Black Mirror: cinco razões para assistir

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Se a tecnologia é como uma droga – e ela se parece com uma droga – quais são precisamente os efeitos colaterais? Essa área entre o prazer e o desconforto é onde Black Mirror, minha nova série dramática, está situada”. Quem faz a reflexão é o próprio criador da série, Charlie Brooker. O nome do seriado também é definido por Brooker como aquele espelho preto que encontramos na parede, na mesa ou na palma da mão: “a fria e brilhante tela de uma TV, monitor, smartphone”.

Lançado em 2011, no Reino Unido, a série tem alcançado sucesso de público e, principalmente, de crítica em vários países. Apesar disso, de lá para cá, foram feitas apenas duas temporadas (cada uma com três episódios) e um especial de Natal. Para delírio dos fãs, no início de 2015, os produtores anunciaram que uma versão norte-americana estava sendo planejada. Em março de 2016, chegou o anúncio de que a Netflix havia comprado os direitos da série para lançar uma nova temporada em 21 de outubro deste ano.

Muitos aspectos distinguem Black Mirror de qualquer outro seriado. Um dos mais facilmente identificados é que cada episódio conta uma história particular que se sustenta sozinha. Não só o enredo, mas também os atores, o tempo no futuro, o tipo de tecnologia usada e o tema retratado: tudo é diferente. Trata-se de universos distintos.

Se você ainda não viu, deixamos abaixo cinco razões para assistir:

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1 – Uma série para mexer com a sua cabeça

Essa série aborda a relação entre seres humanos e tecnologia de uma forma singular. Dificilmente você verá algo parecido. Não há nada que se aproxime dos clichês normalmente associados à temática. Aqui o chocante encontra o fantástico do mesmo jeito que o emocionante se mescla com o brutal. Cada episódio contém uma profunda reflexão sobre a complexidade dos processos tecnológicos que estão em marcha e como tudo isso transforma e se conecta com a cultura humana. O espelho preto é como aquele raro momento em que desligamos os aparelhos e vemos o nosso reflexo neles. Mas, nesse caso, mais do que nunca, não gostamos do que vemos.

Black Mirror The Waldo Moment l-r: Gwendolyn (Chloe Pirrie), Simon Finch (Louis Waymouth), Liam Monroe (Tobias Menzies), Jamie (Daniel Rigby) and Tamsin (Christina Chong)

2 – Pode acontecer ou já está acontecendo?

Apesar de ter uma aura futurista, Black Mirror não retrata aquele futuro muito distante ou aquela realidade demasiadamente distópica. O mundo social apresentado, de um modo geral, não difere do que existe em nossos dias. Há sociedades de mercado, aparentemente democráticas, universos sociais em que a tecnologia e o consumo se mesclam para constituir redes de significação e de sentido partilhados por todos. Um ou outro episódio até tem uma concepção mais complexa e avançada de tecnologia (algo impensável para os dias de hoje), mas a maioria se pauta em processos possíveis de serem desenvolvidos em pouco tempo. Em alguns casos, a tecnologia utilizada já existe. Esse fato é o mais chocante. Já estamos trilhando esse caminho. O vício em tecnologia já promove distorções nas relações humanas. O que o seriado faz é estabelecer uma ponte reflexiva entre o potencial do nosso presente e as condições de mundo que são possíveis, mas nada agradáveis.

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3 – Reflexão aterradora sobre o nosso presente

Black Mirror tem um lado espantoso, promissor, convidativo e encantador sobre o futuro tecnológico. É difícil não se sentir seduzido. No entanto, em pouco tempo o enredo lhe apresenta como esta face atrativa combina-se e está conectada com outra, mostrando que são partes de um mesmo processo. Surge aí o lado paranóico, perturbador, sombrio e até cruel sobre as ações humanas nesses contextos de pura imersão tecnológica. Isso vai lhe fazer refletir a respeito de como a sociedade atual está dependente da tecnologia, sobre como as relações humanas estão se transmutando cada vez mais rápido e, principalmente, sobre os perigos dos caminhos que estamos percorrendo. Black Mirror provoca um estranhamento absurdo sobre a nossa forma de ver o mundo atual. Se fôssemos nos basear em alguns aspectos bizarros da nossa realidade presente, poderíamos ser o Black Mirror para quem viveu há 20 ou 30 anos.

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4 – Novos temas sobre a vida humana

Black Mirror expõe temas que poderão causar muitos problemas no futuro. Imagine se fosse possível interagir por meio da tecnologia com as memórias e sentimentos de alguém que já se foi? E se uma empresa vendesse para você uma cópia digital de você mesmo, com toda a complexidade que o define como humano, um avatar computacional escravizado para fazer seu trabalho ou seus afazeres domésticos exatamente do jeitinho que você gosta? E se pudéssemos ter acesso ao que outras pessoas veem ou às suas memórias visuais para usar a favor de empresas, de interesses de segurança estatais ou para a própria diversão? Black Mirror não poupa ousadia, criatividade e, principalmente, humor sádico/mórbido para apresentar um sofisticado questionamento dos limites da ética num mundo completamente dominado pela tecnologia.

White Bear featuring Toni (Lenora Chrichlow) and Jem (Tuppence Middleton)

5 – O lado obscuro da humanidade

As redes sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis”. Pois é, essa frase de Umberto Eco pode ser elevada à décima potência em um dos episódios. Já imaginou se os comentários maldosos e recheados de ódio que se multiplicam na internet pudessem sair da rede e se materializar em um espaço físico específico, condenando e julgando determinadas pessoas? Black Mirror faz isso de uma maneira tão brutal que você vai precisar de um tempo e de uma higiene tecnológica para se recompor. O seriado expõe de maneira direta e impactante as vísceras mais sórdidas e repugnantes da inventividade humana.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Mestre em Sociologia pela UFRGS. Cientista Social nas horas vagas. Flâneur digital. Viciado em café e em doces com canela. É movido pela curiosidade sobre a vida de escritores e pensadores.