A Droga do Escritor

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O dia exige um poema
A noite exige um romance.
Se o romance é um teorema
E o poema sai num instante

Qual é o problema?

O romancista bebe café
O poeta toma cachaça
Mas se poema fosse cachaça
Ê!, se romance fosse café…

Cirrose hepática!

 

Sou um escritor drogado, apesar de achar que tal afirmação é redundante. No mínimo, posso dizer que me droguei nesta noite ou neste instante. Nesta noite, o sono sequer me alcançou e a causa é assustadora; descobrir ou aceitar o próprio vício não é coisa pouca.

Nalgumas vezes, drogas proporcionam leveza de alma; noutras, um olhar colorido de mosaico; e, se bobear, até a vegetatividade. Seu usuário ainda existe, escreve, dança e ri… mas pára por aí. Enquanto ainda não destruiu a alma e o corpo da pessoa, uma droga elimina a timidez, a outra faz ver além da mera realidade, enquanto que as restantes nos fazem esquecer das traições, da perda ou dos moralismos que aprisionam tantos! O entorpecente que usei é de certo modo muito pior: é ao sono que vem furtar.

Indagados, muitos afirmam que a melhor coisa do mundo é dormir – mais do que o chocolate, mais do que o sexo, mais do que viajar. Durante o sono o nosso corpo descansa, as células trabalham, os adolescentes crescem, os idosos diminuem, o cérebro se renova; durante o sono até se emagrece! (Embora, sobre esta última tese, eu desconfie que não emagrecemos porque dormimos e sim porque, dormindo, não estamos acordados para poder comer).

Mas, se o sono é tão bom assim, como intitular uma droga que nos faz perdê-lo? Quando amanheceu, contei quantas páginas escrevi, o quanto trabalhei, o quanto estudei, o quanto comi, o quanto meus olhos vieram a se avermelhar… Indo dormir somente quando, ao vasculhar o pote de café, percebi que ele não estava mais lá.

*

Esse seria o fim do texto não fossem os efeitos retardados que aquela substância também nos dá. E, assim, como acontece na vida real, o trabalho feito depois do café é sempre pior, mais veloz, com pitadas de humor e dislexias que nos causam horror.

*

Além da bebida, para depois da digestão, não sei se bebo café para produzir mais ou se produzo mais porque bebo café. Estas hipóteses podem parecer iguais, mas não são: uma inocenta a outra; de um lado, o culpado sou eu, e, de outro, seria o próprio café. O café move o mundo, que está por trás do mercado, das linhas de produção e até das revoluções industriais; mas – confesso que – somos a droga verdadeiramente maior se analisarmos tudo isso a fundo. Enquanto os deuses não acordam para nos prender continuamos a fumar o mundo. A droga fuma em vez de ser fumada. Mais do que nos fazer ficar acordados, esse café nos ajudará a botar o mundo de vez no sono eterno e em torpor – e bem rápido! Eu queria era pagar o café na padaria aqui da esquina para o possível Criador.

Vendo as catástrofes e os terremotos, os professores violentados, a riqueza de poucos e a pobreza de tantos, o egoísmo e o ódio transvestidos de discurso racional, preciso de uma crença ou de uma droga bem melhor, tipo: o amor. Amor pelo café, ou café amoroso… não sei, com título eu sou mesmo péssimo.

Cansei-me dos políticos, dos idealistas, dos partidos de centro e dos radicais; ilusionei-me já com a ira dos adversários e com o abandono dos amigos lá de trás.  Embora tenha aceitado que o café é a pior droga que há porque nos faz perder a melhor de todas as coisas e que é hibernar. Eu acho que quem sonha dorme bastante; aquele que perde o sono por causa de suas ambições é que já se tornou escravo do seu próprio sonhar. Não vale a pena perder o sono por conta dos sonhos que se tem.

Para ser sincero, não vejo a hora de ver algum deus bastante drogado (como eu)! Não tenho dúvidas de que, para ter conseguido produzir em sete dias tudo o que produziu, esse grande escritor também já deve ter experimentado…

 

Arte de capa: de Giulia Bernardelli, italiana que elabora as suas pinturas utilizando… café.

 

 

SOBRE O AUTOR

Escritor premiado de obras acadêmicas e literárias, Schleiden veio das terras campobelenses e dos tortuosos e poéticos morros de Minas Gerais. Recentemente trouxe ao mundo seu primeiro filho, intitulado de "Contos Jurídicos: um dedo de prosa e um gole de justiça". Pesquisador nas áreas de Literatura, Direito e Filosofia, também é revisor de textos e atua como conciliador judicial.