Recordar, Resistir e Reelaborar ou Carta Aberta às esquerdas de São Paulo

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Recordar, resistir e reelaborar ou Carta Aberta às esquerdas de São Paulo

 

“Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

[…]

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

Mais vasto é meu coração. […]”

Carlos Drummond de Andrade, Poema de sete faces


A cena que se desenrolava na minha frente quinta-feira era um prenúncio da tragédia esdrúxula que vivemos a partir do dia de hoje. Eu subestimei o absurdo.

      Avenida São João, corredor central, parada centro/bairro Angélica. Um sujeito negro, tênis velho e gasto, calça jeans desfiada pelo tempo, jaqueta do time do povo (cuja torcida é composta, dentre muitos, pelo Lula, alguns professores universitários e o Washington Olivetto). O corte do cabelo estendia-se até a barba, formando um nada sutil cavanhaque. O nosso sujeito é nitidamente, pra quem sabe o que é isso, um cara de quebrada. Vendo minha ausência completa de simpatia – não mostro os dentes na rua “sozinha” depois das 22h –, ele vociferava olhando para mim.

 “Eu gosto do João Dória, o cara é um administrador. O bom é que ele vai privatizar bastante e isso vai gerar bastante emprego: o cara pensa no social.”

Ele dialogava com duas senhorinhas, com seus longos cabelos neopentecostais embranquecidos, presos com as famosas piranhas. As duas carregavam consigo enormes sacolas cheias de um volume fofo. Uma delas nem devia estar ouvindo muito bem àquilo, enquanto a outra tinha uma resposta-coringa, que se adequava a qualquer frase sobre os tais “políticos”:

  “Não adianta nada eles prometerem o mundo agora. Depois que é eleito, ninguém faz nada!”

    A conversa foi se desenvolvendo e meu sofrimento e desejo de que o ônibus ou até mesmo DEUS® me tirasse daquela situação também. O sujeito respondeu à senhora.

     “A senhora sabe que eu falei isso que eu vou falar agora no bar outro dia e quase apanhei… Pois a senhora sabe quem foi pra mim o melhor prefeito que São Paulo já teve?” — Pausa breve, respirando —“Paulo Maluf!”.

Dava pra ver o brilho no olho do sujeito, ele terminou de falar com um sorrisinho de canto de boca. Eis aí um fenômeno inexplicado de nossos dias: o tesão em ser P O L Ê M I C O. Não importa o tamanho da excrescência que se diga desde que soe provocador, por mais que não o seja em absoluto. (Respeitem Antônio Abujamra, crianças).

A única resposta possível da senhorinha entusiasta das frases feitas é aquela que todos que moramos em São Paulo já ouvimos nas mais variadas ocasiões:

    “Rouba, mas faz!”

Olho para trás e finalmente se aproxima a minha redenção, minha salvação de letreiro amarelo e carroceria verde-limão. Fazia tempo que não ficava tão feliz por entrar no singelo meio de transporte da maior parte da população paulistana.

     A sequência dessa cena inverte a ordem dos acontecimentos da famosa frase de Karl Marx: primeiro houve a farsa, depois, a tragédia. Essa cena é a resposta a muitas das questões que toda a esquerda está se fazendo agora. João bonecodecera Dória eleito no primeiro turno com 53% dos votos significa que o produto mais estapafúrdio do neoliberalismo deu muito mais certo do que poderíamos calcular. O pobre de direita é o grande sucesso das táticas da velha direita; um hit, pelo que podemos constatar nesse tão angustiante agora. Aí, se faz a questão, a apostólica romana questão: “a culpa é de quem?”

Vejam senhoras e senhores, falo agora um pouco mais intimamente àquelas e àqueles que atuam ou atuaram nos movimentos sociais e organizações afins, o que não quer dizer que quem não tenha esse “currículo” deva passar reto pelo que se segue.

O pobre que digita 45 e aperta o verde é aquele a quem não se olha na cara quando passa na rua, é aquele a quem não se dá bom dia, é aquele com quem você não teve paciência ou tempo de conversar. O pobre de direita não é só resultado do enorme empenho das direitas através da mídia massiva, é resultado também da falta de maturidade, autocrítica e da incapacidade de diálogo que as esquerdas têm quando buscam fazer o tal do trabalho de base. Sabe aquele coletivo que nunca saiu dos portões da faculdade, a não ser pra empunhar bandeira na Paulista? Sabe a galera que tem aquela intimidade com o megafone e com o microfone, mas nunca teve o dom de conversar com a própria mãe sobre o que faz? E o pessoal que faz anos de cursinho pra passar numa universidade pública e depois de dois anos de curso levanta a pauta “como dialogar com a periferia?” nas reuniões do DCE? Pois bem, essas esquerdas que gastam todo o seu tempo usando ênclises, próclises e mesóclises – sim, existe, eu já vi – nas assembleias e reuniões, panfletando pautas megalomaníacas e pixando escrevendo nos banheiros que as funcionárias da limpeza vão demorar horas pra limpar, são grandes responsáveis por toda a educação e orientação política da população acabar sendo tarefa dos programas de televisão e de ícones como Marcelo Rezende, Datena e até o Huck – porquê não?

Os termos caíram em desuso, mas eu resgato. Educação política e orientação política deveriam estar na ponta da língua de toda cidadã e cidadão, mas aparentemente cidadania também já não é mais um conceito importante ou mesmo usual, exceto nos horários eleitorais, chamados ironicamente de “horário político”. Uso esses termos porque me espelho naquelas e naqueles que sabem na prática que palavra “política” deve estar sempre atrelada a diálogo com os setores da sociedade pela base e com a base. Não me baseio em quem se pretende vanguarda ou que defende uma teoria da vanguarda; acredito que cada um deve ser a vanguarda de si mesmo e todos a vanguarda de cada um. (Vale a nota: não sou a primeira e nem a quinquagésima a dizer isso).

Caríssimas leitoras e caros leitores, segue aqui uma mea culpa também. Quero falar de sentimentos, afinal, se Ernesto tinha alguma razão, somos movidas e movidos a grandes sentimentos de amor. Eu sei que não é fácil. Há uns tempos, meu ânimo com as militâncias não estavam a toda prova, consequentemente, não fui a rainha das conversas com a moça do caixa sobre ~empoderamento~ estético e também não conversei sobre mais-valor com todos os proletários que pude. Cada um sabe o que se passa na própria vida e na própria cabeça, cada um sabe até onde pode se dar. Porque militância, monamú, tem como pilar principal essa coisa de “se dar”. É tudo muito real, é tudo muito na disposição física e mental, no sangue nozóio que se tem por ter sido tão esmagada calada e sem saber por tanto tempo. Ser de esquerda não é moda, é levar a frente séculos e séculos de resistência, de sangue de muitas e muitos que derramaram nas grelhas institucionais em nome de muitas outras e muitos outros mais. Ser de esquerda não é usar broche tal na mochila, nem silenciar, interromper ou até mesmo gritar na cara de alguém. Não quero com esse texto fazer como muitos que carregam a bola de cristal das projeções políticas. Quero mesmo é deixar alguns lembretes daquilo que talvez o murro que tomamos na cara neste domingo nos faça esquecer: àquelas e àqueles que compartilham da atitude de não suportar o insuportável e defender o que é deliberadamente violado e massacrado, não nos esqueçamos que esse episódio não foi um fim e também não será um início. Já estamos nessa merda há muito tempo, estamos realmente mais fodidos agora na tal megalópole paulistana, mas às vezes é necessário que o caldo entorne para que se perceba que não cabe na panela.

Adelante!

 

 

[“As opiniões desse texto não necessariamente refletem o posicionamento do site” ou “Este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue. A persistirem os sintomas, um médico deverá ser consultado.”]

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