Nelson Rodrigues

nelson

Nelson, Anjo Negro, Rodrigues

SENHORA – Ó branca Virgínia!

SENHORA – Mãe de pouco amor!

SENHORA – Vossos quadris já descansam!

SENHORA – Em vosso ventre existe um novo filho!

SENHORA – Ainda não é carne, ainda não tem cor!

SENHORA – Futuro anjo negro que morrerá como os outros!

SENHORA – Que matareis com vossas mãos!

SENHORA – Ó Virgínia, Ismael!

SENHORA (com voz de contralto) – Vosso amor, vos­so ódio não têm fim neste mundo!

TODAS (grave e lento) – Branca Virgínia…

TODAS (grave e lento) – Negro Ismael.

                                                                                               Nelson Rodrigues Anjo Negro, (1946)

O Divisor de águas da dramaturgia brasileira foi também um quebrador assíduo de tabus. O estupro, o racismo, o incesto, a mãe que não ama, o amor com ódio, a perversão, a traição, a mãe que amaldiçoa e o infanticídio foram temas tratados por ele.

            Em Anjo Negro, encontramos uma história rica, com cenário expressionista e personagens que nos alimentam de contradição durante toda a obra. Um Ismael negro que se fez médico para fugir do determinismo da cor; uma Virgínia branca estuprada por Ismael como punição ao beijar o noivo da prima; uma tia com várias filhas que prefere que elas sejam estupradas do que morram virgens. Uma relação abusiva de Ismael e Virgínia em que nascem filhos negros (3), posteriormente mortos por Virgínia. Um Elias branco, irmão de criação literalmente cegado por Ismael, que chega na casa onde os muros nunca param de crescer, com uma maldição, esbravejada pela mãe deles, para o médico. Uma Virgínia branca, violentada, amaldiçoada também, que na noite do velório de seu terceiro filho assassinado dorme com Elias a fim de gerar um filho homem e branco para viver nele o espírito e a carne do amor. Um tiro de Ismael que destrói a branca e angelical face do cego Elias. O nascimento de uma menina, branca, cegada por Ismael, que faz dela a carne branca que tanto precisa consumir e “amar”.

Uma manipulação, muito abuso, morte.

Mas imagina essa história contada na década de 40? Depois de ser censurada e liberada… um escândalo, não? Para além te tirar o padrão “europeu” do teatro da época, Nelson Rodrigues coloca no teatro um novo gênero, um cenário impossível, uma história inconcebível e toca em feridas que até hoje as pessoas preferem não falar. Até porque vivemos num lugar em que reinou por muito tempo o mito da democracia racial, social, onde a meritocracia é a única forma de vencer e, pasmem, onde 1 a cada 3 brasileiros acredita que a mulher estuprada tem algum item de culpa nisso.

Dono da melhor colocação da expressão “Síndrome de Vira-Latas”, Nelson foi um dos tapas na cara que a literatura brasileira costuma dar tão fortemente em nós. Essa ideia de mães perfeitas, que apenas amam seus filhos, é muito romântica. A maternidade não vive só de amores e glórias, há milhares de intensidades de Virgínias, dores e psicopatologias que rodeiam o ato e o fato de ser mãe.

Os negros não viveram nesse mundo Disney de democracia racial. Quando Ismael, o Anjo Negro, se faz médico porque tal profissão se coloca “na época” (mais aspas) esmagadoramente branca é algo de total postura ficcional?

            Quando a cama, onde Virgínia foi estuprada por Ismael, fica intocada desde aquela noite por 30 anos, pode ser um enorme sinal de silêncio de tantas mulheres colocadas numa relação abusiva, não pode?

            Pode,Nelson, você gritar tantas coisas silenciadas que, na verdade, ainda apanhamos para fazer ter voz?

Revisado por Gabriel Alves Ornelas

SOBRE O AUTOR

Da antiga recém criada velha guarda.Amante da atemporal literatura, da boa cerveja, do niilismo...(não! pera...) Saudosista do eterno amor eterno!