O crime e castigo de Edgar Allan Poe

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Calma! A escritora não enlouqueceu. É isso mesmo, crime e castigo do Poe. Não no sentido do livro incrível do Dostoiévski, fiquem tranquilos! Hoje quero comentar com vocês algumas histórias do pai do conto policial os quais retomam o grande mote de Crime e castigo: cometer um crime e (não) conviver com a culpa, pegando carona no clima de Halloween.

Comecemos nossa incursão ao país da culpa pelo conto “O demônio da perversidade”. O personagem e narrador faz uma introdução filosófica sobre frenologia, metafísica e Deus. Para ele, a perversidade (não revelada em um primeiro momento) não está ligada a uma questão religiosa, mas sim a uma necessidade do homem. Inclusive, há uma passagem interessante sobre os homens terem criado deus: “Foram os homens, intelectuais ou lógicos e não os homens observadores e capazes de uma verdadeira compreensão que ordenaram a Deus que tivesse propósitos” (POE, Edgar Allan. O demônio da perversidade. In: ____. Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias, tradução de William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2011., grifo meu).

Após essa longa introdução sobre a frenologia, as motivações humanas, religiosidade e moral, o personagem relata o assunto que realmente nos interessa: como cometeu um crime e passou muitos anos impune; essa história é contada quando este já está preso, para ser executado no dia seguinte.

O criminoso considera-se uma vítima do “demônio da perversidade” e relata como planejou o assassinato durante muitos meses. Não fica muito claro por que ele mata aquela pessoa, mas como ele herda uma boa soma em dinheiro e propriedades, pode-se supor que a motivação seja por dinheiro.

Passa-se um bom tempo até que a culpa comece a devorar nosso narrador-personagem por dentro. Certo dia, caminhando na rua, os pensamentos o atormentam ao ponto de ele proferir a história do crime cometido, levando-o à prisão e condenação à morte. Faltando-lhe a crença em deus, para onde irá?

“Mas por que deverei dizer ainda alguma coisa? Hoje estou usando estas correntes e estou aqui! Amanhã não terei mais grilhões – mas onde estarei?” (POE, Edgar Allan. O demônio da perversidade. In: ____. Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias, tradução de William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2011.).

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Imagem: creative commons

Em contos como “O gato preto” e “O coração revelador” o crime é revelado pela própria falta de cuidado do criminoso, embora possamos pensar nessa falha como uma vontade da consciência de ser descoberto. Quando o personagem-narrador-criminoso de “O gato preto” mata a mulher num acesso de cólera e a esconde na parede, é o gato o delator do crime, o motivo de seu ódio e de sua prisão.

Já em “O coração revelador”, o personagem-narrador-assassino conta sobre suas motivações a respeito do crime. O olho de abutre de seu senhorio causava-lhe repulsa, portanto era necessário matá-lo. Igualmente o crime parece perfeito, mas as batidas do coração do morto (ou do próprio assassino?) fazem com que os policiais descubram seu delito.

Colocar a narração desses contos em primeira pessoa é um aspecto bastante interessante, pois gera a ambiguidade se realmente o criminoso conviveu “de boas” com a culpa, ou tentou convencer-se disso. Há também o aspecto de toda uma erudição para a narrativa, com a finalidade de serem tomados como cidadãos de alto grau e não como loucos.

Esse é um tema que sempre me interessou em Poe cujos tentáculos literários abarcaram não apenas o sobrenatural, o funesto, a vingança, mas também o ponto de vista de um criminoso.

Desde a leitura de “O demônio da perversidade” senti esse diálogo com a personagem Raskólnikov de Dostoiévski.  Na verdade, o conto de Poe foi publicado em 1850, 16 anos antes do célebre Crime e castigo do Dosto. Fica aí a interrogação se ele inspirou-se em Poe, ou se simplesmente esse era um tema caro ao século XIX.

SOBRE O AUTOR

I wandered lonely as a cloud