O pulo do gato

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A ventania rasteira varria o campo e a cidade com as mesmas pinceladas ariscas, formando desenhos a partir da poeira e das folhas secas acumuladas sobre as calçadas. Seu canto reverberava alto pelas casas, alertando os incautos para a convergência que estava prestes a acontecer.

A cada ano, durante aproximadamente vinte e quatro horas, as engrenagens enferrujadas que mantinham o universo em funcionamento paravam, permitindo a realidades paralelas e normalmente excludentes, estranhas como a água e o óleo, tocarem-se.

Era o momento de medos infantis retornarem à superfície.

Em algum lugar, pálidas mãos de inverno tocavam um violino de vento, produzindo uma melodia que deixava o próprio globo mais frio. Na espinha, o calafrio ia brotando.

A consciência de que fenômenos sobrenaturais eram tão reais quanto a chuva de primavera ganhava nuances mais presentes e perturbadoras.

Lá fora, a incerteza do desconhecido, o farfalhar dos galhos batendo nos vidros das janelas. Antigas lendas e cânticos há muito esquecidos se insinuavam em lábios que apenas os reproduziam sem perceber sua origem e significado.

Feitiços tomavam forma, não na escuridão e na umidade, mas a céu aberto, dançando em volta de fogueiras que não cessariam de queimar até a aurora do dia seguinte.

A realidade estava prenhe de sincretismo.

Bruxas voavam em suas vassouras de carvalho selvagem, balindo risadas estrepitosas e acordando bebês em seus berços. Fadas provocavam crianças no jardim sob a forma de enormes borboletas pretas, enquanto lobisomens espreitavam taciturnos das sombras das árvores, aguardando sua hora de brincar.

Vivos e mortos trocavam as carapuças, permitindo-se ares de celebração, de reencontro. Os encarnados vestiam o azul melancólico do céu crepuscular, brindavam o submundo e se entregavam a pensamentos fúnebres, de repente sedutores.

Os finados retornavam impacientes às suas antigas moradas, prontos para reviver momentaneamente as glórias e dores de outrora.

Os espíritos da floresta corriam soltos, sem o véu de invisibilidade que os mantinha no anonimato durante o resto do ano. Faunos podiam ser vistos nos bosques. Sereias cantavam suas mágoas a plenos pulmões, perturbando as marés e atraindo pescadores para as profundezes de seu reino.

Era noite. Nos portões enferrujados de um antigo cemitério, um garoto e um gato preto aguardavam.

Um ruído ia emanando das tumbas, escalando em altura e agudez até lembrar o zumbido insistente de um enxame de abelhas. Era o eco distante de vozes há muito caladas e esquecidas, de rios cujos mananciais estavam secos e dos quais só uma lembrança permanecia.

A procissão, que todo ano seguia até a igrejinha no centro da velha cidade e depois sumia dentro de uma névoa espessa e misteriosa, estava prestes a começar.

Os mortos rezavam ao atravessarem os portões, levando consigo, à frente do peito, velinhas feitas de ossos.

Seus corpos, quase translúcidos, ainda mostravam resquícios de uma materialidade opaca aqui e ali.  Suas esvoaçantes túnicas obedeciam a um fenômeno climático diferente daquele que açoitava os cabelos do garoto.

Era uma cena desconcertante de se acompanhar, mas ele não tinha medo. Eram inofensivos. Alguns sequer faziam ideia de onde estavam.

O fluxo da caminhada evoluía com o descompasso característico de uma arritmia cardíaca; seguia errante, entrecortado.

Na torre da igreja, o sino anunciava meia-noite.

Um, dois.

Ele acompanhou a procissão até observar cada túnica desaparecer na direção do além.

As velas trazidas pelos defuntos haviam sido empilhadas no pé da cruz em frente à entrada principal do templo. Apenas uma continuava acesa.

Três, quatro.

E ela estava na mão direita do garoto. Era a que faltava para completar o monte.

Cinco, seis.

Saltou para cima da cruz e deixou escapar um miado longo. Esperava uma resposta.

O tempo estava se esgotando.

Sete, oito.

Percebeu que o garoto estava confuso, perdido.

Conjurou então a única alma capaz de esclarecê-lo sobre aquele ritual.

Nove, dez.

Ao sentir um familiar toque em seu ombro, o garoto se virou.

A anciã nada disse, mas balançou a cabeça em sinal de reconhecimento e fez alguns gestos com as mãos quase completamente transparentes. Estava aconselhando-o a abandonar sua própria vela.

Onze, doze.

O garoto depositou seu testemunho na pilha de ossos, despediu-se com um aceno e desapareceu na bruma da madrugada.

Havia compreendido.

A confluência de planos chegava ao fim.

Com um pulo, o pequeno guardião voltou ao chão.

Ele sabia que existia mais, muito mais do que todos os seres humanos juntos podiam imaginar, e que mesmo depois de realizarem a travessia sua compreensão permanecia limitada.

De vez em quando, era preciso guiá-los como se faz com um filhote.

A humanidade correspondia, afinal de contas, a um mero grão de areia no deserto da existência.

 

Revisado por Fernanda Miki.

Imagem Renata Cechinel Fotografia

 

 

 

 

SOBRE O AUTOR

A palavra escrita me inspira, me forma, me ensina, carrega minha imaginação para horizontes longínquos e torna minha existência possível. Vivo dela e com ela. Além do Literatortura, mantenho a plataforma anahenrique.com, e contribuo mensalmente com o Portal Raízes.