Almodóvar e Xavier Dolan: mães, cores e sexualidade

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Quando em 1989 o cineasta Pedro Almodóvar finalizava seu controverso filme “Ata-me!’ (numa época que seus trabalhos ainda eram considerados tal), um dos primeiros com Antonio Banderas, nascia em Montreal, Canadá, um fã de Harry Potter. É evidente que o primeiro livro da saga só seria publicado oito anos depois, em 1997, e que ninguém viria ao mundo com quatro tatuagens em sua homenagem. Contudo, Xavier Dolan, de pai músico e mãe professora, garoto-problema durante a adolescência, vencedor da Queer Palm em Cannes com apenas 23 anos, é um fã de Harry Potter. Almodóvar, por sua vez, chegou ao mundo quarenta anos antes, a um oceano atlântico de distância em Calzada de Calatrava, na Espanha. Estudou em colégios católicos que o fizeram perder a fé em Deus – e encontrou no cinema a fuga para sua angústia. Começou a fazer filmes sem formação acadêmica, lançando “Pepi, Luci e Bom”, seu primeiro, em 1980. Oito anos mais tarde, estrearia seu “Mulher à Beira de Um Ataque de Nervos”, o filme espanhol de maior de sucesso, e construiria uma longa carreira de filmes Polêmicos ®. E essa denominação minimiza de tal forma a penetração de sua obra que nos faz trazer de volta o nome do canadense Dolan, que lida com os mesmos percalços.

A controvérsia marca majoritariamente filmes que retratam vivências marginalizadas – estamos falando das travestis de Almodóvar, das mães cansadas de Xavier Dolan, da abordagem cinzenta da sexualidade cinzenta em ambos – e essa rotulação rasa, que amedronta qualquer espectador antes mesmo de decidir comprar o ingresso ou clicar no play, é um prejuízo. Se no alto escalão da sétima arte atual, em prêmios César e festivais de Cannes, etc., podemos ver seus nomes reluzindo e glorificados, Almodóvar e Dolan ainda são estigmatizados por serem libertos em suas produções. Um desserviço ao cinema confortável, é impossível não encontrar convergências entre suas artes.

A mulher-mãe e os filhos

Podemos começar com uma das temáticas mais recorrentes na cinematografia tanto de Almodóvar quanto de Dolan: a maternidade. Ou, ainda, como a maternidade aflige mães e filhos. Da obra de Dolan, ressalta-se sua grande estreia como diretor e roteirista “Eu Matei a Minha Mãe” (2006) e seu filme mais maduro e prestigiado, “Mommy” (2014. Não é de se surpreender que os dois carreguem “mãe” no nome e são seus trabalhos mais marcantes – de acordo com o cineasta, ambos flertam com sua própria biografia. No filme de 2006, Hubert (interpretado pelo próprio Dolan) é um adolescente que vive uma inquieta relação com sua mãe, Chantale (Anne Dorval). A conturbação entre os dois reside no cotidiano desgastante, num dia-dia com péssimas acumulações de raiva, não, necessariamente, num acontecimento passado que mudaria tudo para sempre. Pelo contrário, o protagonista diversas vezes retorna a sua infância para reafirmar uma relação diferente com sua mãe durante essa época. Contudo, Hubert convive com a hesitação de assumir sua homossexualidade e o namoro com seu colega Antonin, o que perturba a honestidade de sua conexão com a própria mãe.

 

Eu Matei a Minha Mãe (2008)

Eu Matei a Minha Mãe (2008)

Mommy (2014)

Mommy (2014)

Se em “Eu Matei a Minha Mãe” o título pretendia denunciar um desastre que não chega a ocorrer, em “Mommy” o desastre é contínuo. Interpretado pela mesma Anne Dorval, a mãe solteira e viúva Diane “Die” Després precisa voltar a viver com seu violento filho Steve, que foi expulso do internato. Mesmo com o distúrbio mental de Steve, que permitiria que ela o entregasse para um hospital, Die decide continuar a criá-lo, mesmo sabendo que correria perigo ao recebê-lo de volta. Após ser atacada pelo filho e feri-lo na perna, Die recebe a ajuda de sua gentil vizinha Kyla, a figura materna que os dois precisavam e que sofre de problemas na fala. Inicia-se, então, uma amizade benigna que ampara os três perdidos. Tanto em “Eu Matei a Minha Mãe” quanto em “Mommy” não falta amor entre mãe e filho. Falta, sim, saúde na convivência, que é o verdadeiro fermento para a narrativa – o que é ser uma boa mãe? Ainda sou um filho de verdade se não suporto a minha? O meu filho ainda é a mesma pessoa que eu amava? E por aí vamos.

Sole, Paula e Agustina em Volver (2006)

Sole, Paula e Agustina em Volver (2006)

Julieta (2016)

Julieta (2016)

Os inúmeros questionamentos que implicam em ser mãe, sobretudo a culpa, também encontram espaço nas narrativas de Pedro Almodóvar: em “Tudo sobre minha mãe” (1999), sua obra-prima, o cineasta tem como inegável tema a relação entre Manuela e Esteban, mãe e filho, mesmo com a morte do jovem ainda no começo do filme. Longe de Esteban e de volta ao seu passado em Barcelona para encontrar seu ex-marido, Manuela reconstrói sua união com o filho em cada passo a caminho da superação. Já em “Volver” (2006), contamos com duas dinâmicas indissociáveis: entre Agustina e sua filha Paula e entre a defunta Irene e suas filhas Agustina e Sole. Após a morte de sua mãe e o assassinato por legítima defesa de seu marido pela própria filha, Agustina é obrigada a reerguer sua vida num momento onde muitos segredos estão prestes a serem revelados – e sua mãe, Irene, retorna à vida para resolver seus problemas com a filha. Mais uma vez, lidamos com o “acerto de contas” entre mãe e filha e nem mesmo a morte foi um empecilho para tal.

No seu mais recente “Julieta” (2016), Almodóvar, ao adaptar três contos da canadense Alice Munro para o cinema, não deixou de tocar em seus assuntos favoritos (a mãe, o regresso e remorso) e transforma-os em narrativas autorais. A personagem que dá título à obra, Julieta, revisita a antiga angústia do desaparecimento voluntário da filha, Antía, após saber de seu paradeiro – Madrid, casada, três filhos. Quando ainda era pequenantía perde seu pai numa tempestade e inverte as posições na família ao precisar cuidar de sua mãe, tomada pela culpa. Mais tarde, aos dezoito anos, passa meses num retiro espiritual e não volta para casa. Narrado por Julieta desde seu início, o filme aborda a maternidade negada de uma mulher que não soube não afogar-se nos crimes das perdas.

Se em Almodóvar, as digressões são das mães – elas sentem culpa, possuem segredos e contam sua própria história –, em Dolan, por outro lado, conhecemos os filhos que não conseguem gostar de suas irregulares e terrenas progenitoras. Nos filmes do cineasta espanhol, somos deslocados dos acontecimentos em si e os analisamos por meio da narração de suas mulheres. Já em Dolan, não há nada a ser explicado: seus personagens são consequências do que decidiu mostrar e as justificativas estão na obra.

As cores

As cores são um cuidado estético comum entre os dois cineastas, além de serem o primeiro ponto no qual reconhecemos um no outro. Os filmes de Xavier Dolan, sendo os mais recentes, nos remetem imediatamente à Almodóvar devido a sua paleta de cores. Trabalhos seus, como “Eu Matei a Minha Mãe” e “Amores Imaginários”, apesar da carga emocional envolvida, ainda demonstram certos aspectos da euforia no amor e são filmes que contam com cores mais quentes.

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Já em “Mommy” e “Tom Na Fazenda”, pesados no drama e que apostam no suspense, são enfatizados o amarelo mais desbotado e cores pouco harmoniosas. Isso contrapõe um pouco os dois cineastas, uma vez que, não importa a natureza das histórias de Almodóvar, as cores serão sempre vibrantes e enchem a tela. Talvez como uma tentativa do autor de amenizar a forte sentimentalidade de seus trabalhos. Sobre isso, afirmou: “Minha descoberta do cinema está muito ligada ao Technicolor. Comecei amando aqueles filmes de cores muito saturadas. Posso ter evoluído para outros filmes, e autores, mas as cores ficaram. E, depois, eu precisava da cor. Julieta é muito sombrio, muito duro. Sem a intensidade, e luminosidade da cor para balançar, poderia ficar insuportável”.

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A música

Sobre esse tema, não cruzarei informações sobre a música ambiental dos dois diretores. Sabe-se que Almodóvar, apegado a um melodrama, deita e rola nessas intervenções instrumentais de telenovela. Mesmo assim, não há um filme seu que dispensa certa música como narradora e condutora de cena. A escolha da canção e seu momento nunca são aleatórios – as “cenas musicais” serão sempre instantes transformadores e necessários à história contada.

Nos filmes de Xavier Dolan, não deixa de ser diferente. Ao pescar momentos memoráveis de seus trabalhos, dificilmente conseguiremos desvincular a música desses. A voz enunciadora do Xavier-autor-e-diretor não é apenas marcante no posicionamento da câmera e nas cores escolhidas, ela se impõe, principalmente, ao adotar canções que significam a trama. E encontramos de tudo: desde electropop, Lana del Rey, Céline Dion, The Cure, até aquelas músicas que nos fazem perguntar “Este gênero existe mesmo?”.

Céline Dion – On Ne Change Pas (Mommy)

“Nós não mudamos
Nós apenas fazemos caras e poses de combate
Nós não mudamos
Nós apenas respondemos uns aos outros”

Cucurrucucu Paloma – Caetano Veloso (Fale com ela)

“Dizem que pelas noites
Não conseguia nem mesmo chorar
Dizem que não comia
Não conseguia nem mesmo beber
Juram que o próprio céu
Se estremecia ao ouvir seu pranto”

Le Temps est Bon – Isabelle Pierre (Os Amores Imaginários)

“Meus amantes são bonitos como a árvores malucas
Meus dois amantes são sempre doces
Eu sou deles, da alma até a pele
As noites são longas, os dias são quentes”

Volver – Estrella Morente (Volver)

“Voltar…
com a testa murcha,
As neves do tempo
pratearam minha fronte
Sentir…
que é um sopro a vida,
que vinte anos são nada”

Noir Désir – Vive la Fête (Eu Matei a Minha Mãe)

“Eu tenho um espírito problemático
Me dá um tempo
Isso passará pelo vento

Eu quero ficar sozinha
Não te aproxima, cala a boca
Eu não posso me acalmar
Me deixa extravasar”

Tajabone – Ismäel Lo (Tudo Sobre Minha Mãe)

“He’s going to ask you did you pray
He’s going to ask you did you fast
He is coming to your soul”

A escala de cinza na sexualidade, na identidade de gênero e nos relacionamentos

Por fim, o que entendem por “polêmico”. Foi polêmico, para Almodóvar, falar sobre dois garotos que se apaixonam num colégio de padres na década de 60 (Má educação, 2004), sobre uma mulher que vai atrás do pai de seu filho, uma travesti chamada Lola (Tudo sobre minha mãe, 1999) ou sobre uma dona de casa que, ao saber que seu marido tentou abusar da filha, precisa sumir com seu corpo (Volver, 2006). AIDS, transexualidade e homoafetividade são assuntos que não chegam facilmente às telas do cinema como elementos secundários a uma trama, sendo sempre questões que dão eixo a determinada história. Contudo, em Almodóvar, elas costumam ser elementos complementares. Não são filmes de “temática gay” ou “temática trans”, são apenas filmes que representam essas vivências em outros aspectos universais da existência.

Tudo Sobre Minha Mãe (1999)

Tudo Sobre Minha Mãe (1999)

Tom na Fazenda (2013)

Tom na Fazenda (2013)

Má Educação (2004)

Má Educação (2004)

As produções de Xavier Dolan, por sua vez, são consideradas “cinema queer”, o quê, de acordo com o diretor, rotula seus filmes e implicam que esse é o enfoque – o que não é, principalmente, assemelhando-se mais uma vez ao cineasta espanhol. Ao assistir a um filme cujos relacionamentos apresentados saem do parâmetro hollywoodiano de falsa normalidade, respiramos fundo (com alguns soluços inegáveis). Sim, é possível ver uma obra cinematográfica que insira casais entre pessoas do mesmo sexo sem que essa relação seja questionada. É possível ver filhos que possuam o elo mais quebradiço de todos com suas mães. É possível assistir filmes que naturalizam relacionamentos que não são facilmente posicionados em qualquer espectro. Em Dolan, reconhecemos, nos adolescentes perdidos no mal-estar de uma sociedade, as mulheres culposas de Almodóvar. Identificamos aspectos da obra de um no outro especialmente porque nos defrontamos com a nudez genética de seus personagens – ou de suas câmeras.

Revisado por Stephany Justine

SOBRE O AUTOR

INFJ caricata, moradora do Litoral Norte de São Paulo e entusiasta da arte que faz chorar de alegria. Quer escrever, dar aula, ter uma escola e viajar pelo mundo. No momento, tenta apenas imaginar se vai dar tempo.