Ocupações: um fiapo de esperança

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Em meio ao turbilhão de acontecimentos nefastos (governo ilegítimo assumindo o poder, chacinas diárias em periferias, propagação de ódio a mulheres, a homossexuais etc) e de um cotidiano violento e preconceituoso, eis que surge a luz no fim do túnel, a ideia salvadora de Odisseu para os gregos, o fiapo de esperança para uma sociedade há muito degradada por hegemonias de poder que perpetuam seus privilégios em prol do desastre das classes sociais, de um capitalismo selvagem e excludente, de uma polícia que mais mata do que protege. Mas de opiniões segregacionistas e injustas já estamos cheios. Alunas e alunos que ocupam, desde o ano passado, suas escolas pelo Brasil afora são a prova cabal de que ainda resta um pensamento, por menor que possa parecer, de humanidade, de coletivismo, de um senso igualitário que emociona ao passo que percebemos que são cidadãs e cidadãos de quinze a dezessete anos (em média) que estão por trás dessa manifestação pra lá de importante para o país.

O sistema educacional, em seu todo, é um caos. Desde falta de professores e não valorização destes, a escolas sem a menor estrutura (quando chove é impossível ter aula por causa de inundações) ou quando estas se localizam em periferias e, por si só, já são alvo de preconceitos e, por conseguinte, dão a seus alunos(as) uma educação pior do que a já ruim que outros colégios pouco mais privilegiados dão. A falácia de que a educação é obrigação do Estado já caiu por água abaixo. Ninguém, com o mínimo de conhecimento, acredita que o gestor do capitalismo se preocupa, de fato, com a educação do povo. Educando que se emancipa, educando que se equipara. Através da educação, gera-se conhecimento, através deste, questionamento do status quo e outras reivindicações (distribuição de renda, igualdade social para todas e todos etc), o que atrapalha o processo de alienação buscado pelos governistas (todos, sem exceção).

É nesse cenário que a esperança pareceu emergir, assim como Don Corleone na vida de Bonasera em O Poderoso Chefão. Começou no estado de São Paulo. Geraldo Alckmin, atual governador de lá, seguiu a cartilha de ideias brilhantes que acometem os governantes do nosso país. Ideias absurdas de usurpação de direitos sociais em prol da coesão da sociedade (à la Durkheim) acontecem desde o séc. XVI aqui em nossa terra. Hoje em dia, leis como a de antiterrorismo apenas perpetuam este pensamento. Esta serve para restringir o livre arbítrio e o exercício da liberdade de expressão enquanto o governo “pretende” fazer um bem à sociedade como um todo. Ideias desta linha só serviram/servem para enganar desavisados e servir de paliativo a um problema muito maior. Sendo assim, o governador decretou que fecharia mais de 80 escolas no estado a fim de (não me pergunte em que lógica) melhorar a distribuição de alunas e alunos nos colégios e, por conseguinte, melhorar a educação como um todo. Naturalmente, as (os) estudantes posicionaram-se contra a ideia e pensaram que só protestando (e estão certíssimos) é que conseguiriam ter voz para que Alckmin os ouvisse.

Começaram a se manifestar nas ruas. Vendo que não obtinham resultado, decidiram ocupar suas escolas. Dentro delas permaneceram por quase um mês, sofrendo ataques do governo e da mídia até que levaram a manifestação à última consequência e realizaram o “trancaço”. Às cinco horas da manhã, saíram de suas escolas e, com algumas cadeiras à mão, sentaram-se em avenidas próximas aos colégios e lá ficaram até o amanhecer quando o tráfego de São Paulo deu seu bom dia e só saíram quando a polícia militar (força de repressão e violência legítima do Estado) os tirou. Realizaram o ato mais algumas vezes e então, Alckmin desistiu temporariamente de sua estúpida ideia. Entretanto, ele não a havia descartado de vez. Isso fez com que, através de assembleias, os secundaristas votassem pela continuação das ocupações. No entanto, sua força diminuiu. O número de pessoas apoiando o protesto caiu e, naturalmente, prejudicou o andamento das reivindicações.

A semente estava plantada, contudo. A ideia (talvez oriunda do Chile) se espalhou pelo país e, alguns meses depois, aqui no Rio Grande do Sul, foi possível testemunhar, com orgulho, mais de 200 escolas ocupadas. Iniciou-se em Porto Alegre, com o colégio Emílio Massot e logo colégios tradicionais como Julinho e Instituto de Educação aderiram à ideia. Os secundaristas são organizados: cobram identificação na entrada da escola para todos que são estranhos a ela; dividem-se em comissões do tipo – segurança, limpeza, alimentação, oficinas- para que o trabalho de ocupar uma escola não pese a uma ou outra pessoa apenas; promovem aulas e debates muito mais importantes que aulas maquinais que recebem diariamente por um sistema falho de educação e por aí segue a aula de cidadania.

O empenho desses jovens motiva toda e qualquer pessoa que queira uma sociedade mais justa e horizontal, na qual não há distinção de classe, sexo, gênero, etnia e qualquer outra forma de diferenciação. Que queira uma educação acessível a toda população e não apenas aos que podem pagar por uma (pois esta é dever do Estado). Pessoas que acreditam na resistência popular frente à truculência de um governo sempre opressor para com os desfavorecidos (estratificados socialmente, em geral negras(os) e pobres). Ocupar e resistir. Só lutando que conseguiremos mudanças. Mais uma vez recorrerei à História para dizer que jamais se mudou a ordem vigente sem luta. Ocupações chegam agora a universidades, tal como a FURG (Universidade Federal do Rio Grande) que havia ocupou a pró-reitoria há algumas semanas. A esperança brota outra vez no chão deste país que já tanto padeceu com ideias retrógradas ao longo de sua conturbada história. Vemos agora a ideia fomentada de mudança e equiparação social que há tempos bate à nossa porta retornar. O que queremos fazer? Simplesmente fechá-la e inibirmos toda e qualquer possibilidade de transformação? Ou iremos não só deixá-la aberta, mas também convidar essas ideias a fazerem parte de nosso cotidiano a fim de, enfim, tornar plano o que há muito está desnivelado?
Esta decisão cabe a mim, a ti, e a todo povo brasileiro. Basta querer e lutar!

Revisado por Evelin e Juliana

(postado originalmente dia 7 de julho de 201611)

SOBRE O AUTOR

Apaixonado pela arte, pela horizontalidade, que tem por ídolos Bergman, Dostoiévski, Tarkovsky, Kafka, Kubrick e Machado.