A Balada do Corvo (ou Raven Blues)

"Raven" — Oil paint on board, 2008 — by Kara Anne Fraser
"Raven" — Oil paint on board, 2008 — by Kara Anne Fraser

“Raven” — Oil paint on board, 2008 — by Kara Anne Fraser

O som fraco de osso chocando-se contra madeira veio se interpor entre as camadas de consciência, me forçando a emergir do sono, ainda que sem pressa. Três batidas leves de algum nó de dedos contra a porta do quarto. Não arranhei a garganta pra lhes gritar que entrassem. No entanto, meu silêncio foi ignorado, o que aprendi ser a sina dos velhos e moribundos. A maçaneta girou preguiçosa, ou receosa, difícil dizer. A folha de madeira foi empurrada gentilmente e, aos poucos, os corpos das três mulheres atravessaram o batente. Fazendo mais força do que gosto de admitir, as reconheci como minha esposa e minhas filhas, títulos que para mim se faziam suficientes, e me poupavam de esforço ainda maior pelas dobras da memória, hoje em dia tão esburacadas, em busca de seus nomes. Guardavam nos lábios sorrisos carinhosos, mas seus olhos tristes lhes traíam.

As duas moças me cumprimentaram com um beijo na bochecha serrada de uma barba dura, ainda que rala. Posicionaram o travesseiro encostado à parede, de modo que eu me encostasse e me ajudaram a sentar. Enquanto a mais nova me alisava a cabeça calva e manchada de sol, a mais velha caminhava pelo quarto, analisando com cuidado os objetos nas mesinhas de cabeceira e na escrivaninha. À medida que me contava trivialidades de sua vida fora daquele quarto, tirava do lugar os porta-retratos e os livros. Falava dos meus netos e de como eles cresciam rápido. A mãe, sentada no colchão da cama aos meus pés, me levava à boca colheradas de um caldo verde com muita couve e pouca batata, para o meu desgosto. Minha atenção era difusa, e me encontrava em vários momentos a contar as rachaduras da parede tentando não me perder, usando daquela infiltração como exercício para meu cérebro desgastado.

Os olhos da mulher que me alimentava prenderam os meus, ainda que não os mirassem. Nas rugas da expressão cansada de minha esposa, eu lia um desespero mudo. Uma resignação própria de seu coração em migalhas e uma promessa de choro que nunca se concretizava. Era evidente como lhe pesavam as decisões altruístas, a postura abnegada e a generosidade com que acompanhara o marido doente, quando mudou-se da cidade para o campo, com o único propósito de garantir conforto à sua morte inevitável. Fossem outros tempos e a dor trazida por essa constatação teria sido ainda mais lancinante que a angina a me cortar o peito todos os dias. Naquele momento da vida, envolvido com as limitações fisiológicas daquele epílogo, minha concentração se esvaía no reflexo simples de responder às despedidas de minhas filhas e sorrir às suas promessas de regresso.

O céu já sangrava seu espectro de cores, anunciando o cair da noite. Envolvido que estava no automartírio, demorei-me a dar pela sua presença. Seu pequeno corpo pousado na janela aberta, coberto de penas negras e brilhantes. Os olhos fundos e opacos, feito buracos sem fim, me encaravam como se instigassem minha alma submersa a dar as caras e respirar o ar do mundo exterior. Me davam calafrios aqueles olhos de corvo.

“Uma bela ave, é o que tu és”, comentei para lhe agradar. O corvo não moveu um centímetro, e mesmo assim tive a impressão de que aquiescia. “Te chamarei Nevermore, se não te importas. É o nome de um dos teus em um belo poema que conheci há muito tempo. Se me ajudasse a memória entrecortada, o declamaria para ti.” O corvo deteve-se ainda por um instante antes de alçar voo pela mata, sem me oferecer nenhuma resposta.

***

Exasperava-me aquela insistência de pancadas na porta. As batidas eram mecânicas, farsantes. Não me pediam real permissão para passar pelos umbrais, eram meros embustes. Gritei para que entrassem ao segundo ressoar daquele som oco e débil. Esqueci-me, no entanto, de complementar a reação intempestiva com uma expressão severa no rosto. Assim, recebi minha esposa e nossa filha mais nova com um sorriso que a elas parecia deslocado e estranho, mas que a mim figurava sincero. Explicaram-me, antes mesmo que eu pudesse formular a pergunta, que a mais velha precisara resolver um contratempo com o filho no colégio.

Era já tarde quando vieram as mulheres, e minha filha apoiava os cotovelos na janela aberta, de modo a torcer o tronco para fora em direção à mata. Parecia distante e preocupada. Quase não falou e em momento algum aproximou-se da cama para me oferecer o consolo traduzido em seus abraços. Nem mesmo me coçou a careca, como costumava.

O corvo pousou de chofre sobre a madeira da janela, creio que na mesma posição que ocupara no fim da tarde anterior, com seu olhar vazio sempre em minha direção. Minha filha espantou-se. Com um salto para trás, cuspiu um palavrão na direção da ave. O bicho me olhava fixamente, repetindo o que eu já reconhecia como seu ritual, sem piscar ou mover um centímetro das penas de petróleo.

“Chamo-o Nevermore”, eu disse.

“Como o do poema”, minha esposa sorriu.

“Veio me visitar ontem, creio que à mesma hora.”

“É horripilante”, sentenciou minha filha. O corvo deixou seu lugar na janela e perdeu-se pelo fim de tarde, sem demonstrar ter-se ofendido.

***

A maçaneta girou rapidamente depois de uma leve batida protocolar na madeira. Minha esposa atravessou o umbral inquieta. Estendeu-me o maço de cigarros que apertava na mão. Seus movimentos eram controlados demais e denunciavam que por baixo da superfície calma, fervilhava em agitação e ansiedade.

“Tem certeza que é isso que você quer?”

“Meu amor, eu já estou com um pé no mundo dos idos. A esta altura, não há mal em divertir-me um pouco.”

Ela torceu o nariz, contrariada, mas furtou-se a estender uma discussão. Eu tremia como tremem os fracos, mas ainda assim fui capaz de riscar o isqueiro de prata que nunca abandona seu lugar embaixo do meu travesseiro. Levantei o pequeno bastão de tabaco e o pendurei entre os lábios frouxos. Ela deitou-se ao meu lado e também acendeu um dos cigarros. Empurrou a fumaça da primeira baforada pela garganta abaixo e devolveu a massa de fumo pelas narinas. Estalou levemente a língua no céu da boca como se avaliasse o gosto e sorriu.

Eu a olhava procurando reconhecer os traços da mulher com quem casei. Mesmo imerso em uma intimidade ostensiva e inescapável, construída com calma e determinação ao longo de cinquenta anos de matrimônio, aquela mulher ainda tinha a capacidade de ser uma desconhecida para mim. Não porque os cabelos, longos e coloridos de acordo com as fases da lua, quando menina, hoje fossem curtos e grisalhos. Não porque tivessem hoje seus ossos uma aparência mais frágil e esponjosa, e sua pele mais quebradiça cobrisse nacos de gordura onde antes sustentavam-se músculos rígidos. A estranheza estava em seu olhar. Estava na serenidade com que soprava o monóxido de carbono de dentro dos pulmões pela janela. Era possível traçar em seu rosto a marca de suas escolhas passadas, de sua trajetória. Não pude reconhecer naquela expressão imperturbada a mulher que dividia comigo a cama mesmo quando eu tinha casos com outras pela rua. Ou a mulher que guardara o lar por tantos anos para cuidar da família que concluiríamos ser muito mais dela do que minha, se nos atrevêssemos a mensurar o grau de presença e influência sobre os desdobramentos dos eventos domésticos. Quando nos casamos, ela pintava quadros, tocava piano e começava uma promissora carreira acadêmica. Perguntei-me, naquele momento, se ela pensava nas coisas que quebraram-se pelo caminho a fim de que ela se mantivesse firme no propósito de amar a mim e às meninas. Concluí que ela obviamente pensava nisso. Quem não o fazia era eu somente.

Nevermore retornou. Uma vez mais ele pousou seu corpo pequeno na janela. Os olhos permaneciam turvos e inexpressivos, grudados nos meus. A mulher levantou-se e caminhou hesitante até o corvo. Acariciou-lhe a pequena cabeça, sem que o bicho reconhecesse o afago. Ele deteve-se por mais tempo dessa vez. Depois voou, deixando em seu rastro obscuro as palavras que me prometia.

***

Quando o corvo voltou, eu estava sozinho e a noite já tomara de assalto as cores do céu. Não pousou na janela, mas ao pé da cama. Seu olhar sombrio era quase cruel e me congelou o sangue ralo dentro das veias.

“Quem és?”, perguntei com a fala trêmula.

“Bem sabes quem sou, velho”, sua voz era horrenda. Metálica e rouca, reverberava pelo quarto como se chocasse contra as paredes a fim de quebrá-las.

“Vai-te daqui, demônio! Volta para as sombras de onde saíste fugido, que de assombro mais minha alma não necessita!” disse esputando veneno. O corvo calava, escarnecendo do meu protesto. Voltei então aos céus a minha ira. “Por que me levar de súbito à vista de tão horrenda cena, deus de poucos? Deste-me algo a temer pela eternidade, maldito sejas!” eu babava debilmente, com os olhos voltados para o teto.

A morte é um prato que deve ser servido quente, como uma refeição aconchegante, para evitar o choque do espírito sem corpo. A mim, serviram-no frio, regado ao horror daquela criatura que, saída do inferno, vinha ocupar a minha cama. O corvo deixou mais uma vez a inércia jocosa com que me tratava e caminhou pelo colchão até o bico alcançar o pé do meu ouvido. O som gutural de sua voz, meu último tormento, vinha direto das profundezas do mundo.

“Chegou a tua hora, velho.”

SOBRE O AUTOR

Nasceu na Baixada Fluminense. É antropólogo e mestre em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília. Gosta de dizer que escreve desde moleque para fingir que isso é muito tempo. Mente que não quer viver de escrever. É contista, cronista e roteirista. Publicou em 2015 seu primeiro livro de contos, Fratura Exposta, pela Editora Kazuá.