena Ferrante chama atenção pela discrição e falta de protagonismo – são raríssimas as entrevistas que a autora aceita dar por aí. Afinal, quem é a primeira anônima indicada ao Man Booker Prize International e que, curiosamente, consegue viver sem mostrar o rosto há 25 anos?

Primeiramente, as obras


elenaaaHá uma variedade literária interessante quando pensamos em Ferrante: Sua primeira obra publicada, Crónicas do Mal de Amor, reúne seus três primeiros romances: Um Estranho Amor (1991), Os Dias do Abandono (2002) e A Filha Obscura (2006), todos estes focados em um tema comum: a relação mãe e filha. Foi com a ‘’série napolitana’’ (2010 a 2014), composta por A Amiga Genial, História do novo nome, História de quem vai e de quem fica e Storia della bambina perduta (ainda sem título em português) que seu sucesso se alastrou pelo mundo. Com uma prosa nostálgica comparada por muitos com Clarice Lispector, Elena Ferrante narra a dinâmica da amizade feminina ao longo da vida, assim como as transformações da Itália pós-guerra. Em Uma Noite na Praia (2007), seu primeiro trabalho infantil, somos apresentados à vida de Celina, uma bonequinha esquecida pela dona na praia e que precisa voltar para casa. Por fim, em Frantumaglia (2003), o único não ficcional, encontramos uma compilação de fatos de sua carreira, cartas enviadas para o seu editor, entrevistas dadas a jornalistas e respostas para algumas perguntas de seus leitores. Juntos, seus livros somam mais de um milhão de exemplares vendidos e são aclamados pelos críticos de diversos países.

O pseudônimo, as investigações e seus desdobramentos

Vivemos em um momento no qual a imagem de um autor conta tanto quanto sua história. Se antigamente a necessidade de interação com o público não transpassava as páginas escritas, a sensação atual é de que é impossível se esconder – as incontáveis sessões de autógrafos e participações em feiras literárias de escritores best seller comprovam o pensamento perfeitamente. Embora se esforce, nem mesmo Elena Ferrante consegue fugir das investigações curiosas dos jornais e leitores.

As suspeitas de quem está por trás do nome são recorrentes. Há um tempo, o jornal Corriere della Sera, um dos mais famosos na Itália, divulgou que Marcella Marmo, uma professora de Nápoles, seria a verdadeira identidade da autora misteriosa, o que foi desmentido logo em seguida pela editora de Ferrante. Neste mês, o The New York Review of Books foi mais a fundo e, observando movimentações bancárias do seu grupo editorial, publicou um artigo no qual afirmou que a tradutora Anita Raja – responsável por traduções de autores alemães como Kafka – teria relações diretas com o pseudônimo. As especulações não param por aí: todos os detalhes que podem dar pistas de sua real identidade são analisadas minuciosamente em suas obras. Se consideradas autobiográficas, há três constatações: o nascimento em Nápoles, uma passagem pela Grécia e a convicção de seu gênero feminino. Embora tudo pareça fazer sentido, nada foi realmente comprovado. Fato é que todo o rebuliço causado pelo disfarce de Elena nos faz pensar: Até que ponto a figura de um autor importa? O texto fala por si só? Enquanto procuramos por respostas, milhares de edições são vendidas em diversos países e comprovam o que talvez seja a única coisa pela qual devemos nos deixar levar: O quão instigante e poderosa é a narrativa de Elena Ferrante.


Foto: Jonathan Wiggs / The Boston Globe via Getty

Revisado por Jay Araújo

SOBRE O AUTOR