Continuo viciado. Não sei em quê.

i-took-the-internet-addiction-quiz-and-i-won-371-body-image-1421884358

Faz uma semana que parei. Pensei nisto ainda hoje. Eram 08:52, e, no caminho para mais uma sessão de conciliação, tomei um café na lanchonete da praça. Em cima da mesa, ao lado de um pão de queijo, repousava um jornal aberto e alguns restos do salgado de um cliente que me antecedeu. Suas palavras cruzadas, inacabadas. Algumas assertivas erradas. A resposta era “Nômades” e não “Sem-Teto”, mas, paciência… deu para consertar.

Enquanto amornava o copo aos assopros quase que vãos, lembrava-me de uma pergunta feita a mim no dia anterior. Perguntaram-me como se eu fosse um livro de auto-ajuda: “Qual é o seu objetivo de vida, agora?”. Pensei que seria uma boa reflexão para publicar nas redes sociais. Já preparava o comentário, visualizava a imagem de fundo e qual palavra-chave utilizaria para procurá-la na internet. Nunca fui adepto do Twitter, então que me perdoem as hashtags que continuarei a não utilizar. Como lhes disse, parei.

Abdiquei de um mundo. Essa é a impressão. E a indagação que me fiz por alguns dias foi “E agora, onde vou publicar? Se vencer um concurso literário, se me reunir com os amigos, se tiver um insight genial… Onde publicarei agora?”. Mas não foi sempre assim. Por exemplo, no princípio resisti bastante a me tornar um usuário do Facebook. Por razões que já não me lembro, cedi. Namoro, possivelmente. Essa rede social às vezes nos serve como atestado de compromisso: se não mudou o status de solteiro para relacionamento sério, algo ainda está muito errado. Um pé preso no passado? Vergonha? Incerteza? Dizem que alguma coisa ainda tem para ser escondida. Também pudera… Álbuns de fotos não apenas andam comprovando união estável como também demissão por justa causa e separação matrimonial.

Agora até sinto saudade. Algo do tipo “Tenho perfil, logo existo”. Sem rodeios posso dizer que mais por orgulho da decisão tomada é que mantenho a posição. Parece bobagem. Pode ser, quando não comparada a outras formas de abstinência. É mais sutil. Não é como dizer “Para quê parar de beber?”, já que o fígado é uma excelente justificativa. Mas, quando se indaga “Para que parar com as redes sociais?”, assemelha-se a questionar se largaremos nossa vida social como um todo. Não é curioso? Ouvirei piadas e não compreenderei; significará não saber qual é o meme da última hora ou que bombou ao longo da semana. Estarei desatualizado. Em um mês, atrasado como se fosse de outra geração.

Parece forte, parece exagero, mas é como estar um tanto ameaçado. Ou escravizado. Por um lado, há a escravidão de si mesmo; por outro, a ameaça velada. “Concorda, usuário, em, abdicando das redes sociais, estar também banido do(a)…”. De quê, mesmo? A frase não se completa. Por algum tempo parei nesta altura do texto, busquei outro café, refleti do que exatamente eu estaria banido, afinal. De quais valores eu estaria abrindo mão?

Foi preciso criar alternativas. No caso do concurso literário, divulgarei em um jornal local. Telefonei para alguns amigos – e é curioso como parecem ter mudado de voz! Não publiquei mais nada na linha do tempo, nem os pensamentos diários, mas em compensação escrevi bem mais. Meu tempo, por incrível que pareça, triplicou. Estão na gaveta, inclusive aqueles que, notei logo, não tinham mais razão de ser no prazo de um dia para outro ou em questão de uma hora. Escrita fast-food? Refleti. Come em pé ou joga fora.

Havia curtido, outro dia, a foto de uma família bem sofrida e de história muito bonita. Sua casa é aconchegante e o digo porque a conheço pessoalmente. Já a adentrei. Tem aroma de hortelã, cheira a bolo de fubá. Aquelas pessoas produzem notas musicais enquanto falam; a matriarca, de voz trêmula, é uma das minhas lembranças afetivas quando ouço o chuvisco que às vezes cai de manhãzinha. São heróis contemporâneos, reais; atravessaram o século; mas, na foto, estavam desfocados e tortos; o ângulo não favoreceu; os usuários da rede social – ou curtidores em potencial – mais repararam na legenda que sofria de um erro gramatical. Cinco curtidas, no máximo, e um julgamento mesquinho. Qual é a significação?

Aprendemos a cultivar várias coisas nessa internet, mas em muito são deuses falsos. E cruéis. O fast-food, lá do outdoor, não vem ao prato conforme a imagem meramente ilustrativa. Tudo isso pode nos diminuir ante a grandeza da vida:

06-1-600x414

Compartilhar nossas histórias não querendo que os outros entrem nelas, de fato. Não querer que julguem, que critiquem, que não gostem. Que medo se o Facebook, qualquer dia desses, criar a reação de “Ridículo”!… Porque muito da essência é deixado de lado em troca de mais alguns “Uau!”. Ainda estamos com medo de nos expor, só que agora aprendemos a escondê-lo um pouco melhor ao mostrar-nos como não somos inteiramente.

Expondo egos e consolos, isolando-nos do mundo ao mesmo tempo em que sentimo-nos mais enturmados do que nunca; sentindo-nos solidários quando ainda mais introspectivos, egoístas e mestres na arte de se mostrar. Mais partidários quando se achando mais politizados. A chance de gritar para o mundo “Cheguem perto, mas não ao ponto de me tocar!”. Ou apenas eu tenho a impressão que trocamos as esmolas da rua pelos cliques em coraçõezinhos? Nossa cota diária de solidariedade para entrar no céu. Isto, certo que temos uma sede enorme de reconhecimento, de sermos lembrados, de sermos vistos; mas, por aqui, corremos o risco de sermos bem mais simplórios ou apequenados.

Uma necessidade imensa, percebo, de nos eternizar! “Olhem, estou aqui!”; o que não é de todo ruim. Todavia, uma descoberta de como apresentar “apenas” o nosso melhor, “apenas” o nosso melhor ângulo, “apenas” a nossa melhor frase, “apenas” as nossas conquistas, quando em verdade a vida não é feita somente dos “melhores” de nós. E as nossas limitações, e as nossas olheiras, e os nossos fracassos? … E o nosso verdadeiro eu? Chega a ser opressor. Chamam de ilusão. Também chamo de fardo ou de auto-enganação. Uma precisão de provar que temos vida social, que somos legais, que até somos magros, afinal; que temos muitos amigos e quase o mesmo tanto de seguidores; de modo que com mais de vinte curtidas na minha foto de agora à noite, que publiquei no horário indicado pelo pessoal do marketing, já poderei dormir feliz. Uma necessidade de… felicidade. Mas será que podemos esperar felicidade plena vinda desse lugar?

É constrangedor isso que faço. Ao limpar meu Facebook fui infantil – acusam-me; sem razão de ser. Há um constrangimento. Há também o constrangimento do retorno. Questiono-me, acerca de um dependente químico, o que é mais complicado: animar-se no tento de parar de fumar ou nem tentar para que depois – no caso de falhar – não tenha que suportar os olhares que lhe estapeiam de “fraco!”. Teremos que lutar para incluir algo como “Direito à Desvirtualização” entre o rol de garantias fundamentais?

Sinceramente, não proponho que as pessoas deixem essa forma de comunicação. Estou curioso, e apenas curioso, para ler ou então ouvir os depoimentos daqueles que se proporem a – ao menos – cogitar abandonar as redes sociais por algum tempo. Voltarem-se para si mesmas, mas não na intenção de se fechar e sim de voltar a se expandir. Assumir: “Tô viciado, caralho!”. Não deixarmo-nos ser engolidos por tudo isso faz parte de uma conciliação complicadíssima de administrar.

No jornal à minha frente, matérias de esportes, de política, de tudo. Até a Mafalda me sorria. Palavras-cruzadas para terminar e outras para corrigir. Do meu lado, pessoas ainda sonolentas, ansiosas por um “bom dia”, por uma solicitação de amizade; carentes por um emoticon bem real e por um “conte-me em que você está pensando para hoje”. Na televisão, uma reportagem mostrava a entrevista de um famoso que contava ter doado alguns milhões para campanhas na África. Não me senti muito diferente. Por um período, ainda que tenha sido bem breve, caí na armadilha de, por exemplo, vencer concursos para publicar no Facebook e não para saborear a participação em si. É estarrecedor imaginar que as curtidas me fizeram sorrir mais do que o título ou do que o troféu que recebi. Há pouco tempo ainda me pegava cantarolando Los Hermanos em “E eu que já não quero mais ser um vencedor…”.

Aliás, costumava, sempre que recebia um prêmio, reler minha obra e agradecê-la como ideia viva, por ter a honraria e satisfação dela ter escolhido logo a mim. Da última vez me esqueci. Eu nunca escrevi por conta dos concursos, mas, de repente… Perguntei-me como pude, mesmo que por um instante, deixar meu processo criativo genuíno ser ameaçado por influências tão banais! É como ter amigos para publicá-los conosco no Instagram: para comprovar nossa popularidade e não porque gostamos deles realmente. E só.

Não sei ao certo qual o meu objetivo de vida hoje. É assim que respondo àquela indagação que me foi feita. Porém, olhando platonicamente para a borra daquele café remexido, para as sombras que o sol acabara de projetar nas paredes daquela cafeteria, só pude afirmar é que no meio desse objetivo com certeza haverá muito pão-de-queijo envolvido.

 

 

Revisado por Fernanda Miki
Imagem de Joel Benjamin

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.