Manoel de Barros e a obra do Nada em Heidegger

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Pintura de Martha Barros

 

As palavras tendem a evocar ou convidar algo para se tornar presença (Anwesenheit) no mundo. Mesmo as palavras mais gastas, ainda podem ser reabilitadas para essa sua função primeira. No entanto, o que a palavra “nada” faz surgir? O que o nada pode evocar para o mundo? Digo que o nada evoca o próprio nada, e que tal sentença não é apenas uma tautologia vazia.

Seja na metafísica, ou na questão fundamental (Grundfrage) da ontologia, o nada aparece, ao longo da história da filosofia, como base para o surgimento das coisas. A coisa, como criação, sob o olhar metafísico, exige sempre um nada que se desfez com sua origem. Sendo em Leibniz a pergunta de “porque há algo no lugar do nada” a própria questão fundamental, a investigação sobre o nada é abandonada para a busca do “porquê de algo” e convertida no estabelecer de um Deus em sua essência, como base e motivo das coisas. O nada vira o próprio criador. Entretanto, a investigação para entender o que possa “ser” o nada é mais complicada do que parece. Em Bergson, o nada é situado no pensamento como um “falso problema”, pois, sendo o criador – o todo do ser – e a supressão do ser ao mesmo tempo, ele se torna o começo e o fim e, portanto, nega a si mesmo. O nada é, também, para a ciência um de seus grandes fantasmas: se o submetemos a uma definição lógica, ferimos um dos princípios mais básicos em sua formulação, que é o princípio da não-contradição. Pois, como nas palavras de Heidegger, “o pensamento, que essencialmente sempre é pensado de alguma coisa, deveria, enquanto pensamento do nada, agir contra sua própria essência” (Que é a Metafísica, p.54). Vemo-nos então perdidos na ideia contraditória de um nada metafísico.

Porém, como solução do problema, faz-se necessário um novo pensamento sobre o nada, que situe sua essência – aqui como verbo, wesen – no entendimento, e que coloque, de fato, o nada antes da coisa. Com isso, antes do nada “ser algo”, ele se torna a possibilidade de algo ser, torna-se a própria abertura para o surgimento das coisas, ou dos entes, como vemos em Heidegger: “o nada é a possibilidade da revelação do ente enquanto tal” (Ibdem, p. 59). O nada é a abertura para o surgimento da mera coisa, não a coisa-em-si inacessível kantiana, mas a coisa desprezível, abandonada, inútil, no vigorar do fenômeno. O nada está na origem e é a origem. A palavra “nada”, enquanto coisa, só pode evocar o surgimento das coisas, a possibilidade de seu devir, que é o próprio nada. O nada que Manoel de Barros suscita em seus escritos para dar desutilidade às coisas, para fazer surgir as coisas enquanto tais, enquanto desutensílios.

O que não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada.)

Perder o nada é empobrecimento.

(Livro Sobre Nada, p. 63)

O nada, enquanto fator primeiro, faz surgir as coisas em seu acontecimento de coisa, o nada desvela o originário. Tais coisas são encontradas no abandono ou no desprezo, como o abandono de uma máquina quebrada que quando cheia de formigas e musgo pode um dia milagrar de flores (Ibdem, p.57); ou o pente sem costela que devido ao tempo já é incorporado à natureza, tornando-se o próprio desobjeto (Memórias inventadas, p.27).

Seja em Manoel de Barros ou em Heidegger, o caráter coisa da obra de arte remonta o próprio nada, como vemos na passagem do filósofo: “a palavra coisa nomeia aqui o que simplesmente não é nada […] a obra de arte é também uma coisa, na medida em que ela é um sendo.” (A Origem da Obra de Arte, p.47) Vemos, então, o caráter coisa da obra, desvelado pelo nada e que se dá no seu acontecimento em si, no sendo da obra. A obra de Manoel de Barros não nos traz a coisa como redução do utensílio, mas em seu caráter indissociável da obra; assim como vemos em Heidegger: “a obra não é nenhum utensílio que, além disso, ainda é dotado de um valor estético, nele preso […] como também a mera coisa não é um utensílio, à qual falta apenas o caráter próprio de utensílio” (Ibdem, p.95). Barros nos convoca para ver a mera coisa “palavra” no seu contato de coisa com o mundo, este mundo onde a existência é também ser coisa e onde as coisas não se separam nem com vírgulas.

Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sabo.

(Memórias Inventadas, p.45)

As coisas ampliaram o poeta pra menos, ou pra nada, pois como diz o mesmo: “as antíteses congraçam” (Livro Sobre Nada, p.49). O nada é a própria ampliação do mundo, de seu poder-ser. Nada e coisa acontecem como apreensão da existência, e o “melhor para chegar a nada é descobrir a verdade” (Livro Sobre Nada, p.70). A palavra evoca as coisas para se tornarem presença no mundo e, se evocar o nada, teremos o mundo no próprio sendo da verdade; e aqui, filósofo e poeta dizem o mesmo em palavras diferentes:

“A arte, enquanto o pôr-em-obra da verdade, é Poesia.”
(A Origem da Obra de Arte, p.60)

“Há muitos maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.”
(Livro Sobre Nada, p.67)

 

Rafael Solera
Revisado por Isabella Kupper

SOBRE O AUTOR

Nascido em novembro de 94. Natural da cidade de São Paulo/SP. Poeta. Autor da antologia poética "Versos de Flores". Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, escritor e percursor da filosofia pela [e na] Linguagem. Amante do inútil e do em si mesmo. Louco pela liberdade e eterno viajante da Verdade. Mas, antes de qualquer coisa, poeta.