Animais Fantásticos, Tempos Fantasiosos

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Não é de se espantar que o novo filme no universo mágico de Harry Potter trate de temas inclusivos, ainda mais com a própria J. K. Rowling assinando seu roteiro. O respeito às diferenças sempre foi um assunto precioso à escritora e pode-se mesmo dizer que toda a saga de seu bruxinho gira em torno disso.

Em Animais Fantásticos e Onde Habitam, novamente vemos a intolerância entre bruxos e não-bruxos, mas em tons diferentes do que estamos acostumados. Não se trata do simples rebaixamento e eliminação de trouxas e bruxos mestiços, há aqui uma tripla frente de discriminação.

Num primeiro momento, vemos os novo-salemianos, uma retomada ao movimento do século XVII que perseguiu e condenou as chamadas bruxas de Salem. Pelo lado da magia, o MACUSA, Congresso Mágico dos Estados Unidos da América, vem promovendo a separação dos dois mundos. Há uma série de restrições às relações entre bruxos e trouxas (ou no-majs), inclusive ao casamento, impreterivelmente proibido. Tendo em vista a manutenção do segredo da magia e sua proteção, nenhum no-maj pode permanecer sabendo de sua existência, sem exceção. E finalmente, nos deparamos com a ideia, já conhecida entre os fãs, de “for the greater good”, isto é, a promoção do que for necessário para o bem estar dos bruxos, inclusive guerras contra os não-bruxos, tudo “pelo bem maior”.

Infelizmente esse é um cenário que tem se tornado cada vez mais comum e explícito. Podemos encontrar todo tipo de intolerância no decorrer da história humana, no entanto, vivemos numa época em que essa intolerância é ao mesmo tempo muito combatida e abertamente defendida e disseminada. É difícil não comparar a construção de um muro separando os Estados Unidos do México (ainda que fique apenas na promessa) com o isolamento do mundo bruxo, ou os novo-salemianos com a crescente onda anti-islâmica.

Newt Scamander, o protagonista, passa a vida tentando mostrar aos humanos como os animais só são perigosos aos olhos que não os compreendem. Não é difícil notar como o mesmo se pode dizer de pessoas de diferentes raças, de diferentes credos, nacionalidades, preferências sexuais, e daí por diante.

O diferente pode sim assustar à primeira vista, mas é só a sua incompreensão que mantém qualquer repulsa. O perigo não é real, é uma fantasia, invenção de mentes incompreensivas. E quão fantasiosos não são esses tempos em que vivemos? Onde sobram ódio e medo enquanto faltam a tolerância, a empatia, a disposição para enxergar o mundo pela perspectiva do outro.

SOBRE O AUTOR

Paulista do interior. Engenheiro apaixonado por humanas. Tenta acabar com suas dúvidas espalhando-as por aí. Adora encontrar contradições e acaba de descobrir que não gosta de falar de si na terceira pessoa.