“Porque” sim a Dylan; “Por que” não ao Nobel

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Estava no veterinário com a Pandora, minha cachorra, quando recebi a mensagem de um amigo também escritor. Perguntou-me o que eu achava de Dylan como vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Pensei: “Dylan? Mas quem é esse cara? Estou tão desatento aos escritores contemporâneos assim?”. Até que o Google resolveu a minha indagação.

Minha reação, ante os noticiários, aconteceu em três fases, como se fosse do sólido para o líquido e enfim para o gasoso, bem lentamente, tipo gelo em banho-maria. Iniciada por um palavrão, minha primeira frase continha o termo “fantástico” acompanhado por alguns pontos de exclamação.

Enquanto estudiosos da arte, falamos, não é de hoje, do reconhecimento artístico em moldes mais amplos, de quebrar justamente um pouco o “gelo” que separa os vários âmbitos do processo criativo. Falo da literatura, da música, das artes plásticas, de tudo. Uma interdisciplinaridade, como está na moda dizer. Então, internamente, senti a informação do prêmio como se a Academia Sueca tivesse entrado em um daqueles programas que repaginam as pessoas: mudou o figurino, repicou o cabelo; inovou para ser contemporânea, para ser de hoje. Está agora na boca do povo.

Comecei a derreter, a tornar-me líquido, ao me questionar: “Mas o prêmio foi para o músico ou para o escritor?”, e, então, virei água choca ao elaborar a seguinte indagação: “Quer dizer que todos os compositores, a partir de hoje, entrarão no páreo também?”.

As reflexões acerca desse tema vinham como vendavais à minha mente, ao mesmo tempo em que entrávamos no consultório para que nossa cachorra fizesse o “ultrassom”. Ela sempre chora quando sai de casa, mas, ali, eu sentia que ali estava muito pior; prefere com certeza lugares que, mesmo hostis, já fazem parte do seu cotidiano. Aqueles exames esporádicos representam uma situação bem mais incômoda. Eu a compreendia. Eu mesmo estava em uma situação tranquila por pensar que apenas escritores – escritores que se apresentam como escritores e são conhecidos como escritores – concorressem ao Nobel. Todo escritor, no fundo, pensa nele, mesmo que seja numa espécie de Deus (Não sei se existe, mas não custa rezar). Até que, de repente, a concorrência aumenta. Meu Deus! E olha o ultrassom que entrou na briga!

Não se assustem, amigos leitores, com a frase logo acima. A ambição é dada ao homem – de graça, mesmo – restando a ele a tarefa de saber domá-la. Aos artistas, bem como aos acadêmicos, tudo isso acontece de forma bem peculiar.

Falar sobre o Nobel, e ainda mais dos seus vencedores, é delicado para qualquer escritor. Corremos o risco de ouvir que “Quem desdenha quer comprar”. Pois, a ambição, bem como esse pensamento mesquinho e conservador, esse espírito “litera-reaça”, trabalhei imediatamente e tão logo chutei para lá. Recobrei a consciência. Afinal, Dylan é fantástico! É mesmo de se admirar. Mas, ao mesmo tempo, refleti sobre quantos músicos verdadeiramente fantásticos, além dele, temos por aí. Como poderia, agora, Chico Buarque não vencer também? Só pelo álbum “Geraes” Milton Nascimento mereceria nem que fosse uma menção honrosa! E olhe lá! Mas, longe de qualquer sentimento orgulhoso, próprio aos artistas, cogitei a possibilidade de a Academia ter se complicado. Critério, mais do que o julgamento em si, é complicado. Como será daqui para frente?

Como está estampado na maioria dos sites que divulgaram a notícia da premiação, Dylan também venceu o Oscar, o Grammy e o Globo de Ouro. É sem dúvidas um currículo “nobelático” e merecido. Todavia sinto-me órfão. Se a literatura escancara as portas para a música, não vejo o contrário acontecer.

Costumo dizer que a literatura é uma arte ingrata, pois exige demais de todos os envolvidos. Literatura, ou o hábito de ler, não é como uma canção, que se pode ouvir no celular enquanto caminha; ou como uma pintura, ou uma fotografia, que nos basta, talvez, um olhar e mais alguns segundos ou minutos de contemplação. A literatura pede tempo, renúncia, conhecimento, lugar propício e concentração do leitor. É preciso parar o seu mundo para se dedicar a uma obra, a um romance, possuir o arcabouço vocabular e de conteúdo que possibilite a sua compreensão; mais o foco e o tempo de sobra, que estão a cada dia mais escassos nesse século de tantos afazeres, trabalhos, abstrações e textos rápidos. Mas o que todas essas vertentes da arte têm a ver com as lamentações da prima literatura?

Pensei: “Para além do mérito de Dylan, para além dos detalhes da escolha, o que isso significa? Quais as consequências para o que a Academia realmente fez?”. Se a justificativa do prêmio é de o cantor ser também um grande poeta e capaz de se reinventar, fica a dúvida se tal decisão é um marco simbólico para a própria Academia – uma mudança interna –, ou para a literatura enquanto “universo literário”. Seja lá qual a sua intenção, espero realmente que venha para enriquecer e não para nos desvalorizar ainda mais. Vendo por outro ângulo, não é que a música está furtando os seus poemas; é que ambas comem no mesmo prato! Isto pode gerar confusões.

Caso me perguntem se o que Dylan faz também é literatura, afirmarei indubitavelmente que sim. Uma verdadeira obra dylaniana. Contudo, a respeito do prêmio, confesso que ainda não sei…

Não é que sou purista ou defensor de classes (estou mais para um contraventor), mas talvez estejamos a falar de um ornitorrinco que venceu o prêmio maior da lagoa dos patinhos feios. Um ornitorrinco brilhante que canta, que atua, que até sabe escrever. Sabe? Na lagoa dos patinhos feios existe apenas o prêmio exclusivamente para os patinhos feios, e agora há o risco de que nem isso seja deles mais. Porque é o que a literatura, hoje, é. O patinho feio, com quem ninguém tem mais tempo de prosear ou de admirar. De todo modo, sendo belo ou sendo feio, quero dizer que se for pela arte já estou dentro. Inclusive, posso aprender a voar.

A consulta no veterinário acabou e voltamos para casa; minha esposa com a cachorra no banco de trás; eu, escrevendo aos trancos da estrada, enquanto curtíamos a música que tocava no rádio do táxi, misturada com os mi-mi-mis que saíam da caixa da Pandorinha.

Em que momento fui do líquido para o gasoso? Não sei ao certo. Mas é um momento de se libertar.

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.