Por que Temer se preocupa tanto em responder ao Faustão?

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Para falar um pouco do problema da educação no país irei recorrer a três estados: São Paulo, Paraná e Goiás. A escolha destes locais para falar sobre ensino não é aleatória. São Paulo foi vítima de um projeto maquiavélico de Alckmin de fechamento de escolas e contou com uma enorme resistência dos secundaristas. Eles lutaram contra uma PM que já foi denunciada na ONU por agir de forma repressiva contra civis, neste caso, alunos que pediam o fim do fechamento das escolas. Sobre o Paraná, uma rápida ida no youtube vai nos proporcionar incríveis cenas dignas de um épico de guerra hollywoodiano. Helicópteros jogando bombas, policiais armados até os dentes marchando e disparando contra todos… todos os professores! E aí fica a pergunta que me motivou a escrever este texto: Por que Temer se preocupa tanto em responder o Faustão? Qual é a explicação para o eterno presidente em exercício abrir diálogo com o apresentador de TV da Globo e não falar com os professores que fizeram uma paralização nacional no dia 22 e os alunos secundaristas que ocuparam ou que ocupam escolas por todo o país?

            A reforma do ensino médio é um projeto do ilustríssimo Sr. Mendonça Filho. Sim, aquele herdeiro político da ditadura, filiado ao DEM, educado sempre em escolas particulares e com uma passagem pelas escolas americanas. Foi ele o responsável pela PEC da reeleição, em 1996, sobre o qual até hoje são levantadas suspeitas de compra de votos para a aprovação do projeto. Sim, esse é o Sr. que propõe a reforma do ensino médio e que, juntamente do presidente em exercício, dá voz a pessoas como Alexandre Frota e Faustão.

            Sobre este último, ele inicialmente não perecia ter gostado nem um pouco da reforma. Formado em Educação Física e já tendo atuado no meio esportivo, o apresentador disse que “Essa p*rra desse governo nem começou, não sabe se comunicar. E já faz a reforma sem consultar ninguém”. Uma semana depois, Faustão recebeu uma ligação do Sr. Temer e no domingo, dia 2 de outubro, recua dizendo que ““Eles explicam que há sete anos vários grupos fazem estudos para um projeto de reforma do ensino no Brasil, e isso está parado no Congresso. (…) Com a própria qualidade no ensino no Brasil, eles reconhecem que é fundamental agilizar esse processo. De maneira alguma eles dizem que a coisa vai ser feita às pressas. Tudo vai ser muito bem discutido”.

            Onde quero chegar com isso tudo? Me parece que a preocupação do governo foi em desagradar o Sr. Fausto Silva e trataram de ligar e explicar que tudo será discutido, nada de decisões precipitadas. Mas você deve dizer “ah, mas ele recuou em suas propostas, ele ouviu a reclamação das pessoas e o Ensino Médio vai continuar tendo filosofia, sociologia, artes e Ed. Física como obrigatórias”. Não, ele não recuou. A MP é muito mais do que manter ou retirar disciplinas. E é aí que eu entro com o terceiro estado citado no começo deste texto: Goiás.

            O estado de Goiás representa o futuro. Não um futuro que todos nós sonhamos de uma educação de qualidade aos moldes de países escandinavos, mas um futuro distópico. Na semana anterior (mesma semana do chilique do Faustão), as Organizações Sociais (OS’s) aprovadas em Goiás foram divulgadas. Dentre as classificadas, todas foram criadas recentemente e não possuem nenhuma experiência curricular em administração da máquina pública. Outro ponto importante: os respectivos representantes das OS’s possuem ligação direta ou indireta com o governador do estado, Marconi Perillo. Uma delas foge a essa regra: ela é administrada por donos de cursinhos preparatórios para o ENEM. O resumo de toda a história: Goiás está criando um modelo de escola voltada para o mercado e, para isso, ela deve ser administrada por quem entende de mercado.

            Por fim, vamos retomar ao assunto inicial. Ao se preocupar com o que diz um apresentador de TV, o presidente em exercício, o Ministro da Educação e todo o governo federal ignoram os secundaristas, professores, pais e todos aqueles que realmente precisam da escola pública. Essa reforma do ensino médio não reconhece os professores que enfrentaram uma guerra no Paraná, nem os alunos paulistas e goianos que lutaram contra a mídia e o desrespeito policial. Fausto Silva facilmente defendeu e facilmente recuou porque ele não é um cidadão que precisa da escola. Nem ele e nem ninguém de sua família. Agora, o atual governo precisa dele, mais do que dos alunos e dos professores. A distopia goiana vai se concretizando por todo o país…

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Rafael C. Oliveira é goiano e já foi astro do rock (no Guitar Hero), líder de uma grande civilização (no Age of Empires) e bem casado (no The Sims). Hoje, além de colaborador do literatortura, faz (pseudo)roteiros para as tiras do site pragmaticos.com.br. Ele diz que está escrevendo um livro de ficção científica, achando que vai conseguir novos amigos assim.