Boa prova?

redacao-do-enem-2015

Em fim de semana de ENEM, o Facebook se enche de mensagens desejando sucesso aos participantes. Embora sejam sim genuínos e generosos esses desejos, eles não fazem sentido a não ser que se estendam apenas àqueles participantes mais próximos (e daí talvez o desejo não seja tão generoso assim).

Parece que nos esquecemos de que apenas um número pré definido de candidatos terá uma vaga numa universidade. Não importa quão bem ou mal o conjunto total de participantes se saia na prova, esse número não vai mudar e não haverá espaço para a maioria deles.

Não haverá espaço. Não há espaço.

Como assim não há espaço? É tão difícil perceber o problema que há nisso, a ponto de raramente se debater a respeito?

Não pensemos que a solução se trata apenas do aumento do número de vagas. Isoladamente, isto não é mais que um paliativo é benéfico sim, mas ainda um paliativo. Não passa por nossas cabeças questionar por que tanta gente está querendo fazer faculdade? Quais as motivações dessas pessoas? Será razoável supor que a maioria está ali apenas em busca de um emprego que pague melhor do que os que conseguiria sem um diploma? Sendo de fato verificável que pessoas com ensino superior possuem salários maiores, não seria o caso de nos perguntarmos por que é assim, e se não poderia ser diferente ao menos na medida em que todas aquelas que fizeram até o ensino médio tenham condições de conseguir um emprego com salário digno? Por que um diploma importa tanto afinal?

Não quero de jeito nenhum engrossar o discurso de que o ensino superior deva ser de poucos (como é), muito pelo contrário, ele deveria ser de todos que o buscam. No entanto talvez se tenha criado um fetichismo pelo diploma universitário por conta da forma como principalmente o mercado e a sociedade o enxergam, dificultando substancialmente a vida de quem não o possui (e nesse cenário em que o número de vagas é relativamente muito baixo, como ficará a vida daqueles que não conseguirem ingressar numa faculdade?). Esse possível fetichismo distorce muito a demanda por diplomas e praticamente impossibilita uma sociedade em que todos tenham condições decentes de vida (ou ao menos a evolução da nossa para tal estado social).

Por outro lado, sempre surgem aquelas ideias positivistas da universidade como fomentadora do progresso científico e tecnológico e que, como tal, não deveria dar espaço a qualquer medida que prejudicasse esse progresso, como o fim de uma seleção dos alunos supostamente mais aptos a realizá-lo. Ora, de que vale o progresso científico e tecnológico, ao menos enquanto política pública, se ele estiver descolado do progresso social? Hoje, no Brasil, o progresso social que as universidades efetivamente mais gera é o aumento da renda dos seus formandos, e este progresso fica restrito a este grupo. Sendo assim, numa sociedade em que o diploma tornou-se condição necessária (embora não suficiente) para uma vida minimamente digna, não dá para tratar as universidades públicas primordialmente como centros de fomento ao progresso tecnológico e científico. Elas não devem, de modo algum, desviar-se deste se este é o seu fim de fato (será que é, no caso das públicas?). Contudo, elas não podem fechar os olhos para o efeito que elas mais concretamente geram. É desta maneira que se justificam, por exemplo, as políticas de cotas socioeconômicas e raciais.

Mais do que aos candidatos, deveríamos direcionar nossos desejos de “boa sorte” àqueles para quem não haverá espaço, pois estes sim precisarão, e muito, dela. Mais do que desejar “boa sorte”, deveríamos questionar que tipo de sociedade estamos continuamente ajudando a promover.

SOBRE O AUTOR

Paulista do interior. Engenheiro apaixonado por humanas. Tenta acabar com suas dúvidas espalhando-as por aí. Adora encontrar contradições e acaba de descobrir que não gosta de falar de si na terceira pessoa.