A onusta relação entre criatividade e saúde mental

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Texto original (inglês) por Greg French, da revista Vice.

Tradução por Victor M. P. de Queiroz, do Literatortura.

Conferimos o trabalho da The Hospital Rooms, uma nova instituição de caridade, que comissiona artistas contemporâneos de nível internacional para renovarem quartos do setor de saúde mental de hospitais, transformando-os em instalações site specific (1) dignas de serem expostas em museus.

Nick Knight, Pale Rose

Nos últimos 25 anos, os índices de depressão e ansiedade entre jovens adultos cresceu surpreendentes 70%. Estima-se que uma em cada quatro pessoas (25%) com idade entre 16 e 25 anos já tenha tido pensamentos suicidas; e, dentro do nosso círculo de amigos ou colegas, todos hão de experimentar, em certo ponto da vida, algum tipo de mal-estar relacionado a distúrbios da saúde mental. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), “há, globalmente, uma desigualdade tremenda na distribuição de recursos humanos qualificados na área de saúde mental”.

Estas estatísticas são preocupantes – mas mais preocupante é a expectativa de que esses números cresçam significativamente nos próximos cinco anos. As razões são facilmente identificáveis: a expansão das mídias sociais, dificuldades financeiras e o retrato de uma “beleza” inatingível pela mídia. Todas estas razões foram apontadas como alguns dos gatilhos modernos para os problemas mentais. Também o ritmo  de nossas vidas cotidianas pode provar-se um fardo – um problema recente, que pode ser visto no setor de moda, com a saída de grandes designers das grifes de ponta para as quais trabalhavam.

Não surpreende, portanto, que, em 2015, um estudo islandês tenha alegado encontrar uma conexão genética entre criatividade e distúrbios mentais, com resultados que sugerem que 25% das pessoas criativas são mais suscetíveis ao transtorno bipolar ou à esquizofrenia, devido aos genes que herdaram. A pergunta que sucede, necessariamente, é: como e por que saúde mental e criatividade se interconectam tão intrincadamente?

NIck Knight, Lily

NIck Knight, Lily

Artistas fazem, desde há muito, projetar seu estado mental em suas próprias práticas criativas. Picasso (2), por exemplo, passou por uma reconhecível transição entre seus Períodos Rosa e Azul; uma mudança em sua estética que ocorreu em sucessão ao suicídio de seu querido amigo Carlos Casagemas. Perderam-se suas coloridas manchas de tinta características — substituídas por melancólicos tons azulados, decorrência da severa crise depressiva. Isso durou quatro anos, evoluindo para o Período Rosa, em que os azuis foram trocados por reconfortantes tons laranjas e vermelhos. “Arte”, disse uma vez Picasso, “expulsa da alma o pó da vida cotidiana”.

Mark Rothko (3) é outro exemplo – sua instável condição psicológica pode ser rastreada no pareamento das cores que há em suas pinturas. Suas peças em telas de grandes dimensões, envoltas com variados tons, são talvez mais conhecidas pelo seu impacto visual sobre quem as vê — suas cores transitando pela escala de cinza, segundo o diagnóstico do aneurisma da aorta que o pintor recebera. Pouco antes de suicidar-se, Rothko produziu uma de suas últimas pinturas — Sem título, Preto sobre Cinza –, um indicador da mente perturbada do artista.

Ao caminhar pela sala Rothko que faz parte da coleção permanente da galeria Tate Modern de Londres, o espectador é instantaneamente impregnado de sensações. Trata-se de um lembrete do poder que as obras de arte podem ter sobre nós, e da aura que as reveste. Uma nova instituição de caridade, The Hospital Rooms — fundada pelo curador Niamh White e pelo artista Tim A. Shaw (4) — reconhece o significado disso e comissiona artistas contemporâneos de renome internacional para renovarem quartos do setor de saúde mental de hospitais, transformando-os em instalações site specific dignas de serem expostas em museus. O projeto é sustentado através do financiamento público via Arts Council England (Conselho de Artes da Inglaterra), Morris Markowe League of Friends of Springfield Hospital (Liga Morris Markowe dos Amigos do Hospital de Springfield); e tem parcerias com a Dulux Trade (5), Liquitex (6) e Metro Imaging (7).

Assembly, Granby Workshop

“Arte e saúde mental têm histórico bem documentado, e muitas das obras mais reverenciadas retratam traumas internos”, Niamh explica. “Essas imagens contribuíram para a desconstrução do estigma associado às questões de saúde mental, comunicando tais questões como parte da condição humana.”

Talvez seja por isso que alguns dos mais trágicos contos de criadores se desenrolam tão poeticamente nas obras que produzem. Lee Alexander McQueen (8) explorou com frequência os níveis mais sombrios da psique — traduzindo-os em indumentária e em fantásticos desfiles. Não é segredo que o próprio Lee digladiava-se com seus distúrbios mentais — e os trabalhos nos quais a lida com essas emoções transparece são notáveis em seu catálogo. Como bem fez notar Francis Bacon (9), “os sentimentos de desespero e de infelicidade são mais úteis para um artista do que o de contentamento, porque o desespero e a infelicidade esgarçam a sensibilidade como um todo”.

A lista de criadores renomados envolvidos na iniciativa de The Hospital Rooms é extensa: Gavin Turk (10), Acconci Studio (11), Michael O’Reilly (12), Aimee Parrot (13), Joh Bates (14) e os vencedores do último Prêmio Turner – Assemble (15). O fotógrafo de moda e diretor do SHOWstudio, Nick Knight, também contribuiu com a iniciativa, doando duas impressões. Os trabalhos nunca houveram sido postos lado a lado em uma mostra, mas criaram um ritmo e uma energia incríveis juntos. Ecoando talvez sua relação com Lee McQueen, Knight afirma que “algumas das pessoas mais criativas e competentes que conhecera encontraram dificuldades no trato com sua saúde mental ora ou outra”. “Parece-me que, ao fazermos dos ambientes em que vivem pacientes vulneráveis algo prazeroso e estimulante, estamos conduzindo-os à sua cura e à sua recuperação, algo da mais profunda importância”, ele conclui.

Assembly, Granby Workshop

A instituição também providencia oficinas  mensais, ministradas pelos artistas supracitados, para os pacientes — visando a dar-lhes um meio criativo pelo qual vocalizar seus sentimentos, seus pensamentos. Apesar do estudo de 2015 sugerir uma ligação genética entre criatividade e saúde mental, muitos ainda argumentam que qualquer um está sujeito a sofrer de perturbações da saúde mental, independente da atividade ou instituição educacional em que estejam inseridos. O que é claro, contudo, é que a criatividade proporciona uma válvula de escape saudável .

Young Minds, instituição que zela pelo bem-estar da saúde mental de jovens, concorda com essa postura: “a criatividade é uma ferramenta terapêutica muito importante para diversos jovens que sofrem emocionalmente para canalizar seus sentimentos e experiências; muitas intervenções terapêuticas se utilizam efetivamente da música e da arte para ajudar esses jovens em seus processos de recuperação”, explica Lucie Russell, Diretora de Campanhas e Mídias da instituição.

“É um mito que jovens que recebem educação criativa são mais suscetíveis a distúrbios de saúde mental. Qualquer jovem pode padecer de algo desse tipo, e incentivar a criatividade nas escolas e na educação superior pode ser uma boa forma de ajudá-los a se expressarem e a desenvolverem seus sentimentos em forma de linguagem”.

Tim A. Shaw, Gaze

Ainda há uma zona enevoada, em se tratando de explorar criatividade e bem-estar mental. Se olharmos para trás, para aqueles artistas cujo trabalho se liga tão notadamente à emoção — suas atividades emprestavam-lhes um sentido de escapismo. McQueen disse, certa vez, que “a moda deveria ser uma forma de escapismo, e não uma forma de aprisionamento”. As artes são muito, muito importantes para nós, pois ajudam-nos a afrouxar esses grilhões — e é por isso que novas instituições caritativas como o The Hospital Club são cruciais, especialmente quando à luz dos recentes cortes impostos às artes e à educação. As artes vêm providenciando soluções para muitos de nossos problemas inexplicáveis e removendo o estigma que pairava sobre questões outrora intocáveis. Afinal, como já o disse Francis Bacon: “se é possível falar sobre algo, por que pintá-lo?”

Tradução por Victor M. P. de Queiroz

Revisado por Juliana Skalski

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NOTAS

Todas as imagens encontram-se também na matéria original, salvo os links para obras de Picasso, Rothko.

  1. Tipo de instalação artística pensada para uma lugar específico e que leva em consideração as características desse lugar no ato de sua composição.
  2. Pintor espanhol mais conhecido pelo seu trabalho enquanto representante do Cubismo, movimento do qual foi co-fundador, ao lado de Georges Braque.
  3. Pintor nascido na região da Letônia (à época Império Russo) e radicado nos Estados Unidos, associado ao movimento Expressionista Abstrato, associação que ele jamais reconheceu.
  4. Artista britânico contemporâneo. Pratica pintura, escultura e arte multimídia.
  5. Marca de tintas para pintura arquitetônica, propriedade do conglomerado de indústrias químicas holandês AkzoNobel.
  6. Empresa estadunidense, fabricante de materiais artísticos e responsável pela invenção da primeira tinta acrílica base-água.
  7. Prestadora de serviços fotográficos britânica.
  8. Premiado estilista britânico, que atuou durante cerca de cinco anos como designer chefe da casa de moda francesa Givenchy.
  9. Pintor irlandês praticante de pintura figurativa, cujas obras mais conhecidas são talvez as da série paródica do papa Inocêncio X de Velásquez.
  10. Escultor britânico contemporâneo.
  11. Escritório de arquitetura fundado pelo multi-artista e arquiteto estadunidense Vito Acconci em 1988, nos Estados Unidos.
  12. Pintor figurativo britânico contemporâneo.
  13. Pintora abstrata britânica contemporânea.
  14. Paisagista britânica contemporânea.
  15. Coletivo artístico britânico que integra as artes visuais, a arquitetura e o design em instalações site specific.
SOBRE O AUTOR

Victor M. P. de Queiroz, nascido em Campinas, 1991. Músico e compositor. Poeta e contista esporádico: mais poesiprosador que contista, mais poeta que outra coisa. Dificuldade de síntese e multidisciplinaridade. Muito apegado à individualidade das coisas, à história de tudo; respeitador e pouco ousado. Citador compulsivo e ávido de imagens bíblicas e alguns poetas modernos, embora ateísta convicto e um tanto antiquado. Sonhos de poesia-concreta: o quase, o verso que fica e atrapalha; síndrome de abstração, um estranho senso de humor. Poesia-fardo. Sem expectativa de cura, mas sem expectativa. Amargo.