A vida como terror: o conto (sem fadas) da menina e o lobo

chapeuzinho

Havia uma reunião em volta da lareira. Era uma noite fria. Uma pessoa, de pé, em meio às sombras provocadas pela labareda contava histórias sobre monstros, seres falantes e crianças malvadas. Narrava com gestos, pausas dramáticas, miradas maliciosas e sons malévolos. No entorno da apresentação, os homens consertavam suas ferramentas e as mulheres costuravam. Mais ao fundo, crianças ajudavam no trabalho e nos afazeres, mas sem tirar os olhos do suspense que se encenava.

O sujeito contava uma história de assassinato, canibalismo e erotismo que envolvia uma criança, a avó dela e um lobo. Não havia chapeuzinho vermelho, advertência da mãe, caçador e muito menos uma moral da história. Era a vida como ela era na Idade Média: cruel e aterrorizante. No fim, o lobo tinha matado as duas almas inocentes e nenhuma força externa as salvou. Não teve feitiço que agiu para que o mal ocorresse e nem magia para reverter a má sorte ou o destino trágico.

Antes de Charles Perrault, dos Irmãos Grimm e da Disney, existia a tradição oral dos camponeses. Esse conto e milhares de outros eram reproduzidos com pequenas variações por muitas regiões da França e até da Europa. Eles eram parte da cultura e tinham uma função muitas vezes de inversão social. Nessas histórias, os famintos conseguiam comida, os fracos humilhavam os poderosos, os pobres tiravam sarro da aristocracia e até zombavam de seus costumes.

No entanto, os toques de fantasia eram ocasionais. Na maioria dos casos, as histórias lidavam com os problemas reais e corriqueiros da época. Num mundo de carência absoluta de alimentos, a comida era um elemento que exercitava a imaginação. Antes das novas técnicas de agricultura e de produção de bens materiais, era a natureza que comandava o processo de todo o sentido da vida coletiva. Suas forças eram tidas como incontroláveis: frutos do acaso ou da intervenção divina.

Ao mesmo tempo, a vida na aldeia não era essa visão idílica que se tem sobre a comunidade. Havia ódio, inveja e conflitos de interesses. Famílias inteiras dormiam todas juntas, num cômodo apinhado, muitas vezes cercando-se de animais domésticos para se manterem aquecidos. As crianças se tornavam observadoras participantes das atividades sexuais dos pais. Não se concebia uma fase da vida diferente da adulta. Ninguém pensava nos pequenos como criaturas inocentes.

Nos contos populares, os filhos, independente da idade, constantemente apareciam trabalhando com os pais. Algumas histórias exploravam o tema como ameaça aos pequenos que comiam e não laboravam. O modo utilizado era abusar do medo e do terror, que naquela época não se dava ao luxo de ser classificado de psicológico. Os exemplos serviam para mostrar aos recém-chegados a este mundo que ele era cruel e que não havia outro jeito de vivenciá-lo a não ser se acostumando com os seus caprichos. Todos tinham de enfrentar as amarguras e os sofrimentos de um trabalho interminável, sem limites, da mais tenra idade até o dia da morte.

Na tradição oral mais antiga da história de Chapeuzinho Vermelho não há nenhum equívoco ou descuido aparente da menina com relação às regras de convivência de seu mundo. Ela não escolhe o caminho errado. Simplesmente diz ao lobo qual rota tinha selecionado. Com base nisso, ele se antecipa indo pela outra trilha para chegar antes dela. Na casa da vovó, a garota segue o instinto de saciar sua fome e devora a carne e o vinho que lhe oferecem.

Vendo aquela cena, um gatinho diz: “Menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!”. Isso não foi o suficiente para fazê-la parar de se alimentar e nem de pensar, mesmo que duvidando da informação, sobre o horror de seu ato. O lobo, então, ordena que ela tire a roupa e se deite com ele. Peça por peça, a garota repete a mesma pergunta que, por consequência, tem a mesma resposta: “Onde ponho?”. “Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela”.

A menina se deita nua na cama. Tem-se, então, o diálogo famoso com as perguntas sobre o pelo, as unhas, os ombros e os dentes que a vovó apresentava. Ao final, o lobo devora a garota e a história acaba por aí.

Ao contrário dos contos que seriam escritos muito tempo depois, a menina nada fizera para merecer esse destino. Na aldeia medieval, o bom comportamento não determinava o sucesso. Nenhuma moral discernível governava esse mundo. Era a vida como ela era: trágica e aterrorizante. A garota simplesmente caminhou para dentro das mandíbulas da morte. A natureza bruta, inexorável e cruel seguiu seu curso.

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Esse texto se inspira no estudo de Robert Darnton “Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso”, publicado no livro O grande massacre de gatos. A imagem utilizada é um desenho de 1861 feito por Gustave Doré.

Revisado por Fernanda Miki

SOBRE O AUTOR

Mestre em Sociologia pela UFRGS. Cientista Social nas horas vagas. Flâneur digital. Viciado em café e em doces com canela. É movido pela curiosidade sobre a vida de escritores e pensadores.