Quer ser escritor? Tudo que você precisa saber para publicar seu primeiro livro aqui, com ajuda de Felipe Andarilho

escrivinhar

     A gente sabe que você curtiu a página porque gosta muito dessa coisa maravilhosa que é a Literatura. Mas como a gente faz quando não queremos ser só leitores, e sim participar desse fantástico mundo literário escrevendo nossos próprios livros?

     Eu aposto que muitos de vocês devem ter um arquivo .word nas profundezas do seu PC com uma história incrível esperando para ser publicada. Pode ser que também estejam esperando a inspiração para terminar de digitar uma obra, ou, quem sabe, se você for mais das antigas, não tem um livro manuscrito de sua autoria perdido aí pela sua casa?

     Pois bem, escrever já não é fácil, e ter seu livro publicado às vezes pode parecer um sonho distante impossível de ser realizado. Mas hoje, com esse advento incrível chamado Internet, ficou mais fácil da gente realizar um monte de sonhos, não é mesmo?

     E hoje o Litera preparou um pequeno manual para mostrar possíveis caminhos para publicar seu primeiro livro. Contamos com a ajuda do escritor Felipe Andarilho, dono do blog Músicas de Andarilho, que publicará seu segundo livro em breve. Seu primeiro livro, Herois e Anônimos, foi lançado em maio de 2015 pela editora Multifoco e foi um sucesso.  Então, se você ainda está meio perdido sobre como publicar, a gente te conta aqui:

1 – Tenha uma boa história

     O primeiro passo é ter uma boa história. Definido isso, o lance é escrever – provavelmente essa é a parte mais difícil, mas também a mais prazerosa. Quando, finalmente, depois do caminho tortuoso que é escrever uma história, você acreditar que seu livro está pronto, o ideal é passar a revisão para alguém em quem você confie.

2 – Revise seu livro

     O processo de revisão é muito importante – o revisor não só arrumará os erros gramaticais ou ortográficos, como também poderá dar uma visão ampla da estrutura narrativa. Ele pode indicar quais trechos podem ser mais bem desenvolvidos ou se há alguma parte no desenvolvimento do texto que não está coerente. A grande maioria das editoras pede que seu livro já chegue revisado. As maiores editoras possuem seus próprios revisores, mas é sempre bom enviar sua obra já revisada, até porque pode demorar anos até que uma delas se interesse em publicar sua obra, se você recorrer a enviar manuscritos pelos correios (se você não for famoso ou não tiver contatos no meio, vai demorar para avaliarem sua obra – por isso, é sempre bom ter a obra bem acabada).

3 – Procure meios para publicá-lo

     Depois de escrito e revisado, seu livro está pronto para ser publicado. Você pode enviar manuscritos para várias editoras e esperar bastante para que alguma delas tenha a chance de te responder, ou pode procurar meios alternativos.

     Quando eu tinha 12 anos, escrevi um livro que nunca terminei sobre uma banda de adolescentes liderada por uma menina incrível. Eu era uma criança estranha e liguei pra algumas editoras. A que me atendeu foi a Editora Rocco, com sede no Rio de Janeiro. Eu nem sei como eu fiz pra ligar pro Rio de Janeiro sendo que eu era de São Paulo com 12 anos, mas o que importa é que recebi uma explicação da própria editora sobre como funciona para publicar: A moça do outro lado da linha disse que eu podia mandar meu livro para o endereço deles. Podia demorar até um ano para que alguém pegasse o livro nas mãos e lesse, sem garantia de que gostassem da história. Se gostassem, poderia levar mais um ou dois anos para que o processo de publicação fosse completado, que envolve revisar, diagramar, cortar ou modificar trechos, ilustrar a capa, preparar a tiragem… Ou seja, levaria uns três anos para que minha história, se boa, fosse pras prateleiras.

     O Andarilho conta pra gente um pouco de como foi o processo dele, que é uma maneira alternativa muito efetiva pra quem está começando. Ele diz: “Assim que terminei o livro, comecei a procurar editoras que eu admirava e que tratassem do assunto que Heróis e Anônimos aborda. Percebi que as editoras que eu via nos livros que eu comprava eram, em sua maioria, grandes grupos editoriais e descobri que esses grupos já tinham definido o calendário de publicações dos próximos anos. Elas costumam trazer obras de outros países e publicar livros de autores já consagrados. As poucas que recebem originais dão prazos longos, de seis meses a um ano para avaliar a obra, o que me fez buscar alternativas.”

Mas calma, não se desespere:

“Descobri então que existem muitas editoras menores, as editoras independentes, que são especialistas em publicar livros de novos autores. O formato é diferente do que o de uma grande editora, pois o autor acaba cuidando de quase tudo: da organização do lançamento, negociação do preço de capa e, principalmente, da venda dos exemplares. Em alguns casos, o autor é responsável até pela revisão e por fazer a capa da obra. Isso torna o desafio maior. Além de escritor, tive que ser um cara de negócios. Aprendi a vender meu livro e a calcular os preços e condições em cada situação. Por outro lado, isso tudo tornou o processo de publicação muito mais viável. Antes, eu sabia que teria que enviar meus originais e ficar aguardando. Com o formato independente, pude ver o horizonte. Se eu trabalhasse duro e planejasse bem, o livro seria publicado. Ajudou bastante eu ser profissional de Marketing, na questão de lançamento e na criação de peças promocionais para ajudar nas vendas.”, conta Felipe.

4 – Acredite na sua história

     Para ser escritor, em primeiro lugar deve saber usar as palavras a favor das suas ideias e dos seus sonhos. Em segundo, tem que acreditar que você tem algo importante a dizer e querer compartilhar com o mundo.

     Perguntamos ao Andarilho o que ele recomenda para quem está começando ou quer começar a carreira de escritor. Ele responde: “É importante ter em mente que o autor não é mais apenas um autor. Ele precisa saber produzir, promover e vender. Precisa fazer acontecer. Se você quer começar, tem que ter em mente que isso também é um negócio e que irá depender do seu esforço como um todo. Mesmo que não seja seu objetivo viver da renda de autor e queira escrever apenas para os amigos, ainda assim, vai precisar de um planejamento para financiar o livro, pagar pelos serviços necessários e cuidar das vendas.”

5 – Saiba sobre o que você está escrevendo

     Provavelmente, você irá escrever sobre algo que conhece, algo que já tenha vivido ou que pensa em viver. Nem sempre os livros são baseados em fatos reais, mas muitas vezes a influência de algo que aconteceu na realidade é grande. O que importa é o seguinte: para conquistar o leitor, você deve ser verossimilhante. Você pode escrever sobre o que quiser: pode ser um suspense psicológico envolvendo esquimós, uma história de conquista da Idade Média ou uma distopia futurista no Japão. Não importa qual é a história: saiba escrevê-la. Se for falar sobre um universo muito diferente do seu, faça sua lição de casa, pesquise tudo o que puder sobre, trace bem as personagens para que seja condizente, misture fatos da realidade, saiba se colocar no seu lugar de narrador.

     O Herois e Anônimos, por exemplo, conta a história de Fernando, um cara comum, que narra os acontecimentos banais da sua vida de maneira divertida e emocionante, o que faz com que não seja necessário que grandes coisas absurdas aconteçam para que ele cumpra sua saga de herói homérico. Andarilho disse que bem mais da metade do livro é real, aconteceu mesmo, mas que ao transpor para ficção muito fica na improvisação da história e na própria transformação ao personagem. Muito do que fez sucesso é também tratar de coisas que Andarilho conhece muito bem: rock’n’roll e nerdices. O livro é cheio de referências à bandas, músicas e livros que tanto o autor quanto o protagonista remetem à momentos importantes da vida – e eu mesma me identifiquei com muita coisa, apesar de nunca ter vivido nenhuma daquelas histórias, já que também compartilho da mania de inserir trilha sonora na minha própria vida (quem nunca, não é mesmo?). Também é recorrente a referência à Tolkien e ao universo do Senhor dos Aneis, autor preferido de Andarilho. Ou seja, cria-se um vínculo muito forte com a realidade compartilhada do autor com tantas pessoas que vivem nessa cultura.

“Tudo é uma influência contínua. As pessoas se influenciam todos os  momentos. Seja com um comentário, uma sugestão de música. Um artigo publicado no jornal. Isso tudo faz parte da minha narrativa. Como fica claro no livro, meu personagem é uma mistura de vários outros. Alguns conheci durante vida, outros não existiram de verdade. Foram personagens de filmes, HQs e livros. É isso que me fascina na vida e é sobre isso que Heróis e Anônimos fala.”

     Um problema recorrente ao escrever um livro é, também, a qual gênero pertencer. É importante estabelecer antes uma ideia de como você quer ambientar seu enredo, o clima, a atmosfera. Não é necessariamente preciso definir exatamente o gênero do seu livro antes de começá-lo – tem quem prefira assim, mas a voz da narrativa você só desenvolve escrevendo e conhecendo tanto quem você é e o que quer falar quanto seu objeto de escrita. Existem maneiras diferentes de se desenvolver cada gênero narrativo – procure saber mais sobre. Há linhas diferenças a se seguir, mas não é necessário, também, se prender a fórmulas. Andarilho diz que seus textos se tratam de Crônicas Etílicas. Também vê que sua maneira de escrever se encaixa no estilo Beatnik. “De qualquer forma, eu acredito que seja uma obra underground. Essa foi, pelo menos, minha intenção ao escrever.”

     Qualquer que seja sua intenção ou qual história você tem pra contar – conte! Enquanto existirem pessoas, vai existir literatura – e assim, vão existir histórias pra contar. E, com certeza, estaremos aqui para ouvi-las (ou melhor, lê-las!).

     Você pode mandar sua contribuição literária pro endereço correiolitera@gmail.com, que logo estaremos publicando contos, crônicas e poemas dos leitores aqui no blog.

14797264_1329763543735314_1801196908_n

Felipe é autor de Herois e Anônimos e agradecemos sua participação nessa matéria.

SOBRE O AUTOR

Estudante de Letras, Francês na Universidade Federal de São Paulo por curiosidade, artista por paixão. 20 anos de desilusões e cultura pop. De B52's a Judas Priest.