A Crítica Moralizante: um Diálogo entre Gil Vicente e Ariano Suassuna

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Do Século XVI para o Século XX há muito tempo e distanciação: alguns diriam que as diferenças entre a vida lá e cá são tão grandes que não vale a pena uma comparação, ou que essa seria, de tal forma, desmedida. No entanto, ao analisarmos um autor de lá, Gil Vicente, e outro que está mais para cá, Ariano Suassuna, notamos que a distância se encurta entre o ponto A e B, como se o papel em que os pontos estão escritos fosse dobrado nesse novo encontro. Ao analisarmos as principais obras dos dois autores, querido leitor, podemos notar algumas poucas diferenças, é claro, como também ocorria com autores contemporâneos às suas épocas, porém há muitas semelhanças no que trespassa e diz respeito aos reconhecidos Autos dos dois.

Para muito além da questão do julgamento Misericordioso (Suassuna) e Punitivo (Gil Vicente)  – que também será abordada aqui, leitor – podemos notar que Suassuna foi um ávido leitor de Gil Vicente, não só trazendo inspiração nítida do Auto da Barca do Inferno, mas também do Auto da Índia, por exemplo. Esse Auto narra a história de uma mulher cujo marido viaja para navegar e, ao estar sozinha, chama diversos homens para ir para a sua casa, e ocorre uma coincidência de um chegar enquanto o outro está lá e ela enrola ambos para que não seja descoberta sua traição com outro amante, tal como ocorrido na cena em que Dorinha – mulher do padeiro – se envolve com Chicó e com Vicentão (no caso da adaptação cinematográfica, que trouxe personagens de outras obras de Suassuna).

Mas, saindo de um plano mais objetivo relativo unicamente às histórias contadas, e as cenas explicitadas, como a acima, é possível notar que ambos os autores buscam fazer uma crítica moralizante em suas obras, não a partir de personagens que possuem uma estrutura psicológica muito bem trabalhada, ou discursos teológicos profundos acerca do metafísico e de toda a religião, mas no plano mais objetivo de valores da sociedade, sua corrupção – e no caso de Suassuna – seus efeitos/perdão. Para conseguir esse efeito, ambos usam do mecanismo de personagens-tipo, ou planos, não esféricos, que representam não apenas a si mesmos (esses tipos são mais fortes em Gil Vicente, aliás), alegorias e analogias.

Tanto em o Auto da Barca do Inferno como em Auto da Compadecida, nota-se a presença de personagens mais humildes ou desprovidos de conhecimento por acaso – como o Parvo em Gil Vicente, e João Grilo e Chicó em Auto da Compadecida, que neste caso aparentam sagacidade, mas justamente por conta do abandono que sofrem –; de personagens avarentos, como Padeiro (Auto da Compadecida) o Onzeneiro em Gil Vicente que, aliás, pede ao Diabo para voltar ao mundo e pegar o seu dinheiro para subornar o Anjo que cuidava da outra barca; também há personagens que representam alguns padres/clérigos que sabiam o que era certo mas faziam o errado, e, no Auto da Compadecida, exatamente por isso não foram direto para o paraíso – já no Auto da Barca do Inferno não. O importante, aqui, leitor, é notar que os personagens por mais que possuam sua personalidade, eles não têm demasiada profundidade em seu desenvolvimento, sendo representações de um tipo ou uma alegoria a uma área específica da sociedade.

O uso desse mecanismo permite que os autores não façam críticas a alguém diretamente, mas sim a comportamentos e atitudes no geral, também ao cenário em que habitam esses personagens e os fazem ser o que são: a partir desses dados, podemos notar a questão da crítica moralizante que se transpassa às duas obras e que, a meu ver, leitor, complementa uma a obra a outra: a misericórdia e a força para se seguir o verdadeiro e bom caminho. Se em Auto da Compadecida a misericórdia é o principal, o Auto da Barca do Inferno traz a vigilância e a violência – em sentido de dificuldade e necessidade de força – para a permanência nesse bom caminho. Por mais que essa rigidez apresentada pelo teatro vicentino pareça opositora ao compadecimento de Suassuna, nota-se que em ambos os casos há a salvação e a condenação – seja ela para o purgatório, mesmo que com chance de redenção.

Visto isso, ambas não se excluem porque: 1- por mais que o caminho seja difícil para todos, em Suassuna isso é explicitado, principalmente para aqueles abandonados – essa é a palavra que melhor define – ainda há a punição, tal como a possibilidade de salvação e redenção 2- Por mais que o caminho seja difícil e nem todos mereçam ser salvos – exatamente por terem errado, e sabendo que erravam –, ainda há a salvação, seja pela misericórdia como com o Parvo – devido à sua ingenuidade –, seja pela força da fé – como com os Quatro Cavaleiros Templários – em permanecer no bom caminho. E apesar dessa dificuldade em subir à barca do anjo, o caminho ensinado por Suassuna também ajudaria o homem a subir, que seria o perdão mesmo às atitudes mais cruéis feitas por outros homens consigo.

É como pensei esses dias comigo: tanto maior minha razão para ficar com raiva de alguém, maior a minha necessidade, como humano, de perdoá-lo.

E é isso que ensina Suassuna e complementa Gil Vicente em suas obras: não que todos devem passar a mão em cima da cabeça dos que erram, já que até os clérigos foram para o Purgatório ou Inferno – nas obras –, mas que o homem bom tem de ser reto e firme, tal como os cavaleiros templários apresentados no teatro vicentino, que não “dão bola alguma” ao Diabo, e o perdão – que não é levado a sério pelo enforcado em Gil Vicente, destinando-o, portanto, ao inferno.

Disso, podemos notar que, apesar das diferenças de julgamento em Vicente (Punitivo) e Suassuna (Compadecido), há uma grande semelhança no que trata a estrutura da obra e uma complementação no sentido de entendimento em relação à essa crítica moralizante que ambos trazem em seus Autos em busca de uma sociedade melhor. Uma sociedade que saiba valorizar o que há de bom e correto, fugindo desses desvios e, quando atingidos por alguém que não está no caminho, saibam se compadecer também. Lembrando que a intenção aqui não foi fazer associação à escolha filosófica/ideológica/política dos autores, mas sim uma relação entre textos x contextos e texto x texto, e, por isso, ser possível notar que Suassuna se inspirou e complementou a sua obra com a vicentina.

Revisado por: Maria Eduarda Campos

SOBRE O AUTOR

Grande escritor (1,85m de altura), tem o sonho de salvar o mundo enquanto tenta salvar a si mesmo. Tem noção de que o fantástico é tão ou mais real que o realismo e pode ensinar tanto quanto a viver no mundo. Afinal, o que a gente sabe sobre o mundo real mesmo? Escreve contos e outras coisas estranhas em: http://contosjamaislidos.blogspot.com/