‘Acho que cresci, mas é mentira’

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Acho que cresci, mas é mentira. Não é mentira que cresci; só não é verdade o que me disseram que eu seria.

Hoje, longe da casa na qual nasci, vejo o mundo com os olhos maiores, mas também posso ver o meu futuro com sonhos menores do que eu via no passado. Procuro lembrar-me dos meus desejos de infância e me lembro de poucas coisas. Todavia, eu pensava em tantas! Construir prédios era só uma delas…

Abandonei a ideia da arquitetura ao descobrir que, além de desenhar plantas, seria preciso casar-me com a matemática. A medicina foi esquecida quando eu soube que para salvar a vida das pessoas, às vezes, seria preciso abri-las. A ideia de ser professor e dar aulas… Bem, ainda existe, mesmo sendo sinônimo de ganhar pouco (mas isto eu aceitaria).

Não me intriga ser pobre; intriga-me o fato de não ter dinheiro. Parece que tal coisa é pecado, pois o desprovido de ganhos é humilhado; parece ser crime, pois ele também é isolado.

Quando criança, ouvia votos de que eu seria bem-sucedido, amado e rico. Hoje, percebo que essas três coisas, para muitos, são sinônimas. Não sei para quantas pessoas, mas é assim para tantas!

Penso que todos, em algum dia da vida, tenham recebido aqueles votos, e hoje me dou a refletir: todos querem o melhor carro, todos querem a melhor casa, todos querem ser felizes… como se o melhor fosse aquilo que é mais caro.

Fui enganado quando criança. Não por pessoas específicas e sim pelo fluxo social. É evidente que, se todos querem o mais caro, o mais caro será de ninguém, ou, então, será apenas de alguns enquanto os outros nada ou pouco terão. Porém, não falo especificamente disto.

Meu engano se deu porque meu sonho se apequenou, assim como o meu olhar. Eu não queria crescer para ser doutor e ter o mais caro; o que eu queria mesmo era encontrar uma profissão na qual, mesmo crescido, pudesse continuar a desenhar, a escrever, a cantar e a brincar.

Do que sou e do que poderei ser, prefiro refletir sobre o que eu vi antes dos meus olhos aumentarem, lá na minha casa do passado; não era preciso ter nada caro para ser feliz ou para ser amado.

Não é mentira que cresci. Acho que cresci, mas é de mentira. Quem sabe, essas possam ser apenas reflexões de um “eu adulto” que ainda não conheci… Ou de um dia desempregado.

 

 

Revisado por Fernanda Miki

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.