A Libertinagem como caminho para as esquerdas

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Quando os quatro libertinos das 120 journées de Sodome acessam o quase inacessível castelo de Silling para cumprir o calendário de orgias, Sade nos apresenta a obstinada e paciente consciência libertina. Silling é isolado do mundo, e carrega consigo toda e qualquer possibilidade da Libertinagem. A reclusão é o próprio lugar de libertação, pois, pelo afastamento das obrigações sociais, o libertino se encontra com a natureza e ganha o poder da criação, da imaginação. Com isso, “movido por uma força inesgotável, que lhe foi dotada pela natureza, o homem sadiano exerce um poder absoluto, irreversível, que nunca prevê revolta, que faz suas próprias leis e define o sentido de todas as ações que o cercam sem o constrangimento de qualquer ordem”, como nos indica Eliane Robert Moraes.

Traço aqui a Libertinagem num enquadramento específico. No século XVI –  época caracterizada pela rebeldia – o libertino era aquele que, insatisfeito com a cristandade ortodoxa e os ideais barrocos, buscava resistir ao pensamento vigente com alguns ideais renascentistas. Ao longo do século XVII, a libertinagem aparece, enfim, como inimiga da religião. Em contraposição à exaltação cristã da alma, em detrimento do corpo, o libertino preza ao corpo e sua natureza, ao prazer, evidenciando uma das bases clássicas de pensamento da libertinagem: o epicurismo. Já no século XVIII, a libertinagem assume o papel que aqui nos interessa. Não mais como crítico da religião e do poder, o libertino torna-se um crítico da moral. Tal papel que consolida a Libertinagem – agora, no enquadramento desejado – de fato na filosofia; tal papel que o marquês de Sade assume em seus escritos, e que provoca o seu próprio isolamento. Sendo contra o Antigo Regime e contra a Revolução Francesa, Sade “não pertencia a qualquer das classes cujo antagonismo denuncia, é de si próprio o único semelhante” (Simone de Beauvoir, “Deve-se queimar Sade?”, p.19).

Como vemos em Georges Bataille, capturar um pensamento sadiano é como tentar aprisionar o presente, a sua vontade de destruição de si sempre o deixou um passo à frente de um sistema filosófico. Sade imita a natureza em constante mudança, mas detestando-a, a natureza representa o próprio mal – a mudança – e o seu fim último é superá-la. O exílio do libertino é a aproximação da natureza, e seus excessos são a manifestação da mesma. Porém, o libertino quer estar além do excesso, ele precisa ganhar da natureza; o libertino busca antecipar a própria natureza, ele busca um além-do-homem nietzschiano.

Meio dia Vermelho
Considerando a situação político-ideológica conturbada pela qual o mundo passa, a Libertinagem pode representar um caminho para repensar os movimentos das esquerdas. Com sua inércia frente aos discursos totalitários e golpistas, e ao enfraquecimento das principais instituições democráticas, a esquerda se estabelece a partir da ação do outro. Como na teoria newtoniana, a inércia não no sentido estrito do não movimento, mas no repouso em relação a algo, que se dá em seu movimento conjunto; a esquerda se move à sombra de seu alvo.

O isolamento do libertino representa o desprendimento do pensamento alheio para dar asas ao pensamento próprio, pois o libertino precisa do ponto mais alto de sua imaginação para surpreender a natureza com os seus excessos. O libertino não se situa a partir do outro, ele ouve a si mesmo; os instintos falam e o libertino age, como na moral do senhor de Nietzsche (as aproximações entre Nietzsche e Sade são inúmeras, sendo um trabalho para outro texto). As esquerdas necessitam do pensamento próprio e da imaginação a partir do momento em que o Estado e o sistema capitalista apenas lhe dão o lugar do impossível. Aceitar a esquerda como mera ideologia da reação, a uma ação primeira de seus oponentes, é condicioná-la ao pensamento vigente dos mesmos oponentes.

Nem Hillary, nem Trump, a esquerda se encontra no próprio não-lugar (face a liberais e conservadores que flertam a todo instante) e, como vimos em Beauvoir sobre Sade, é de si mesma a única semelhante. A necessidade de uma esquerda pensante é a mesma necessidade de um pensamento político em movimento, que não se encontra cravado no tempo histórico (em constante mudança). Seja num Castelo de Silling ou em qualquer outro ambiente de exílio, a imaginação é a possibilidade da esquerda de transpor os intransponíveis obstáculos que seus oponentes criaram no pensamento político.

A vontade libertina de superação da natureza deve ser a vontade da esquerda de superar o seu tempo histórico, de conseguir ultrapassá-lo, de estar à frente de suas necessidades. Tal concepção pode ser aproximada do compromisso histórico das esquerdas com a utopia, que guia e motiva os seus movimentos. A libertinagem pode ser para as esquerdas um lugar ao sol, ao meio-dia, onde as sombras já não existem mais e a imaginação aflora no pensamento próprio, um meio-dia vermelho. A libertinagem pode ser a possibilidade da esquerda de imitação e superação do tempo histórico, com a obstinada consciência libertina, para que o seu fim último seja a utopia. Tal utopia, que encontra nas estrelas o brilho: que vale muito mais do que qualquer distância, como vemos no poema “Das utopias” de Mario Quintana.

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

 

Rafael Solera
Revisado por Isabella Kupper

SOBRE O AUTOR

Nascido em novembro de 94. Natural da cidade de São Paulo/SP. Poeta. Autor da antologia poética "Versos de Flores". Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, escritor e percursor da filosofia pela [e na] Linguagem. Amante do inútil e do em si mesmo. Louco pela liberdade e eterno viajante da Verdade. Mas, antes de qualquer coisa, poeta.