Quando preferimos não saber das coisas

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Não sabemos de todas as coisas que nos dizem respeito (ou que achamos que deveriam nos dizer). Há segredos que nos envolvem sem que saibamos, há burburinhos sobre nós, há fofocas, há menções que são feitas sobre nós que assim o são sem que saibamos. Falam de nós pelas costas: coisas boas e ruins. Conhecem coisas que deveríamos saber: algumas vezes nos contam, outras vezes não.

A pergunta é: o quanto queremos saber dessas coisas que não sabemos?

Em “O Casamento”, de Nelson Rodrigues, o pai da noiva descobre na véspera do casamento que seu genro foi flagrado beijando outro homem. É tal ocorrido que dá o mote para a história que consta no romance (e que conta com muitos meandros): uma informação relevante para alguém, sobre alguém, nas mãos de um terceiro indiretamente envolvido na situação. O que fazer? Sabino, pai da noiva, descobre sobre a traição (e uma orientação sexual diversa da imaginada) um dia antes do casamento. Deve contar à sua filha e correr o risco de arruinar o casamento antes mesmo do início ou deve correr o risco de guardar o segredo e colocar o futuro do casal em jogo? A própria confiança da relação pai e filha acaba entrando no campo da reflexão, afinal, seria mais ato de amor Sabino não revelar a informação sobre o ocorrido, zelando assim pela manutenção do relacionamento, ou contar tudo de uma vez, já que a informação diz respeito à fidelidade – que deve ser base do casamento?

O que seria o melhor para Glorinha, a noiva? Saber ou não saber? Seria preferível descobrir por um terceiro sobre a infidelidade do companheiro com que jurará “viver feliz para sempre”? Seria melhor manter a ignorância sob o mote de que “o que os olhos não veem, o coração não sente”? Eis a grande questão.

Daí que, com base neste pequeno (e ao mesmo tempo grande) exemplo literário, trago a reflexão sobre quando preferimos não saber das coisas. Algumas vezes não seria melhor manter uma ignorância sadia? O saber tudo sobre o que nos envolve é condição necessária para um viver mais pleno, em que pese mais duro? É vantajoso tomar conhecimento de todas as referências a nós que são feitas por outros, sejam as boas, as ruins ou até mesmo as jocosas? O que os olhos não veem (e os ouvidos não ouvem), o coração não sente? Quando a fofoca deixa de ser fofoca e passa a ser uma informação relevante e necessária para que seja passada adiante?

Encerro com a seguinte pergunta aos leitores: quando preferimos não saber das coisas?

 

   Revisado por Victor M. P. de Queiroz

 

SOBRE O AUTOR

"Paulo Silas Filho é advogado paranaense. Possui especialização em Ciência Penais, em Direito Processual Penal e em Filosofia. Ama a leitura. A busca constante pelo saber gera em si o conhecido paradoxo de que "quanto mais se estuda, mais se percebe que muito pouco se sabe", o que apenas o motiva a ir além, e o caminho trilhado para tanto é o da apaixonante literatura!"