O Dogma da Razão

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Qual o espaço que deve ser ocupado pela razão? Não pergunto como quem tenta criar embaraços para a razão enquanto modo de libertação do dogmatismo irrefletido. Longe disso. Não se trata de uma crítica à razão. Falo da razão enquanto situada no mesmo campo do dogma: verdades imutáveis e que muitas vezes sequer são submetidas às reflexões necessárias para que se lhes compreenda a razão da razão de se estabelecerem ali.

Quantas vezes questionamos as verdades que são tidas como verdadeiras? Mesmo quando tais verdades recebem o carimbo de “atestadas por um método racional” (e, portanto, também o carimbo de “confiáveis”), possuímos o entendimento necessário do motivo de assim o ser? A nossa razão costuma colocar em dúvida a própria razão?

Marcia Tiburi, em seu livro “Filosofia em Comum: para ler-junto”, diz que “a crença na razão é a nova religião da razão”. É disso que falo, pois “como tal ela implica um desconhecimento do seu objeto”. Percebem? A razão alcançou o lugar do dogma e ali se estabeleceu. Ninguém mais a tira dali. Sim, guiar-se pela razão é a melhor maneira de conduzir o nosso ser. Mas essa condução deve ser empreendida por nós mesmos. No alheio podemos encontrar um amparo, claro, um suporte, um sustentáculo, mas nada que sirva como um guia sem que haja qualquer tipo de questionamento acerca de quem ou o que é esse guia. Ainda com a mencionada filósofa, “não sabendo o que pode ser a razão, mas apenas confiando nela, tanto deixamos de usa seu potencial em nosso benefício (ainda que tenha nos ajudado em muitos aspectos), quanto fomos vitimados pela ignorância acerca do que ela é capaz, de seus obscuros poderes”.

 Todo saber tido como certo é efêmero. Possuímos nossas crenças (e aqui falo das refletidas) com bases sólidas que justificam o nosso pensar pela razão. Mas quem de fato compreende a razão da razão sabe que sempre haverá uma nova forma de consenso racional que se estabeleça rompendo com pensares antigos, superando entendimentos passados, dando nova roupagem a formas anteriores de se ver as coisas. E o que possibilita esse caminhar é a própria razão.

Qual foi a última vez que questionamos as coisas? Costumamos refletir sobre nossas próprias escolhas, sobre nossas crenças, sobre o porquê das coisas, sobre nossos métodos, sobre os métodos alheios pelos quais nos pautamos, sobre a nossa razão?

Derrubemos a razão enquanto dogma com o martelo de Nietzsche. Até mesmo para confirmar que a razão da razão figura como dogma em dado momento, o exercício da razão reflexiva e questionadora se faz necessário. Somente assim poderemos atestar a congruência de nossas ideias e de tudo aquilo em que acreditamos.

Sigamos sempre pelo caminho da razão, mas questionando-o, pois trilhá-lo é algo que se deve dar observando a razão da razão – e para além do dogma irrefletido.

 

   Revisado por Victor M. P. de Queiroz

SOBRE O AUTOR

"Paulo Silas Filho é advogado paranaense. Possui especialização em Ciência Penais, em Direito Processual Penal e em Filosofia. Ama a leitura. A busca constante pelo saber gera em si o conhecido paradoxo de que "quanto mais se estuda, mais se percebe que muito pouco se sabe", o que apenas o motiva a ir além, e o caminho trilhado para tanto é o da apaixonante literatura!"