Do amor e da memória

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Vou pedir pra que vocês memorizem essas cinco palavras aqui, daqui a pouquinho eu peço para me dizerem, está bem? Prédio, colchão, amor, carro, xícara.
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Esses dias eu fui visitar minha vizinha de porta. Esqueceu meu nome de novo. Já é a terceira vez hoje. Quem é essa moça bonita? Ela sempre foi muito gentil. Tudo bem: milésima vez, se for preciso, Vim visitá-la de lá da cidade grande, Sou mais um pedacinho da família enorme que você construiu, vovó.

É que ela não anda bem da memória e já faz tempo. Sabe quando as coisas dão um giro tremendo e tudo que você enxerga sobre uma pessoa ou coisa é o que ela se tornou? A cabeça da gente é traiçoeira. Acompanhei vovó no médico pela primeira vez quando a gente notou que ela começou a ficar esquecida. Foi até engraçado: Gostaria que me dissesse cinco tipos de flor, cinco animais diferentes e agora você pode me dizer que horas são nesse relógio aqui que desenhei? Ora! Parecia, para mim, um insulto dos bravos àquela mulher que tinha o dobro da idade do rapaz médico do outro lado da mesa. Mas vovó não se lembrou de 5 tipos de flor. Ela não pôde dizer ao senhor médico que mês do ano estávamos e quando ele apontou para um interruptor ela não conseguiu dizer o nome daquela coisa ali. Tudo bem.

Eu, desde então, escolhi meu medo favorito: a memória. Meus amigos tem aos tantos medo de cobra, medo de morrer queimado e uma tremedeira danada em avião. Para mim, sempre foi ela. Nunca fiz as pazes com a memória, apesar de ter sido sempre a criança com a memória incrível, Como você se lembra disso? Faz tanto tempo! Mas a memória é rebelde: não segue as regras que convencionamos para a vida. Um dia a memória da vovó decidiu descansar: bau bau.

Aos poucos eu fui perdendo quem era aquela mulher incrível que todos que conhecem sabem. Aos poucos eu fui percebendo que dentro daquele corpo que ela habita não tem mais ninguém. Hoje as pessoas falam de vovó usando o passado: Foi uma mulher incrível, Ajudou tanta gente, Amou muito. Mas vovó ainda vive. Com que identidade?

Tudo isso que falei aqui não tem utilidade alguma a ninguém, a não ser que decidam que a vida é preciosa e deve ser aproveitada aos tantos até não se lembre mais o nome da neta favorita da porta ao lado… A não ser que decidam fazer as pazes com a memória (e quem for capaz disso, peço encarecidamente que me ensine) e sair por aí na loucura de ser o que se é quando se é: identidade nunca foi coisa una mesmo. A não ser que, e aqui falo de mim, decidamos que a saída é pelo único caminho possível: o amor.

Desde que cheguei por esse mundo e me entendo como sou, sei que vovó esteve ali e olhou para mim com a ternura do laço feito. O nosso amor não precisa de identidade. Eu juro que não me interessa se ela sabe 5 tipos diferentes de animais ou se sabe que dia é hoje: Todos os dias são sábado para você, vovó. Tudo isso só é possível por causa do amor: isso nem a danada da memória apaga. Eu juro que enxergo nos olhos dela.

Agora eu queria que vocês me dissessem aquelas cinco palavrinhas que pedi para que memorizassem. Vovó se lembra do amor. E vocês?

SOBRE O AUTOR

Por ter certeza que a vida é tao intragável que parece um delírio, vive se apegando aos seres de carne e osso que nesse mundo habitam. Tem certeza absoluta que todos os problemas do mundo são resolvíveis com uma boa xícara de café. Escreve com a mão direita e o coração